Veteranos eternizados

Matéria que fiz para a revista TAM Airborne (salve Ana Luiza e Leonardo Vinhas!) sobre os bastidores de Jambocks, quadrinho muito bacana sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Foi muito bacana conhecer o roteirista Celso Menezes e a sua luta para contar uma história do jeito que ela deve ser contada.

Cena de “Jambocks”

A guerra chegou sem aviso para Celso Menezes. O primeiro bombardeio o atingiu dentro de uma loja, em 2008, quando encontrou uma edição da revista “National Geographic” sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Foi um ataque certeiro. Logo sua cabeça explodiu em imagens de submarinos nazistas bombardeados no litoral carioca, monomotores com boca de tubarão devorando o ar sobre o canal do Panamá e um avestruz atrevido atacando os inimigos em cima do lema “Senta a pua”. Ele havia encontrado uma história para contar.

Celso tinha completado 30 anos e andava meio perdido. Formado em Publicidade, morava em Mogi Mirim, cidade de 86 mil habitantes no interior de São Paulo, e ganhava a vida trabalhando na lanchonete da namorada. Sonhava em escrever histórias, mas não sabia sobre o quê. Esse sonho ficou mais sério após Celso conhecer outro morador de Mogi, Felipe Massafera, sete anos mais novo do que ele, que já havia desenhado quadrinhos para a editora norte-americana Avatar. Os dois ficaram amigos e começaram a planejar uma história que fariam juntos, talvez envolvendo os X-Men ou, quem sabe, a Caverna do Dragão.

A conversa mudou de rumo quando Celso propôs deixar de lado unicórnios e mutantes para explorar a aventura real vivida pelos militares brasileiros mandados para a Europa em 1944 e 1945. Felipe adorou a ideia: o irmão dele é tenente da FAB (Força Aérea Brasileira) e pintor especializado em “aviation art”. Decidiram que contariam tudo numa única edição, de mais ou menos 100 páginas. Pelo menos, era isso que Celso planejava até conhecer a Segunda Guerra em carne e osso.

Outra cena de “Jambocks”

Resgate histórico

Em busca de mais material para sua história, Celso resolveu ir além dos livros e fazer sua primeira viagem ao Rio de Janeiro, para conhecer os veteranos. Ali, participou do almoço dos veteranos da FAB, realizado em todo 22 de abril, Dia da Aviação de Caça, celebrando a data de 1945 em que o Primeiro Grupo de Aviação de Caça — criado dois anos antes por Getúlio Vargas especialmente para combater na guerra ao lado dos Aliados — executou o maior número de missões de combate. “Conversar com os veteranos abriu minha cabeça. Vi que tinha muito mais para contar”, lembra Celso.

Celso ficou impressionado ao descobrir o quanto os veteranos haviam feito e quão pouco eram lembrados. “O índice de suicídio entre os veteranos é alto e o de depressão é altíssimo, muito por causa do reconhecimento que não tiveram do público”, diz. Ali, decidiu que tinha o compromisso de contar a história da maneira como ela devia ser contada, mesmo que isso significasse triplicar o número de páginas do projeto original.

Contemplados com o ProAC (Programa de Ação Cultural), do governo de São Paulo, Celso e Felipe ganharam R$ 25 mil, dinheiro que foi praticamente todo usado na produção do livro. À série, deram o título de Jambocks!, uma referência ao nome de código dado pelos americanos aos pilotos brasileiros, lembrando um tipo de chicote de couro usado para castigar escravos na Indonésia. O primeiro volume, Prelúdio para a Guerra, saiu em 2010, pela editora Zarabatana, e rendeu a Felipe o troféu HQ Mix de Novo Talento. O segundo, Defendendo o Canal do Panamá, também contemplado pelo ProAC, acaba de ser publicado pela editora Devir. Os dois volumes juntos somam quase 100 páginas.

Nos mínimos detalhes

Para amarrar as diferentes histórias reais que atravessam o livro, Celso escolheu o ponto de vista de dois personagens fictícios, os amigos Adê e Max, que vão à Europa como mecânicos dos pilotos. Adê deseja ir à guerra para “chutar uns traseiros de chucrutes”. Já Max é um cara meio perdido, que sonha em escrever histórias, mas não sabe sobre o quê (lembra alguém?) e vê na Segunda Guerra a oportunidade de conseguir material para o seu primeiro livro.

Em Prelúdio para a Guerra, a trama faz um panorama dos acontecimentos que levaram o Brasil à guerra, lembrando como Getúlio Vargas namorou muito Adolf Hitler antes de finalmente apertar a mão do presidente Roosevelt. O clímax mostra o bombardeio de um hidroavião PBY Catalina, chamado de Pata Choca pelos pilotos da FAB, que afundou um submarino alemão no litoral do Rio de Janeiro.

Buscando a fidelidade histórica em cada quadrinho, os autores utilizaram “milhares de referências”, incluindo livros, fotos, filmes cartazes e revistas da época. “Eu pegava as informações primeiro nos livros. Ali eu via qual avião ou submarino havia sido usado na cena que eu estava escrevendo e buscava, em outros livros ou na internet, uma imagem de como ele estava naquele dia”, lembra Celso.

O autor Celso e o tenente Miranda

Tanto cuidado compensou quando as páginas receberam a aprovação de quem estava lá. “O tenente Miranda Corrêa, que jogou a bomba no submarino, disse que a cena aconteceu exatamente igual ao quadrinho, e era uma das cenas em que eu tinha menos referências”, conta Celso.

Muito o que contar

No segundo volume, Defendendo o Canal do Panamá, o foco é o treinamento dos aviadores brasileiros no canal do Panamá, antes do embarque à Europa. Os monomotores Curtiss P-40 Warhawk, e sua pintura em forma de boca de tubarão, destacam-se nas cenas aéreas, enquanto os P-47 fazem sua estreia. O governo americano mostra sua face contraditória: ao mesmo tempo em que combate os nazistas na Europa, proíbe o grupo brasileiro de frequentar a piscina, o cinema e a loja da base panamenha, por causa da alta presença de negros entre os militares vindos do Brasil. No final do treinamento, o capitão Fortunato Câmara de Oliveira desenha o soldado com cara de avestruz junto ao lema “Senta a Pua” que se tornaria o símbolo do Grupo de Caça.

Quatro anos, dois números e 100 páginas depois, a guerra para valer ainda está para começar em Jambocks. Na cabeça de Celso, a saga terá mais quatro edições. Os números 3 e 4 trarão os combates entre brasileiros e alemães nas terras italianas e o 5 mostrará a busca pelos soldados desaparecidos e o retorno dos militares ao Brasil. O sexto, com um jeitão mais cartunesco, trará casos engraçados dos bastidores do conflito, como o episódio em que os aviadores do recém-criado Grupo de Caça foram chamados a cantar seu hino diante das tropas americanas e, como não tinha nenhum, improvisaram cantando A Jardineira em tom marcial.

Para continuar as histórias de Jambocks, Celso luta agora em busca de suprimentos. Como o terceiro número da saga não foi selecionado pelo Proac, o autor procura outra fonte de financiamento. “Sem patrocínio, a história vai morrer”, diz Celso.

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