Histórias por contar

Chegou a hora. Comissões da verdade começam a exumar corpos e histórias. Promotores do Ministério Público e grupos de escracho relembram velhos crimes nunca punidos. Crimes da ditadura: quem foram suas vítimas? Já ouvi dizer por aí que a violência do regime só atingiu um determinado número de militantes políticos, jornalistas, universitários e sindicalistas, enquanto a maioria da população passou ilesa pelo período 1964-1985, mal notando que vivia sob uma ditadura. Todo mundo tem aqueles tios que contam que o governo dos militares foi bacana com eles e que nunca tiveram qualquer problema com os agentes da repressão. Mas há muita gente que pode ter histórias diferentes para contar.

Escrevendo uma reportagem para a Revista Adusp, fiquei impressionado ao falar com gente de Buriti Cristalino, povoado no sertão baiano onde o capitão Carlos Lamarca foi executado, e ouvir que ali a operação dos militares em busca do guerrilheiro deixou uma herança de dor e medo que continua a perturbar seus moradores até hoje. Aqui um trecho da matéria:

De uma hora para outra, o povoado de 200 habitantes viu-se invadido por 215 homens das três Forças Armadas, além de policiais federais, civis e militares. Invadiram a casa da família Barreto, onde mataram Otoniel e Santa Bárbara, além de balear Olderico. Durante dias, o chefe da família, José Barreto, foi torturado diante da população para contar onde seu filho Zequinha estava escondido com Lamarca. Zé Barreto era o “juiz de paz”, a principal autoridade moral do povoado. Havia construído a igreja e a escola, era em sua casa que as noivas se vestiam para o casamento e era seu Zé quem trazia o padre a Buriti para celebrar as festas religiosas. “Imaginem o que foi para a população ver aquele homem sendo torturado em praça pública”, comenta Aparecido.(…)

Mesmo após a democratização, a herança do medo deixado pela presença militar continuou a ser manipulada pela elite política local. “Um soldado que havia colaborado com os militares durante o cerco a Lamarca conseguiu eleger a mulher vereadora por vários mandatos, ameaçando: ‘Se não votarem nela, eu chamo o comando de volta’”, contou a cineasta Maria das Graças Sena (…). Até hoje, segundo ela, alguns moradores se recusam a receber agentes de saúde em casa e deixam de levar os filhos para receber vacina.

Dá para ler o resto aqui. Aproveite e veja também as matérias sobre as consequências sociais da Copa e dos Jogos Olímpicos, a perseguição aos extrativistas da Amazônia, o desmonte da TV Cultura e outras mais. Todas histórias que precisam ser narradas.

Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: