A Semana do Euclidão

Euclidão recebendo o beijo de uma maratonista nos anos 90

Capa do livro da Rachel

Acabo de receber uma carta. Em papel, com selos e um recado carinhoso escrito a mão numa folha de papel pautado. E, dentro do envelope, um livro escrito pela autora da carta,  a velha amiga Rachel Bueno. Conheço a Raquel do tempo em que as pessoas escreviam cartas. E eram muitas: não havia dia que eu não recebesse ou escrevesse uma carta, para gente de várias partes do país. Gente que se conhecia durante os sete dias da Maratona Intelectual Euclidiana, evento que reunia a molecada para estudar e viver lá em São José do Rio Pardo, meu torrão natal, onde Euclides da Cunha escreveu Os Sertões.O livro da Raquel é sobre isso: um apanhado muito bacana de “casos e causos” que rolavam com os estudantes naquelas semanas, que só quem viveu sabe como era. Quem quiser um exemplar, na mão da Rachel é mais barato: dá para negociar direto com ela pelo e-mail joanaimaginaria@ig.com.br.

Ah, e a autora me deu a honra de escrever o prefácio, que é o seguinte.

Eu achava que sabia o que era uma Semana Euclidiana. Claro que sabia. Eu era um rio-pardense, nascido e embalado no berço d’Os Sertões, que muito antes da puberdade já sacolejava em cima de carros alegóricos improvisados nos desfiles inaugurais de 9 de agosto, diante das autoridades e dos meus pais que davam tchauzinho na multidão. Agora no ensino médio, eu já tinha lido a “Bíblia da nacionalidade”, podia recitar de cor o parágrafo começado com “Canudos não se rendeu” e colecionava medalhas pelas minhas participações nas Maratonas Intelectuais. Só aí eu descobri que não sabia nada sobre a verdadeira Semana Euclidiana.

Nem eu, nem a maioria dos estudantes nascidos às margens do Rio Pardo. Os alunos ribeirinhos, que passavam o dia ouvindo sobre os oxímoros da linguagem euclidiana, almoçavam na casa dos pais e iam dormir na mesma cama de todas as noites, viam apenas a cara sisuda da Semana Euclidiana: o desfile de abertura com seu jeitão de parada militar, os eventos que emendavam o Hino Nacional com longos discursos destacando o amor à Pátria e os professores que reverenciavam Euclides da Cunha com a fé de Antônio Beatinho no seu bom Conselheiro.

Fui conhecer a outra cara da Semana Euclidiana no ano em que resolvi me juntar à legião dos “estrangeiros”: os alunos que vinham de outras cidades e viviam aqueles sete dias como uma aventura. Eram adolescentes que, em muitos casos, estavam pela primeira vez passando uma semana longe da casa de seus pais e de tudo o que conheciam. Meninas e moleques que viviam a fome de conhecer a terra ignota que esperava por eles fora dos quartos da sua infância. Fome de saber, fome de experenciar, fome de amar e de sofrer por amar. Parecida com a fome euclidiana pelo desconhecido, na Amazônia ou na caatinga. E eu, que vivia a mesma fome, também me reuni aos outros maratonistas nas cantorias sobre o túmulo de Euclides, nas peregrinações para ver o sol nascer debaixo dos sovacos de Cristo, nas noites de sono curto sobre os colchonetes amontoados nos alojamentos e nas choradeiras de 15 de agosto na rodoviária, cantando “volta, volta para as cavernas, se tranca e engole a chave” para os ônibus Nasser que iam embora, deixando a cidade mais vazia.

Na Semana Euclidiana eu me apaixonei, na Semana Euclidiana eu sofri — tanto a dor das minhas paixões como a dor por tabela das paixões de outros maratonistas. Na Semana Euclidiana eu fiz grandes amigos, alguns para a vida toda. Amigos de quem a gente anotava os endereços, com número da rua e CEP, para se dedicar ao pré-histórico costume de trocar cartas: pedaços de nosso cotidiano e dos nossos sonhos na forma de folhas de papel rabiscadas, que a gente espalhava pelo país durante o longo ano entre dois agostos.

A Semana Euclidiana foi o nosso Quarup. Um rito de passagem travestido de maratona escolar para alunos aplicados. É claro que deve rolar algo parecido com adolescentes em outros tipos de acontecimentos: excursões, acampamentos, festivais de rock. Algo que fazia a Semana Euclidiana diferente era o fato de as escolas geralmente escolherem os maratonistas entre os estudantes que gostavam de escrever. O que gerava uma alta concentração por metro quadrado de uma molecada que compartilhava da mesma paixão por literatura, poesia, música. Vários eram CDFs (o termo nerd, bem como o glamour torto que passou a acompanhá-lo, viriam depois). Uma gente com um outro jeito de olhar à volta, que não costumava ter muitos amigos com quem falar sobre isso nas suas cidades de origem. A Semana Euclidiana serviu para nos mostrar que não estávamos sozinhos.

Muitos antes que Zé Celso resolvesse encenar Os Sertões, os maratonistas já faziam sua versão antropofágica da cultura euclidiana. Tínhamos o nosso Euclides da Cunha, diferente da figura sagrada dos discursos à beira da Herma. O nosso Euclides era humano, como todos nós. Era o Euclidão, um cara gente boa, nosso parceiro. Euclidão oferecia seu mausoléu para a gente beber, cantar e namorar sobre seus restos mortais. Em seu busto de bronze, Euclidão ria das canções obscenas em que celebrávamos sua história de amor infeliz, depois se oferecia para ser enfeitado com flores e receber os beijos das nossas meninas. E eu sentia que, de algum jeito, essa celebração combinava com a epopeia cheia de vida, plena de sangue e contradições, que Euclidão havia escrito logo ali, na casinha a poucos metros de nós.

Escrevo no passado porque nunca mais voltei a participar das Semanas Euclidianas. Ler as crônicas coletadas aqui pela Rachel me fez mergulhar de novo nesse passado, e agradeço a ela por isso. Conheci Rachel quando já era professora da Maratona Euclidiana, e o que me encanta nela é como consegue levar às aulas o mesmo coração jovem de maratonista. Suas aulas não são transmissão de dogmas, são momentos de descoberta e questionamento. Rachel é daquelas que conseguem ensinar Euclides da Cunha sem esquecer do Euclidão. E é o que ela está fazendo agora, ao reunir histórias que são uma parte da história da Semana Euclidiana, tão fundamental quanto qualquer conferência de encerramento. Obrigado, Rachel. Volta, Euclidão! Ô, fudega!

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