A delicadeza do concreto

Ouvindo um engenheiro, para um trabalho que estou tocando, ele falou sobre a delicadeza do concreto. Que, para chegar à solidez, é preciso um processo minucioso, cheio de atenção às coisas mínimas. Que são elas, as coisas mínimas, que no final determinam o rumo de estradas e espigões. Que é preciso saber usar a flexiblidade da água e dos agregados, graúdos e miúdos, para chegar à solidez. Que o invisível, na forma do vento, da temperatura e da umidade do ar, também precisa ser levado em conta. Que não há receitas prontas, capazes de dispensar o olhar aberto para o agora: que o mesmo procedimento usado para fazer um pavimento de concreto durante o dia pode não dar certo à noite, porque ali será outro tempo, outra temperatura, outra umidade, outras coisas mínimas que têm impacto tão grande que fazem a gente pensar se isso de grande e pequeno existe mesmo. Que é preciso estar atento, recolhendo e analisando amostras, para entender o que está acontecendo. Que o concreto sempre vai rachar depois de seco, é inevitável: o truque é fazê-lo rachar nos lugares certos. O processo em que o concreto seca, até atingir a solidez de que precisa para suportar o peso e o tempo, é chamado de cura.

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4 Comentários

  1. Melissa Lopes

     /  02/11/2012

    Quem é o autor desse texto? Lindíssimo! Parece que não está falando apenas do trabalho do pedreiro, mas do ator.

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  2. O autor dos textos sou eu, ué. Valeu, Melissa. Acho que todos os trabalhos criativos devem ter pontos em comum, mexendo com concreto, gestos ou sons.

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  3. Rdorigo

     /  24/11/2012

    Acabo de conhecer seu blog. Que texto bonito! Tenho um irmão engenheiro, e certa vez tive curiosidades a respeito do concreto, que ele pacientemente me explicou. Enquanto lia seu texto, lembrava das coisas que ele me explicou. Incrível como há pessoas que sabem usar as palavras para descrever as mesmas coisas – mesmo as aparentemente concretas demais para as palavras – de modo tão poético! Parabéns!

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    • Valeu, Rodrigo. Sabe que cada vez mais eu acho que não existe nada mais concreto do que a poesia? Por isso engenheiros estão mais perto dela do que a gente costuma achar. Um abraço.

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