Crime capital

Ao meio-dia, num matagal próximo ao Centro Olímpico da Universidade de Brasília (UnB), um dos policiais, Antônio Morais de Medeiros, resolveu sentar-se e rezar. Sua oração foi interrompida pela chegada de um rato, que passou por ele e entrou em uma toca que parecia ter sido mexida há pouco. Com um pedaço de pau, o agente revolveu a terra e encontrou Ana Lídia Braga: nua e morta, enterrada em uma vala rasa do cerrado brasiliense, a mil metros da Praça dos Três Poderes.

Os peritos calcularam que a criança havia sido assassinada de madrugada, por asfixia, entre 4h e 6h daquele 12 de setembro de 1973. Os cabelos haviam sido cortados de forma irregular, a pele estava coberta por hematomas e escoriações e os ferimentos nas partes íntimas indicavam que ela havia sido estuprada depois de morta.

Ali, junto ao corpo de Ana Lídia, ao lado de duas camisinhas usadas e das mechas de cabelo misturadas com a terra, morria o sonho de uma Brasília ideal. Uma Brasília que ainda se via como uma jovem capital modelada com as curvas da utopia de Oscar Niemeyer, um sonho de modernidade construído por brasileiros de todos os lugares — ainda que as ações de expulsão da gente pobre do Plano Piloto para as novas cidades-satélites já dessem mostras de que a nova metrópole não seria assim tão diferente das outras.

Para Joelma Rodrigues da Silva, doutora em história pela UnB, o sequestro, estupro e morte de Ana Lídia significou “uma outra inauguração de Brasília”, que mudou o significado da capital para os seus habitantes, destruindo as ilusões de uma cidade melhor do que as outras. “Brasília não era mais um lugar para começos, não era o lugar do futuro, era um lugar como outro qualquer, com os mesmos demônios, os mesmos perigos, os mesmos riscos. O estupro-assassinato inaugura uma cidade onde também se eliminam inocentes”, afirma.

Trecho da reportagem que escrevi para a Revista Joyce Pascowitch de junho, sobre Ana Lídia, menina de sete anos morta e estuprada nos primeiros anos de Brasília, num crime que destruiu as ilusões que a capital tinha de si mesma. Uma história muito triste.

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