A espada de madeira

Índio Guajajara e índio Urubu-Kaapor fotografados
por Charles Wagley no Maranhão em 1942

A percepção de uma política e de uma consciência histórica em que os índios são sujeitos e não apenas vítimas só é nova eventualmente para nós. Para os índios, ela parece ser costumeira. É significativo que dois eventos fundamentais — a gênese do homem branco e a iniciativa do contato — sejam freqüentemente apreendidos nas sociedades indígena como o produto de sua própria ação ou vontade.

A gênese do homem branco nas mitologias indígenas difere em geral da gênese de outros “estrangeiros” ou inimigos porque introduz, além da simples alteridade, o tema da desigualdade no poder e na tecnologia. O homem branco é muitas vezes, no mito, um mutante indígena, alguém que surgiu do grupo. Freqüentemente também a desigualdade tecnológica, o monopólio de machados, espingardas e objetos manufaturados em geral, que foi dado aos brancos, deriva, no mito, de uma escolha que foi dada aos índios. Eles poderiam ter escolhido ou se apropriado desses recursos, mas fizeram uma escolha equivocada. Os Krahô e os Canela, por exemplo, quando lhes foi dada a opção, preferiram o arco e a cuia à espingarda e ao prato. Os exemplos dessa mitologia são legião: lembro apenas, além dos já citados, os Waurá, que não conseguem manejar a espingarda que lhes é oferecida em primeiro lugar pelo Sol ( Ireland, 1988:166), os Tupinambá, setecentistas do Maranhão cujos antepassados teriam escolhido a espada de madeira em vez da espada de ferro ( Abbeville, 1975 [1612]: 60-1). Para os Kawahiwa, os brancos são os que aceitaram se banhar na panela fervente de Bahira: permaneceram índios os que recusaram (Menéndez, 1989). O tema recorrente que saliento é que a opção, no mito, foi oferecida aos índios, que não são vítimas de uma fatalidade mas agentes de seu destino. Talvez escolheram mal. Mas fica salva a dignidade de terem moldado a própria história.

Trecho de Introdução a uma história indígena, de Manuela Carneiro da Cunha, parte do livro História dos Índios no Brasil (Companhia das Letras, 1992).

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O coração destroçado pelas mesquinharias

Luís Antonio

O telefone do apartamento tocou. Do outro lado da linha, a 700 quilômetros do corpo estraçalhado de Luís, estava seu irmão, José Celso Martinez Corrêa. Esperava Luís para a ceia de Natal, ao lado das duas irmãs e da mãe, na casa da família, em Araraquara, no interior de São Paulo. “Seu irmão foi assassinado”, informou o policial ao telefone. “O Luís foi assassinado”, repetiu José para a família reunida em volta da mesa posta para a ceia. Zé Celso tinha 50 anos, treze a mais do que Luís. À frente do Teatro Oficina, já havia sido atacado no palco por caçadores de comunistas, preso pela ditadura, torturado e exilado. Mas foi naquela noite de Natal que Zé Celso conheceu a tragédia.

A história da morte do irmão de Zé Celso, Luís Antonio Martinez Corrêa, um crime que mudou a maneira como os crimes contra homossexuais passaram a ser vistos pela opinião pública, está na reportagem que fiz para a Revista Joyce Pascowitch que acaba de chegar às bancas.

Obrigado, Flavia, pela indicação. Obrigado, Vanessa e André, pela edição caprichada. Obrigado, Carol, Clayton, Gio e Roxo, pela ajuda.

Zé e Luís: evoé!

No divã com gente morta

A mediunidade já foi considerada doença mental, mas novos
estudos indicam que “falar com mortos” funciona como terapia

A Morte: personagem da HQ "Sandman", criada por Neil Gaiman e Mike Dringenberg

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Fantasmas na biblioteca

Um outro jeito de pensar a mente

Uma doença vinda da Europa ameaça a saúde mental da família brasileira. Pior do que a cocaína, a sífilis, o alcoolismo e o socialismo juntos, capaz de induzir a suicídios, estupros, homicídios e à desagregação familiar, ela é a “loucura espírita”, a “doença mediúnica”. O alerta, lançado no final do século 19, partia dos médicos psiquiatras, engajados numa cruzada contra o espiritismo e a mediunidade, que consideravam “verdadeiras fábricas de loucos”.

Franco da Rocha: "espiritismo aumenta número de loucos"

O espiritismo havia surgido anos antes, em 1857, na França, com a publicação do Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, e não demorou a fazer sucesso no Brasil. Era um mix de ciência, filosofia e religião baseado em informações repassadas por médiuns — pessoas com o suposto dom de comunicação com os mortos. Para a medicina da época, porém, a mediunidade não passava de uma doença mental, possivelmente contagiosa e hereditária. Em 1895, Franco da Rocha, fundador do Hospício do Juqueri, em São Paulo, escreveu que boa parte dos pacientes confinados entre seus muros havia endoidecido por frequentar sessões de espiritismo, “essa nova religião que só tem servido para aumentar o número de loucos”. Três décadas depois, outro médico, C. Marques, iria proclamar em seu doutorado que “o combate ao espiritismo deve ser igualado ao que se faz à sífilis, ao alcoolismo, aos entorpecentes (ópio, cocaína, etc.), à tuberculose, à lepra, às verminoses”.

“Queimarem todos os livros espíritas e se fecharem todos os candomblés” era a solução final pedida pelo médico Xavier de Oliveira, em 1931. E não faltaram autoridades para dar ouvidos às recomendações científicas. O espiritismo passou a ser perseguido tanto pela polícia como pelos Serviços de Higiene Mental dos estados. Até o temido major Filinto Müller, chefe da repressão do governo Getúlio Vargas, quando não estava ocupado torturado inimigos do Estado Novo, arrumou tempo para fechar centros espíritas nos anos 40.

Allan Kardec, codificador
do espiritismo

Por trás dos ataques da psiquiatria ao espiritismo estava uma disputa entre concorrentes, explica Angélica Aparecida Silva de Almeida, professora de história do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais, autora da tese de doutorado “Uma fábrica de loucos”: psiquiatria x espiritismo no Brasil (1900-1950) (Unicamp, 2007). “Tanto a psiquiatria como o espiritismo estavam em busca de legitimação, de seu espaço cultural, científico e institucional dentro da sociedade brasileira”, afirma a historiadora. Segundo ela, ambos se voltavam para o tratamento de doenças mentais e lutavam para serem reconhecidos como ciência. Os dois grupos abandonaram o ringue no meio do século 20, quando cada qual já havia achado um lugar para se encaixar na sociedade: a psiquiatria “se estabelecendo como especialidade médica reconhecida” e o espiritismo como “uma religião ligada à prática da caridade e ao fornecimento de consolo espiritual”. Cada um no seu quadrado.

“Estados de transe e possessão”

A guerra podia ter acabado, mas a visão da ciência a respeito de pessoas que alegavam ter uma linha direta com o Além continuou basicamente a mesma: papo de gente doida. Embora não falassem mais em queimar livros nem comparassem o espiritismo às verminoses, os médicos da segunda metade do século 20 continuavam a explicar os fenômenos mediúnicos como frutos de transtornos de múltiplas personalidades ou problemas neurológicos. Ainda hoje, debaixo da rubrica de “estados de transe e possessão”, a mediunidade continua a ser descrita como doença mental nas atuais versões da CID (Classificação Internacional de Doenças), da Organização Mundial da Saúde, e do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), da Associação Americana de Psiquiatria, os principais cânones científicos usados para separar a normalidade da loucura.

Omolu, o guardião dos mortos na umbanda (arte de Gil Abelha)

Tudo o que a ciência acreditava saber sobre a mediunidade, porém, vem sendo questionado na última década por pesquisadores vindos de áreas bem diferentes: psicólogos, neurocientistas, antropólogos, médicos e até estudiosos literários. Nenhum deles conseguiu confirmar (ou desmentir) a origem sobrenatural dos fenômenos mediúnicos, mas uma noção ganhou força: a comunicação com os mortos praticada na mesa branca dos centros kardecistas ou na “gira” dos terreiros de umbanda e candomblé funciona como uma terapia, capaz de rivalizar com os divãs dos melhores psicólogos — não importando se os espíritos existem no Além ou apenas na cabeça dos médiuns. Alguns cientistas vão mais longe e dizem que os terapeutas é que precisam aprender com as técnicas dos grupos religiosos, que há anos cuidam da cabeça de uma população que muitas vezes não tem acesso aos profissionais de saúde mental. “Psicólogo de pobre é pai de santo”, já dizia Zeca Pagodinho.
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Fantasmas na biblioteca

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Parnaso do Além-Túmulo

Capa da primeira edição de
"Parnaso de Além-Túmulo"

Procurar por espíritos entre as estantes das bibliotecas não é uma missão apenas para os Caça-Fantasmas do clássico-pipoca de 1984. Os estudos literários também buscam sinais do Além na literatura mediúnica, comparando livros “psicografados” de escritores conhecidos com as obras escritas pelos mesmos autores em vida.

O Último Romance de Balzac

Cena de "O Último Romance de Balzac"

Feito fora do ambiente acadêmico, um destes livros, O Avesso de um Balzac contemporâneo, custou dez anos de pesquisa ao psicólogo Osmar Ramos Filho, que encontrou vários pontos de contato entre os textos do escritor francês Honoré de Balzac e a obra Cristo Espera por ti, que Balzac teria ditado do Além para o médium Waldo Vieira. A análise de Ramos serviu de base para o documentário O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno, vencedor do prêmio especial do júri do Festival de Gramado de 2010.

Como ghost-writer de mortos, nenhum médium se destacou mais do que o mineiro Francisco Cândido Xavier (1910-2002), autor de mais de 400 livros — com os quais nunca ganhou um centavo, pois não achava justo receber por obras que, segundo ele, teriam todas sido ditadas por espíritos. Em seu livro de estreia, Parnaso de além-túmulo, Chico Xavier encarnava uma verdadeira sociedade dos poetas mortos, reunindo 259 textos psicografados de 56 poetas brasileiros e portugueses, como Cruz e Sousa, Augusto de Anjos, Castro Alves e Guerra Junqueiro.

Chico Xavier

Chico Xavier

Na época, não faltou quem considerasse o livro uma fraude, dizendo que o médium se limitava a chupinhar o estilo das obras que os falecidos haviam escrito em vida — ainda que Chico não exatamente o perfil erudito que se esperasse desse nível de plagiador. Em 1931, ano da primeira edição da antologia, “Chico Xavier era um jovem de 21 anos que trabalhava como caixeiro num armazém das 7h às 20h em Pedro Leopoldo, pequena cidade mineira onde sequer havia biblioteca pública e onde ele estudara até o quarto ano do primário”, lembra Alexandre Caroli Rocha, doutor em teoria e história literária pela Universidade de Campinas, que estudou a obra mediúnica de Chico. “Mesmo hoje, contando com os recursos da internet e com as bibliotecas da USP e da Unicamp, tive dificuldade para encontrar livros de todos os autores mencionados na obra de Chico”, lembra.

Em 1944, o que era espiritual virou questão legal. A viúva do escritor Humberto de Campos (1886-1934), de quem Chico Xavier afirmava ter psicografado cinco livros, processou o médium querendo receber a sua parte pelos direitos das obras póstumas do marido. O Judiciário negou o pedido, considerando que a família só poderia pleitear os direitos sobre as obras escritas pelo autor em vida. Depois do processo, Chico voltaria a publicar outros sete livros atribuídos a Campos, mas, para evitar novos problemas com a Justiça da terra, preferiu assiná-los com o pseudônimo Irmão X.

Alexandre Caroli Rocha

Alexandre Caroli: hipótese de fraude não explica livros de Chico Xavier

Caroli fez sua dissertação de mestrado a respeito de Parnaso e, no doutorado, analisou a produção mediúnica atribuída a Humberto de Campos. E descobriu que os textos psicografados continham marcas de autoria dos escritores falecidos, tanto no conteúdo como nos aspectos formais, em um nível que ia muito além da simples imitação. “O autor das obras psicografadas conhecia a obra de Humberto de Campos melhor do que eu, que passei quatro anos estudando o autor em meu doutorado”, compara. Sobre o escritor português Guerra Junqueiro, Caroli afirma que os seis poemas reunidos em Parnaso sintetizam, “de modo extremamente sofisticado”, todas as características do estilo do poeta português, que só viriam a ser explicitadas pela crítica especializada no livro Guerra Junqueiro e a sua obra poética, de Amorim de Carvalho, publicado em 1945, mais de uma década após a aparição post-mortem do poeta no livro de Chico.

