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Sindicato é Pra Lutar


No meu primeiro emprego registrado como jornalista, e lá se vão 12 anos, aprendi que é normal jornalista trabalhar de graça. Eu costumava passar dez horas por dia na redação da  Tribuna Impressa, em Araraquara, mas o meu contrato previa só cinco horas diárias: as horas a mais eu fazia sem receber um centavo. Quando vim para São Paulo, continuei meu aprendizado. No grupo Folha de S.Paulo, especialmente no Agora SP, descobri que jornalista, além de trabalhar de graça, convive com o estresse desnecessário e o assédio moral como partes integrantes da profissão. Foi o que aprendi, por exemplo, quando tive de ficar duas horas depois do meu horário, após ter trabalhado a madrugada inteira sem receber um centavo de adicional noturno, apenas para ouvir o secretário de redação declarar, por nenhum motivo específico, que meu trabalho era um lixo e eu não merecia o desconto na escola de inglês que a empresa me oferecia tão generosamente. Aprendi o que significa passaralho: significa que empresas jornalísticas, mesmo no azul, podem demitir dezenas de profissionais de uma vez sem que haja qualquer reação. Valia por um curso completo em miséria humano ouvir um colega descarregar o ódio no bar após o trabalho imaginando maneiras de trucidar seus chefes, ver uma outra saindo com olhos vermelhos do banheiro para fechar a próxima matéria e ficar sabendo que outros tomavam antidepressivos tão pesados para seguir com a vida que quase eram barrados nos exames demissionais pós-passaralhos. Aprendi que jornalista pode trabalhar até sem existir. Num caso único de incursão do Ministério Público do Trabalho pelo Folha de S.Paulo, a empresa chegou a esconder os jornalistas do seu site no restaurante para evitar que os fiscais descobrissem que a maioria era tão informal (invisíveis para os registros legais) como os escravos bolivianos das confecções do Brás. Também passei por três assessorias de imprensa e aprendi que jornalista pode pagar para trabalhar, abrindo empresas ou comprando notas fiscais para fingir que está apenas prestando serviços na empresa onde está todos os dias.

Lições poderosas, que continuam a ser ensinadas. Como as faculdades de Jornalismo não dão noções de direito trabalhista e mercado de trabalho, há gerações de recém-formados sendo despejadas no mercado de trabalho que acham normal ser obrigado a virar pessoa jurídica para ser empregado.

São lições que aprendi. Mas também aprendi que cada um tem a força e o poder para decidir quais lições vai aprender com a vida. Que as lições da exploração só continuam a ser ensinadas porque somos fracos. E somos fracos porque somos um, cada um mastigando sozinho sua dose diária de dor e submissão. Hora de ouvir de novo a lição que Chico Buarque logo cedo ensinou para minhas filhas, a lição de que “todos juntos somos fortes, somos flecha e somos arco, somos nós no mesmo barco, não há nada para temer”.

Vários dos abusos que vi acontecer no dia-a-dia das redações poderiam ser evitados se os patrões simplesmente estivessem dispostos a dialogar com os empregados. Mas no jogo de relações brutal que costuma ocorrer no intestino das empresas, é muito comum que quem está por cima só enxerge os de baixo quando eles mostram força — pois é preciso ser forte para ser visto como humano.

Aprendi que a gente precisava mesmo era de um sindicato. Um sindicato que parecia não existir, pois estava ausente das nossas brigas, e estava ausente porque nós todos estávamos ausentes do sindicato. Um círculo de apatia em que cada um parece ter se acomodado em seu canto escuro. Muitos jornalistas vêm o sindicalismo como um trambolho ultrapassado, coisa de velho ou de peão, nada a ver com pessoas modernas e criativas como nós. Esses tiveram um choque, anos atrás, quando souberam da greve dos roteiristas de Hollywood. Como assim, uma ação sindical no coração da indústria criativa mais importante do planeta? Como assim, caras que escrevem se aliando com outros caras que escrevem para lutar pelo que é melhor para todos? Como assim, caras que escrevem conseguindo, por meio de uma ação sindical, impor sua vontade aos estúdios e atrapalhar a produção de Lost, House, 24 Horas? Sindicalismo. É isso aí. Porque sindicalismo nada mais é do que um jeito de estar junto. E é junto que se faz tudo.

