Não à desocupação da São João

Eles chegaram lá quando quase tudo estava morto. Ratos e baratas, muitos deles, reinavam há duas décadas como os únicos hóspedes do Hotel Columbia, velho prédio esquecido pelo seu proprietário no centro de São Paulo. “Tinha dois metros de entulho no térreo, tudo coberto de cocô de pombo. Louças sanitárias e pias, tudo quebrado. Não tinha um fio elétrico, não tinha canos, não tinha nada”, lembra Neci Maria de Oliveira, 68 anos, 6 filhos, 25 netos e 10 bisnetos. Ela chegou ao local em outubro de 2010, junto com outras famílias que, lideradas pela Frente de Luta por Moradia, uniram-se para transformar em lar os seis andares de concreto que, até então, não tinham outro uso que não fosse acomodar sujeira.

Ali as famílias retiraram o lixo e acomodaram seus móveis, seus filhos e seu cotidiano. Ali refizeram a hidráulica e puxaram da rua os fios para iluminar seu dia-a-dia. Enquanto iam reconstruindo o prédio, os novos moradores iam refazendo a si mesmos. Arrumaram empregos na região, matricularam seus filhos nas escolas próximas. Num lugar que estava morto, criaram um sistema próprio de gestão: o edifício da Ocupação São João é uma comunidade, na qual todos são seus próprios zeladores e as decisões que afetam a todos são tomadas em assembleias regulares, no mesmo espaço em que os moradores aprenderam a transformar seu tempo em arte e cultura.

O sarau de poesia que acontece a cada duas semanas, sempre às quartas-feiras, virou um espetáculo que atrai gente de várias partes de São Paulo, misturando poetas de outros saraus e de outros quebradas com os próprios poetas da ocupação. A dona Nice é presença certa em todo Sarau da Ocupa e em vários outros saraus pela cidade. “Vivem me chamando para ir a outros saraus e eu vou, porque adoro poesia”, conta Nice, apelidada Vó da Ocupa, que se orgulha de sua descoberta da arte e do bonito apartamento que montou no edifício, todo arrumado, decorado com flores e um pôster do Corinhtians.

Além do sarau, o prédio é lugar de várias outras ações culturais, incluindo cineclube, festival de rock, mediação de histórias infantis, e todas servem para falar, pensar e sentir as questões do seu dia-a-dia. No sarau da semana passada, eu vi como os poemas se misturavam com manifestos contra a ameaça de desocupação do prédio e manifestos contra a morte dos guarani-kaiowás no Mato Grosso do Sul, e tudo combinava porque tudo era poesia, porque a poesia é vida e é luta.

E o poema da hora, na Ocupação São João, é evitar a reintegração de posse do imóvel, ordenada pela Justiça e marcada para a trágica data de 11 de setembro. É uma tragédia que pode e deve ser evitada. Se a desocupação ocorrer, quem perde não são apenas as 85 famílias que irão para a rua. Quem perde é a cidade de São Paulo. Se o prédio for desocupado para dar lugar a mais um condomínio feito de vidas isoladas e empilhadas umas sobre as outras, todos nós perdemos a chance de conhecer e replicar um jeito mais humano e pleno de gerir a vida num agrupamento humano.

Deixem a Vó da Ocupa ficar!

“Ver a gente triste é o que sistema quer”, disse Ruivo Lopes, um dos responsáveis pelas atividades culturais da Ocupação São João, comentando a ameaça de despejo, durante o Sarau do Ocupa na quarta-feira passada. “Então, não vamos ficar tristes. Cada vez que a gente sorri, o sistema treme.”

E na mesma noite Marcelo, um dos poetas presentes ao sarau, aproveitou para falar de esperança pelas palavras de Solano Trindade, um avô dos atuais poetas periféricos:

Nem tudo está perdido irmãos
nem tudo está perdido amadas
o sol voltará a nos trazer calor

Esta é a mensagem nova
que o poeta nos traz
para que desperteis para a luta
na hora da vossa angústia
irmãos e amadas do meu século!

O que dá para fazer? Há um abaixo-assinado contra a desocupação rolando aqui. Assine. E espalhe a notícia. Não deixe dona Nice, a Vó da Ocupa, perder o seu apartamento, todo arrumado, decorado com flores e um pôster do Corinhtians.

Liberdade pra todo mundo

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Por Ivan Moraes Filho, com mote de João Brant e contribuições de Ricardo Mello

Não sei se tu já pensasse
ligando a televisão
Num dia desse qualquer
xingando a programação
Sentada no seu sofá
Numa preguiça do cão (mais…)

Mercadante, perfilador

Luiz Fernando Mercadante, que morreu ontem, era bom no perfil, este jeito de contar que exige olhos para ver, ouvidos para ouvir e humildade para não deixar o papel de quem escreve se sobrepor à história sobre quem se escreve. O perfil, que só nos últimos anos começou a ser valorizado pelo jornalismo brasileiro, é um gênero difícil, porque exige deixar de lado ideias prontas para enxergar o outro em sua inteireza. O bom fazedor de perfis nunca faz histórias de anjos nem de demônios: ele fala de pessoas, com defeitos, qualidades, manhas, manias, hemorróidas e contradições. Fala de gente, enfim. E Mercadante era bom falando de gente, como mostrou em seu livro 20 perfis e uma entrevista. Aí vão dois trechos.

Sobre Oscar Niemeyer:

Ele é simples como um pedreiro e sólido como um mestre-de-obras. Vive num mundo fantástico, de curvas ousadas, superfícies recortadas, colunas flutuantes, arcos, abóbadas, fachadas inclinadas, formas estranhas. Em sua vida há os amigos, os netos, um cavaquinho desafinado, livros, automóveis velozes, suspensórios por baixo da camisa esporte. Pensa intensamente em ideais de amor, paz, justiça social, honestidade, generosidade, alegria de viver. Ele é Oscar Niemeyer, o arquiteto.

Sobre Jorge Andrade:

Dez da noite e, como todas as noites, a família está reunida no quarto de dormir do casal. O pai, numa poltrona. Camila, aos 11 anos, ao lado, sentadinha na beirada da cama. A mãe, recostada num travesseiro. Gonçalo, 14 anos, e Blandina, 8, espichados ao lado da mãe. Estão todos mudos, fixados no vídeo da tevê que anuncia mais um capítulo da novela. A mãe apaga o abajur e as imagens coloridas se destacam, crescem, povoam o quarto. Pai, mãe e os três filhos — no silêncio mais absoluto — devoram cena a cena o capítulo da noite.

O pai vai queimando cigarros na sua longa piteira. A mãe, acendendo e apagando o abajur a cada intervalo comercial. As crianças, fascinadas e sonolentas, como se já começassem a sonhar ali.

A cada intervalo há movimento, comentários, risadas, e há Blandina, que se levanta correndo, dá um beijo no pai e volta a deitar. Ao final é como no cinema: luzes, um ar de fim de sessão, críticas e tudo.

— É, filho, hoje o pai só encheu lingüiça.

Quem se desculpa é Jorge Andrade, o autor.