Forever foca

— Eu era o Young Foca. Depois, virei o Kid Foca. Logo eu vou ser o Old Foca.

Era a queixa de Marcos, o jornalista fracassado da peça Efeito Urtigão, do Mário Bortolotto.  Foca é o apelido que os jornalistas dão aos colegas cabaços, os profissionais recém-chegados que batem palmas, deslumbrados, diante de tudo o que vêem, fazem perguntas estúpidas sem parar e acham lindas todas as tarefas que recebem, por mais banais que sejam. Para Marcos, ser foca era uma maldição, a lembrança de que ele seria sempre visto como um novato permanente, um sem-talento destinado ao feijão-com-arroz das rotinas da redação. Para mim, é um mantra que procuro repetir para não esquecer. Eu fui um foca. Eu sou um foca. Eu serei um foca enquanto escrever/viver. Toda vez que esqueci isso, me fodi.

Teve épocas em que me considerei um jornalista experiente. Isso ainda acontece, às vezes. Acumulei alguns anos, alguns trampos, aprendi meia dúzia de truques. Pronto. Já podia acreditar que entendia o meu ofício e o mundo à minha volta. As histórias que via e ouvia começavam a ficar parecidas, e o meu jeito de contá-las, também. Quando isso acontece, o mundo deixa de ser o espaço de surpresa e mistério que recomeça sempre que você abre os olhos de manhã. Para o jornalista experiente, o mundo é repetitivo. Todas as pessoas e fatos não passam de novas versões de pessoas e fatos sobre os quais ele já escreveu. O jornalista experiente sabe enquadrar a realidade em alguns templates prontos, que convencem editores e leitores. Como está sempre em busca da repetição, o jornalista experiente deixa de perceber o novo e o único que existe em cada instante. O jornalista experiente que é colocado diante de uma flor amarela não consegue enxergá-la: verá apenas a repetição das flores amarelas que já encontrou antes. A flor, ali, em sua presença física, naquela hora, naquele lugar, é invisível para o jornalista experiente.

O jornalista experiente não tem olhos nem ouvidos. Ele não precisa ver nem ouvir, porque já conhece todas as coisas e tem suas opiniões sobre cada uma delas. Nada o deixa nervoso ou empolgado. O jornalista experiente é velho, não importa quantos anos tenha. Seu principal sentimento é o tédio.

Ainda bem que andei quebrando a cara e descobri que o que chamava de experiência não passava de acúmulo de anos. Que eu havia ficado velho antes de ficar sábio, como o Bobo fala para o rei Lear. Os bobos, eles é que têm a sabedoria. Porque só quem estuda para valer um assunto consegue descobrir, lá nas profundezas, como as coisas são complexas e as certezas, quebradiças. Quem acha que conhece a realidade e rejeita as descobertas que possam virar sua visão de mundo de ponta-cabeça está apenas sendo escravo do próprio ego. E o ego é um senhor de casa-grande filhodaputa, do tipo que mantém seu escravo trancado num quartinho minúsculo e sem janelas, isolado do que se passa lá fora. Dessa prisão nasce o tédio: se a realidade é surpresa e mudança, apenas quem se fecha para o mundo pode deixar de se emocionar.

Eu sou um foca. Eu não sei nada. E não saber nada é libertador. Não tenho mais que ter opinião sobre tudo. Não preciso mais julgar. Não preciso mais classificar tudo o que conheço em certo e errado, bonito e feio, direita e esquerda. Antes de usar a mente, o foca simplesmente… vê. Ouve. Sente. E a partir daí conhece. Ser foca significa estar de olhos abertos e ouvidos atentos para tudo o que o mundo apresenta. Já que tudo é novo, então tudo é descoberta, tudo é aprendizado e tudo emociona. Foca tem olho de criança. E criança não tem tédio.

Tudo bem que ainda não consigo ser tão foca como gostaria. Às vezes me pego bancando o experiente: enquadrando pessoas em tipos, adivinhando sem conhecer, escrevendo antes de apurar, opinando, opinando. Bom mesmo foi ter olhado para mim antes de começar uma pauta, dia desses, e perceber que estava nervoso, sem saber direito como iria agir. Que bom, pensei, estou sendo foca. Estou me deixando surpreender, sabendo que vou ver algo/alguém pela primeira vez — afinal, ter visto antes não é o mesmo que ver agora. Ser foca é bom por isso. Quando a gente consegue perceber que uma flor amarela não é igual à outra, a vida vira um presente permanente.

Post anterior
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: