As taras, digo, tiras de Andrício

Capa da coletânea de tiras do André: prefácio de Allan Sieber

Foi ele quem aprimorou a qualidade da prosa de Dostoiévski, ao aconselhar o velho russo a deixar de confiar no corredor do Word. Não fosse por ele, em vez de A Banda, Chico Buarque teria composto A Bunda, lançando o axé nos anos 60. Passagens como estas da pitoresca biografia de Andre Cintra de Souza, o Andrício, faziam parte de seus blogs Eu não sou virgem, Maria! e Eu não sou mané, Garrincha!, que ele mantinha quando nos conhecemos, há quatro anos. Eu gostava dos dois sites, mas acho que o fã-clube do cara não tinha muitos outros membros além de mim. O trabalho do André só ficou conhecido quando ele resolveu adicionar um traço vagabundo de caneta azul ao seu texto e criou as tiras do Andricio de Souza.com.

As tiras vão agora sair em livro: As 100 primeiras e melhores tirinhas de Andrício de Souza, pela editora Multifoco, com prefácio de Allan Sieber. Andrício está fazendo tanto sucesso que não tem mais tempo para os amigos. Tive que encher muito o saco dele e aceitar várias propostas indecorosas até que Andrício aceitasse me ceder dez minutos da sua concorrida agenda de jornalista desempregado para uma entrevista.

Como uma das condições exigidas por Andrício em troca da entrevista era que eu elogiasse o livro, mesmo sem ler, aí vai. Sim, vale a pena comprar As 100 primeiras e melhores tirinhas de Andrício de Souza. Por dois motivos. Para começar, Andrício tem o olhar de um moleque. Um moleque que sabe fazer a gente rir com o que encontra de mais ridículo por aí, que tanto podem ser uma versão putaria do Jokenpô como a postura de um prefeito que pensa em criminalizar sopões para moradores de rua. Ao mesmo tempo, é um moleque que sabe escolher seus alvos e tem suficiente noção para mirar seu estilingue nas vidraças das coberturas, em vez de acertar as janelas dos barracos.

O outro motivo é pessoal. Se o livro der dinheiro, André finalmente poderá pagar um tratamento psiquiátrico para a sua estranha mania de se deixar fotografar com cachorros de estranhos que conhece na rua. Por isso, amigos, peço que colaborem. Comprem o livro. Não conheço causa mais nobre.

Andrício pratica seu vício grotesco (ele é o que está sem coleira)



Sua carreira de quadrinista nasceu do ócio?

Andrício de Souza: Antes eu só escrevia textos — que eu acho ainda que é a minha melhor habilidade. Porém, eu tinha ideias curtas que não cabiam em textos, nem em outra plataforma que eu tivesse conhecimento. Já havia desenhado para ilustrar meus textos de meu blog futebolístico (Eu não sou mané, Garrincha!) e tive uma ideia cretina no meio daquela polêmica das eleições de 2010, quando o Serra acusou de quebrarem seu sigilo fiscal. Cascata! Aí eu fiz uma tirinha dele falando que ainda bem que não quebraram o sigilo fecal dele. A partir daí fui fazendo mais e mais tiras. Mas em relação ao ócio, não é exatamente pelo ócio. Eu acho que as tiras são a materialização de ideias do inconsciente, que vêm às vezes no ócio, ou enquanto estou trabalhando. Quer dizer, elas podem vir a qualquer momento do dia. Eu tenho que estar atento para captá-las. E depois é trabalhar em cima delas.

Perguntei do ócio por que, se me lembro bem, as tiras do Andrício começaram quando você estava desempregado.

Andrício: Começaram, mesmo. Mas você sabe que o desemprego me proporcionou coisas maravilhosas. Hoje eu sei cozinhar, limpar a casa, trocar a fralda dos gatos, dirigir, tirar fotos com cachorros, trocar lâmpada, usar a furadeira, andar de bicicleta, e mais um monte de coisas graças ao desemprego. Se eu estivesse trabalhando naquela época, eu provavelmente não teria feito tiras. Aproveito este seu espaço para agradecer a todos os recrutadores que recusaram meu trabalho. As tiras são para vocês!!!!!!

Eu até ficava com receio de te passar alguma dica de trampo, com medo que você largasse as tiras para ganhar dinheiro.

Andrício: Obrigado pela preocupação, Fausto! Você é mesmo um cara especial.

Já diziam isso na minha infância. Até me obrigaram a fazer uma escola cheia de crianças especiais, como eu.

Andrício: Hahahaha.

Você sente que tem amigos que riem das suas piadas por constrangimento e educação, como você acaba de fazer agora?

Andrício: Não, Fausto! As minhas piadas são muito engraçadas. Todos riem porque elas são realmente engraçadas. A minha relação com os amigos é muito distante. Por exemplo, você é meu amigo e não nos vemos há 3 anos!

Pois é. Eu realmente acho graça no que você faz. E já achava muita graça nos seus textos, do Eu não sou virgem, Maria! e do Eu não sou mané, Garrincha!. Você trocando ideias com Chico Buarque, dando conselhos a Dostoiévski. Muito bom aquilo.

Andrício: Foi bom você falar desses dois. Faz tempo que não falo com eles. Chico, Fiodor, vocês têm meu telefone. Liguem!

Por que você acha que as tiras do Andrício são mais lidas que seus blogs de humor verbal? Neguinho tem preguiça de ler texto longo?

Andrício: Eu acho isso mesmo, Fausto! Na internet, as pessoas têm o hábito de querer sempre o mais curto. Eu não posso falar nada, porque também sou assim. Quase não leio blogs de textos longos – a não ser o seu, querido! Mas não excluo a possibilidade de meus textos serem chatos. Tem gente que faz sucesso com textos longos.

É, pelo visto só eu e sua mãe gostavam daqueles blogs. E essa história de virar livro, como rolou?

Andrício: Minha mãe não gostava muito, não, Fausto! Sobre virar livro, aí sim veio do ócio! Usei boa parte do meu tempo com a confecção dele. Porque o tempo de fazer tirinha não preenchia totalmente o meu ócio, entende? Então pensei no livro, que mandei para a editora Multifoco, e foi aceito. Será bom porque as pessoas poderão ler as tiras sem as distrações da internet. Ou no banheiro, para quem não tem notebook. Além disso, tenho algumas tias, e a minha sogra, que não usam a internet. Assim essas pessoas poderão conhecer melhor meu trabalho. Assim elas não acharão que não faço nada!

Dá o serviço aí. Serão quantas páginas, quando vai ser o lançamento…

Andrício: Serão 65 páginas. O lançamento ainda está em negociação. Mas pretendo que seja antes de agosto, com bastante coxinha para o pessoal! Ah! Capa colorida e miolo em preto e branco.

Não foi dessa vez que você teve o gosto de colocar cor no Power Ranger rosa.

Andrício: É mesmo, Fausto! Aliás, no próximo livro, caso ele seja colorido, teremos duas cores: o azul e o vermelho. Estou usando o vermelho com bastante sucesso em minhas experiências.

É verdade que metade da renda do livro será revertida para pagar os direitos de imagem do Pereio, que você transformou em um de seus principais personagens?

Andrício: Não dá ideia, rapaz! O Pereio deve estar precisando de bastante dinheiro agora que fará campanha política. Mas se ele cobrar algo pelos direitos, não poderei pagar nada, já que o livro sairá a preço de custo. Aliás, posso pagar com o corpo, se ele se interessar, é claro.

Você também usou o corpo para pagar pelo prefácio do Allan Sieber?

