André, o perigoso

André não gosta de fotos, então ilustrei esse post
com o subcomandante Marcos, que ele curte

Teve duas pessoas que me ensinaram muito quando trabalhei como repórter de polícia e cidades, anos atrás, no Agora SP.  Um foi o repórter fotográfico José Patrício, que me acompanhava madrugadas afora em delegacias e locais de homicídio. Com Patrício, puta velha do jornalismo, aprendi algo sobre as manhas da reportagem de rua: como falar com as pessoas, saber entrar e sair de um lugar, ter olhar para o que é válido numa notícia. O outro cara foi o André Caramante, que, como eu, era repórter. Ele me ensinou que jornalista pode fazer a coisa certa.

Quando alguém começa uma jornada profissional, logo aprende (ou se deixa convencer de) que as coisas não são em preto e branco. Que é preciso conviver com o cinza. Que não dá para levar as coisas a ferro e fogo. No jornalismo policial, esse aprendizado pode significar compactuar com uma porção de sacanagens que a gente vê no dia-a-dia. Você vê o suspeito chegar à delegacia com um hematoma na cara. Você vê o PM dar um tapa na cara do sujeito algemado. Você escuta o chefe dos investigadores comentando, com uma risadinha, que deu uma “trabalhada” no suspeito. E você deixa de lado. Vai fazer o quê? Você não tem como provar, e além do mais tudo indica que as vítimas eram bandidos, mesmo, e além do mais seu editor não vai se interessar por isso, e se por acaso se interessar a notícia vai virar só uma nota… A gente sempre encontra um arsenal imenso de desculpas para si próprio. É o mundo cinza, sem ferro, sem fogo. Em vez de funcionar como uma imagem sobre a complexidade das coisas, o mundo cinza vira um escudo para quem não quer ter o trabalho de levar tão a sério esse lance de certo e errado. Você deixa de lado.

Caramante não deixava de lado. Eu acompanhei o trabalho dele durante os primeiros anos da gestão do secretário de Segurança Pública Saulo de Abreu Castro Filho, o cara que, sob o comando de Geraldo Alckmin, deu a levada do novo jeito tucano de fazer polícia: em vez de procurar conter os excessos da polícia, como nos anos Mário Covas, o governo passou a estimular a violência, adotando a linha torture-e-mate-sempre-que-não-der-na-vista, que continua até hoje, empilhando corpos na periferia. A comunicação ganhou uma blindagem inédita, e vi muitas vezes como Caramante se batia com os assessores de imprensa atrás das informações corretas. Uma vez, uma assessora o qualificou de “perigoso”. Perigoso, ele? Ao contrário dos policiais, André não tem armas. Qual era o perigo dele?  André era perigoso por não aceitar os pequenos pactos com as autoridades, por não olhar para o outro lado, por exigir a verdade. André e os caras que trabalham como ele são muito perigosos. Eles fazem jornalismo.

Lembro de quando o André foi cobrir uma audiência na Assembleia Legislativa em que menores da Febem denunciaram maus-tratos. Ao final, dentro do elevador, um dos monitores da Fundação comentou que ia “dar um pau” nos meninos assim que saíssem de lá. Caramante ouviu e fez questão de denunciar o monitor, transformando aquilo em notícia. “Não pode, mano, não pode”,  ele me disse, depois, na redação. Não pode: há o certo e o errado. E o que é errado deve ser denunciado.

O último a se incomodar com Caramante foi o Coronel Telhada, ex-comandante da Rota com 36 mortes nas costas e candidato a vereador pelo PSDB. Depois que André, numa matéria da Folha de S.Paulo, denunciou o coronel por pregar a violência em sua página no Facebook, Telhada chamou o jornalista de “notório defensor de bandidos” e conclamou seus seguidores contra ele. O resultado é uma campanha de ódio em que apoiadores do coronel ameaçam Caramante com declarações do tipo “esse Caramante é mais um vagabundo. Coronel, de olho nele”. A Repórteres sem Fronteiras já denunciou essa sacanagem, assim como a direção do Sindicato dos Jornalistas e o coletivo Sindicato é pra Lutar, de oposição. E é bom que os protestos contra a atitude do coronel ganhem força: se ele quer ser candidato num Estado de Direito, precisa entender que a cidade não é o seu quartel.

André, tamo junto.

Continua a lembrar a gente do que é preto e branco neste mundo cinza.

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3 Comentários

  1. Entrevista com André Caramante, o repórter que enfrenta a Rota : DAR – Desentorpecendo A Razão
  2. Os exilados da democracia | inarrável

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