Mercadante, perfilador

Luiz Fernando Mercadante, que morreu ontem, era bom no perfil, este jeito de contar que exige olhos para ver, ouvidos para ouvir e humildade para não deixar o papel de quem escreve se sobrepor à história sobre quem se escreve. O perfil, que só nos últimos anos começou a ser valorizado pelo jornalismo brasileiro, é um gênero difícil, porque exige deixar de lado ideias prontas para enxergar o outro em sua inteireza. O bom fazedor de perfis nunca faz histórias de anjos nem de demônios: ele fala de pessoas, com defeitos, qualidades, manhas, manias, hemorróidas e contradições. Fala de gente, enfim. E Mercadante era bom falando de gente, como mostrou em seu livro 20 perfis e uma entrevista. Aí vão dois trechos.

Sobre Oscar Niemeyer:

Ele é simples como um pedreiro e sólido como um mestre-de-obras. Vive num mundo fantástico, de curvas ousadas, superfícies recortadas, colunas flutuantes, arcos, abóbadas, fachadas inclinadas, formas estranhas. Em sua vida há os amigos, os netos, um cavaquinho desafinado, livros, automóveis velozes, suspensórios por baixo da camisa esporte. Pensa intensamente em ideais de amor, paz, justiça social, honestidade, generosidade, alegria de viver. Ele é Oscar Niemeyer, o arquiteto.

Sobre Jorge Andrade:

Dez da noite e, como todas as noites, a família está reunida no quarto de dormir do casal. O pai, numa poltrona. Camila, aos 11 anos, ao lado, sentadinha na beirada da cama. A mãe, recostada num travesseiro. Gonçalo, 14 anos, e Blandina, 8, espichados ao lado da mãe. Estão todos mudos, fixados no vídeo da tevê que anuncia mais um capítulo da novela. A mãe apaga o abajur e as imagens coloridas se destacam, crescem, povoam o quarto. Pai, mãe e os três filhos — no silêncio mais absoluto — devoram cena a cena o capítulo da noite.

O pai vai queimando cigarros na sua longa piteira. A mãe, acendendo e apagando o abajur a cada intervalo comercial. As crianças, fascinadas e sonolentas, como se já começassem a sonhar ali.

A cada intervalo há movimento, comentários, risadas, e há Blandina, que se levanta correndo, dá um beijo no pai e volta a deitar. Ao final é como no cinema: luzes, um ar de fim de sessão, críticas e tudo.

— É, filho, hoje o pai só encheu lingüiça.

Quem se desculpa é Jorge Andrade, o autor.

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