Andrício: Usei dublê. Um amigo meu que trabalha na Câmara de São Paulo se apresentou para o Sieber como se fosse eu. Parece que eles tiveram uma noite ótima. Mas, na verdade, o Allan foi super gente fina comigo. Primeiro, porque quando fiz a minha primeira tira, enviei para ele, e ele respondeu me dando força. Um ano depois, ele recomendou meu trabalho no seu blog — o que aumentou bastante o meu público! E agora ele fez o prefácio bastante generoso.

Grande Allan. Por falar em outros humoristas, por que você não curte o humor que se orgulha de ser politicamente incorreto?

Andrício: Eu acho, Fausto, que quando fazemos humor, podemos agredir alguém. Geralmente fazemos isso de forma intencional. Por exemplo, eu gosto muito de mostrar nas minhas tiras como a classe média é escrota. E aí, naquele momento, eu a coloco no lugar dela. Agora, o humor dito politicamente incorreto coloca para baixo quem já está em desvantagem. Os negros, as mulheres, os pobres já sofrem com o preconceito e todas as situações em que não são favorecidos. Aí você faz a piada e os coloca ainda mais para baixo?! Muitas vezes eu acho esses humoristas bastante engraçados, porém eles erram o alvo. E o pior é que agora eles se favorecem com essa polêmica que se cria em volta de tudo que eles dizem, e começam a fazer de forma intencional.

Vira uma ferramenta de marketing, né? Mas, se “politicamente incorreto” fosse qualidade de humor, Hitler seria mais engraçado que o Millôr.

Andrício: Isso! É bem por aí. Eu não quero fazer humor para legitimar os reacionários.

Aliás, o seu humor tem um lado bastante claro, certo? Considerando que seus alvos são os tucanos, a classe média, Luciano Huck, Marcelo Madureira

Andrício: Isso mesmo! Alguém tem que fazer um contraponto, não é mesmo?

Você faz humor engajado?

Andrício: Acho que não, Fausto! Quer dizer, eu não sei nem se faço humor. Porque a minha ideia nunca é fazer rir. Se a pessoa acha engraçado, o problema é dela. Mas a minha intenção é materializar uma ideia, sendo ela engraçada ou não. E às vezes calha dessas ideias serem engajadas. São as coisas que eu penso, e nada mais natural do que isso estar presente nas tirinhas.

E essa sua tara pelos cachorros dos outros, como começou a se manifestar?

Andrício: Então, rapaz. Uma vez a minha namorada viu um cachorro lindo e pediu que eu tirasse uma foto dele. Mas eu fiquei com vergonha, e achei uma solução diferente: eu só tiro a foto se for com ele! Aí falei para o cara: “Posso tirar uma foto com o seu cachorro?”. Ele disse que sim, e no instante seguinte tivemos a ideia de fazer isso sempre e publicar num blog. Fora que é uma delícia fazer isso. Depois que eu tiro a foto com o cachorro, sinto uma adrenalina muito grande. Acho que deve ser igualzinho a andar de asa delta.

Ninguém nunca estranhou esse seu comportamento?

Andrício: Já, sim! Algumas pessoas estranham, desconfiam, etc. Mas a grande maioria acha que têm um cachorro tão lindo, que é normal que as pessoas queiram tirar fotos com ele. Também é preciso considerar que geralmente tiro fotos ali em Santos, perto da praia, onde as pessoas estão de bom humor. Não aconselharia fazer isso nas ruas de São Paulo!

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3 Comentários

  1. Reblogged this on As Minhocase comentado:
    Tirando um pouquinho das teias do blog com texto alheio, porque vale a pena.

    Responder
  2. Muito boa entrevista! E fui um dos que conheceu pelo blog do Sieber… Sou fã e to até agora esperando resposta do email, féladasputa! Mas tudo bem pq aquele projeto é devagar e pra mais adianta… Agora to trabalhando num filme BEM RUIM! (seguindo os passos dos ídolos; faça merda, insista na merda até o povo querer a merda) abraços aos dois aí que parecem ter uma relaçao bem íntima e acho isso bonito, caras

    Responder
  1. O intestino do Andrício | inarrável

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