E qual foi sua conclusão? “A hipótese do pastiche – que é a hipótese da fraude pura e simples – não me parece sustentável no caso de Chico Xavier”, afirma Caroli, levantando a necessidade de buscar outras explicações. “A hipótese da mediunidade deve ser levada em conta, embora não haja consenso entre os estudiosos do tema sobre como entendê-la.”

Um outro jeito de pensar a mente

Pam Reynolds

Pam: experiência de quase morte

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Em 1991, a cantora norte-americana Pam Reynolds morreu por alguns minutos. “Matar” clinicamente a cantora foi o procedimento utilizado pela equipe cirúrgica para remover um aneurisma de seu cérebro. Durante a operação, ela deixou de respirar, seu coração parou de bater e o sangue foi drenado da sua cabeça. Ao se recuperar da cirurgia, ela foi capaz de contar em detalhes os procedimentos da equipe médica, descrevendo diálogos e aparelhos utilizados.

Por tudo o que a neurociência descobriu na última década, histórias como a de Pam Reynolds, que sugerem a existência de uma mente que funcionaria independentemente do cérebro, não poderiam ocorrer. Afinal, a cada dia surgem novos estudos indicando que tudo o que existe na mente humana, de pensamentos e emoções a ética e personalidade, não passam de produtos da atividade cerebral.

Júlio Peres

Júlio Peres: mente pode
funcionar sem cérebro?

Desafinando esse coro, alguns cientistas têm se voltado para a investigação de experiências espirituais que, segundo eles, exigiriam uma nova maneira de pensar a mente. Entre elas, as experiências de quase-morte (como as do filme Além da Vida), e os fenômenos mediúnicos. Uma das principais experiências do tipo é The Human Consciousness, um projeto desenvolvido em 25 hospitais europeus e norte-americanos que pretende acompanhar 1.500 sobreviventes de parada cardíaca, e, por meio do monitoramento das atividades corporais e de entrevistas com os pacientes, tentar determinar o que há de real e de imaginário nas experiências de quase-morte. “Essas experiências desafiam a doutrina materialista em relação ao problema mente-cérebro, sugerindo que os processos mentais podem ser experimentados no momento em que as funções do cérebro aparentemente não estão ativas”, aponta Julio Peres.

Outro neurocientista, Li Li Min, prefere acreditar em causas neurobiológicas para as experiências de quase-morte, como alterações na visão, provocada pela falta de oxigenação no cérebro, que provocariam a ilusão de entrada num túnel de luz (comum nas descrições de quem acredita ter feito um bate-e-volta para o Outro Lado) e “elaborações complexas do cérebro” semelhantes a sonhos. No caso de Pam Reynolds, especula que “ela poderia ter imaginado a cirurgia a partir de informações prévias, como documentários de televisão”.

Zamora critica os "estudos de crentes para crentes"

Zamora critica os
"estudos de crentes para crentes"

“Esse tipo de estudo é feito por crentes que falam para outros crentes da mesma área de pesquisa dele”, rebate o geneticista Renato Zamora Flores. “A ciência de boa qualidade deve reunir dados empíricos tão bons que sejam capazes de convencer os descrentes, como eu, e isso eles não conseguiram fazer”, diz.

E não será nada fácil convencer Zamora, que continuou ateu mesmo após passar por uma experiência de quase-morte durante um acidente de carro, com direito ao pacote completo de sensações deste tipo de evento. “Na minha visão se formou um túnel, eu vi um monte de luzes e, à medida que sangrava, eu sentia que as coisas iam ficando mais tranquilas”, lembra. Um vislumbre do Além? Nada. “A minha impressão é que tudo isso eram neurônios disparando por causa da falta de oxigênio no cérebro. Eu continuo certo de que não existe vida após a morte. Mas achei engraçado porque vi como morrer pode ser bonito.”