A gente precisa de um sindicato novo para ensinar novas lições. E foi por isso que me juntei ao coletivo Chapa 2 – Renovar para Mudar, Sindicato é Pra Lutar, que disputa agora as eleições do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Anote: as eleições começam hoje e vão até quinta-feira, dia 29. Podem votar jornalistas sindicalizados há mais de seis meses, que infelizmente são minoria. Poucos fazem parte do sindicato porque a maioria não acredita nele. Isso precisa mudar.

Há pessoas muito boas na Chapa 2. A candidata à presidenta é Bia Barbosa, do vídeo aí em cima: jornalista dura e combativa, militante da democratização da mídia, fundadora do Intervozes, que pode se tornar a primeira mulher eleita presidente do sindicato. Tem o candidato a secretário-geral, Pedro Pomar, um lutador de uma família de lutadores, com quem trabalhei na Revista Adusp: dele, posso dizer que foi um dos melhores editores com quem colaborei. E outros, muitos mais. Acho que é de gente assim que podem vir as novas lições, não de um grupo que busca eleger pela terceira vez o mesmo presidente.

Já participei da mesma chapa em outras duas eleições, quando fomos derrotados. Na época, meu apoio foi envergonhado: nem cheguei a divulgar no meu antigo blog, que era razoavelmente lido. Era a postura groucho-marxista de não querer fazer parte de um clube que o aceite, mais o medo de vencer as eleições e de repente sair da cômoda posição de pedra para virar vidraça, uma timidez irmã gêmea da arrogância. São posturas que queimei. Estou aprendendo a levar até o fim cada um dos papéis que assumo no dia-a-dia, seja de pai, amigo, profissional, militante. Estar inteiro em cada aspecto da vida — é o que busco. A mais nova lição que escolhi aprender.

Veja quem apoia a Chapa 2

Conheça o programa da Chapa 2

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O detalhe se assemelha ao todo

vida secreta arvores

A morada do criador
O pimpol é a morada do Criador. É uma árvore cultivada pelos hindus e povos da floresta. Eles vêm de longe para fazer suas preces despejando água no seu tronco. O pimpol é tão perfeito que, visto contra o céu, parece ter a forma igual à de sua folha. O detalhe se assemelha ao todo.

Do livro A vida secreta das árvores, que reúne ilustrações e palavras da tribo gonde, da Índia Central, para quem “a fortuna cabe àqueles cujos olhos encontram uma boa imagem”. Os livros são feitos à mão, por meio de serigrafia (dá para ver o processso aqui), e são uma beleza.

Vereadores de SP apoiaram golpe de 64

Fachada do Palacete Prates, onde funcionava
a Câmara Municipal de São Paulo em 1964

O golpe de 1964 havia acabado de parir uma ditadura, que iria torturar e matar centenas de pessoas ao longo de vinte anos. Em 6 de abril, na primeira sessão da Câmara Municipal  de São Paulo após a queda do presidente João Goulart, 15 dos 45 vereadores eleitos resolveram se pronunciar sobre o golpe. Dos 15 parlamentares que falaram, 14 elogiaram o derrubada de Goulart e a ditadura recém-nascida. (A revelação está no número de estreia da Revista do Parlamento Paulistano, lançado em dezembro, que ajudei a editar, uma publicação que busca ser uma iniciativa de comunicação pública, autônoma e livre de interferências políticas.)

Agora em que comissões da verdade buscam apurar fatos e resgatar responsabilidades, é uma boa hora para lembrar que a ditadura de 1964-1985 não surgiu de geração espontânea nem foi uma ação exclusiva de militares. Muitas forças ajudaram no parto e embalaram o monstro, gente da política, do empresariado, da intelectualidade, dos meios de comunicação. Ditaduras e genocídios são filhos de muitos pais, em geral desmemoriados.

Aproveito o post para contar aqui a história de um vereador da mesma época que se opôs ao golpe e pagou por isso, sendo cassado e preso. A história de Moacir Longo foi contada no mesmo número da revista. O título foi tirado de uma carta-discurso de Longo, que você pode ler ao final do post. Lida em plenária logo após a cassação do vereador, a carta é uma imagem de coragem em estado bruto, combatendo o poder que se julga inquestionável.

Moacir Longo e seu diploma de vereador, cargo que ocupou por três meses (foto de Marcelo Ximenez)

“Creio que todos sabem por que estou ausente”

Os vereadores não voltaram para casa naquela segunda-feira, 30 de março de 1964. Nem no dia seguinte. Por duas noites, dormiram e acordaram no interior do Palacete Prates, no Vale do Anhangabaú, onde funcionava a sede da Câmara Municipal de São Paulo. Passaram os dias ouvindo no rádio as notícias sobre a movimentação das tropas que pretendiam derrubar o presidente João Goulart. Um dos parlamentares, o jornalista e militante comunista Moacir Longo, do PSB, sabia: se os militares tomassem o poder, ele corria o risco de sair do palacete direto para a cadeia.
(mais…)

Bebê que dança e olha pra tudo

Bebê que dança e olha pra tudo.

Os verbos que ela conjuga são essenciais.

Ver. Sentir. Comer. Cagar. Rir.

Amar.

Um amor que tem cor, amor que se come, que se cheira,

amor que faz o coração bater e que vira cocô,

cocô bom de criança

cheio de cor e de cheiro,

que a gente que é pai limpa como se comungasse.

Porque a vida toda é comunhão

para o pai que olha para o mundo,

o mundo de repente novo, todo luz e todo mistério,

que aprendeu dos olhos da filha.

Quero gritar minha Vitória

Outro dia encontrei uma folha de caderno coberta com a letra da minha filha do meio. “Vitória, você que escreveu?” Foi. Vitória Alves da Silva Salvadori. Uma das minhas três rainhas.

Agora eu quero falar, mesmo sem palavras eu quero falar, falar que as coisas não são mais como eram antes, dizer que amar já está sendo complicado, dizer que a vida já está ficando mais complicada. Dizer tudo aquilo que tive medo de falar, e fazer tudo aquilo que tive vontade de fazer, sem medo de ser julgada ou apontada como louca.
Eu quero mais do que posso, quero gritar minha vitória e correr de braços abertos pela rua abrindo um mundo novo de oportunidades para mim. Eu quero ser tudo aquilo que nunca tive coragem de ser.

Choro lágrimas de sangue e vejo pessoas queimando em minha frente. Sei que elas não vão escapar. Ninguém ira escapar de uma morte tão boa quanto essa. As pessoas gritam e por um minuto escuto minha mãe me chamar. Olho para os lados mas não a encontro, então a vejo queimar nas chamas fervorosas do inferno. Choro lágrimas de sangue e no momento sinto que não vou escapar de uma morte tão boa quanto essa. Minha mãe me chama e eu a sigo e queimo com ela nas chamas do inferno.

Hoje não vou dormir em casa, porque a solidão está se ocupando lá por um tempo. Não quero encontrá-la, quero ficar bem longe dela, não quero mais solidão, por isso vou viajar, fazer as malas e espero não encontrá-la lá.

Vitória Alves da Silva Salvadori

O hai-kai, por Octavio Paz

Basho poeta japonês

Matsuo Bashô (1644-1694)

De uma forma voluntariamente anti-heróica, a poesia de Bashô nos chama para uma aventura verdadeiramente importante: a de nos perdermos no cotidiano para encontrar o maravihoso. Viagem imóvel, ao término da qual nos encontramos conosco mesmo: o maravilhoso é nossa verdade humana. Em três versos o poeta insinua o sentido deste encontro:

Um relâmpago
e o grito da garça
perdido no escuro.

O grito do pássaro funde-se com o relâmpago e ambos desaparecem na noite. Um símbolo da morte? A poesia de Bashô não é simbólica. A noite é a noite e nada mais. Ao mesmo tempo, é algo mais que a noite, porém um algo que, rebelde à definição, recusa-se a ser nomeado. Se o poeta o nomeasse, se evaporaria. Não é o rosto escondido da realidade; ao contrário, é seu rosto de todos os dias… e é aquilo que não está em rosto algum. O hai-kai é uma crítica da realidade. Em toda realidade existe algo mais do que aquilo que chamamos realidade. Simultaneamente, é uma crítica da linguagem:

Admirável
aquele que diante do relâmpago
não diz: a vida foge.

Crítica do lugar-comum mas também crítica à nossa pretensão de identificar o significar e o dizer. A linguagem tende a dar sentido a tudo o que vemos e uma das missões do poeta é fazer a crítica do sentido. E fazê-la com as palavras, instrumentos e veículos do sentido. Se dissemos que a vida é curta como o relâmpago, não só repetimos um lugar-comum como também atentamos contra a originalidade da vida, contra aquilo que efetivamente a faz única. A verdade original da vida é sua vivacidade e essa vivacidade é conseqüência de ser mortal, finita: a vida está tecida de morte. Porém, ao dizer isso, convertemos em dois conceitos, vida e morte, a vivaz e fúnebre unidade vida-morte. Há uma linguagem que diga essa unidade sem dizê-la? Há, o hai-kai: uma palavra que é a crítica da realidade, uma realidade que é a burla oblíqua do significado. O hai-kai de Bashô nos abre as portas de satori: sentido e falta de sentido, vida e morte, coexistem. Não é tanto a anulação dos contrários nem sua fusão como uma suspensão do ânimo. Instante da exclamação ou do sorriso: a poesia já não se distingue da vida, a realidade reabsorve a signficação. A vida não é nem longa nem curta mas é como o relâmpago de Bashô. Esse relâmpago não nos avisa de nossa mortalidade; sua mesmoa intensidade de luz, semelhante à intensidade verbal do poema, nos diz que o homem não é unicamente escravo do tempo e da morte mas que, dentro de si, leva outro tempo. E a visão instantânea desse outro tempo chama-se poesia — crítica da linguagem e da realidade, crítica do tempo. A subversão do sentido produz uma reversão do tempo: o instante do hai-kai é incomensurável. A poesia de Bashô — esse homem frugal e pobre que escreveu já entrado em anos e que perambulou por todo o Japão dormindo em ermidas e e pousadas populares, esse reconcentrado que contemplava longamente uma árvore e um corvo sobre a árvore, o brilho da luz sobre uma pedra, esse poeta que depois de remendar suas roupas surradas lia os clássicos chineses, esse silencioso que falava nos caminhos com os lavradores e as prostitutas, os monges e as crianças — é algo mais que uma obra literária. É um convite para viver verdadeiramente a vida e a poesia. Duas realidades inseparáveis e que, no entanto, jamais se fundem inteiramente: o grito do pássaro e a luz do relâmpago.

Final de ensaio de Octavio Paz publicado em O Livro dos Hai-kais, antologia bonita para caralho editada em 1980 por Massao Ohno, com ilustrações de Manabu Mabe. Peguei o livro emprestado na semana passada na Biblioteca Sérgio Milliet, do Centro Cultural São Paulo, e entendi porque tanta gente pagava pau para o trabalho do Ohno.

Escrever

Antes de escrever, ser.

Um homem que escreve é um homem que existe e que pega objetos com os quais escreve.

Escrever acontece na matéria.