Coisa forte

viralataemacao

Era para aquele universo que os dois haviam sido chamados a produzir um gibi. E não qualquer gibi. Tinha que ser uma história poderosa, capaz de convencer os detentos a trepar de camisinha e largar de mão o pico na veia. Uma história em quadrinhos que ajudasse a reduzir a epidemia de AIDS do maior presídio da América Latina — era a missão de Magrão e Libero.

Tinha que ser “coisa forte”. E isso eles tinham. Desde 1991, quando publicaram a primeira história do Vira-Lata.

Trecho de reportagem que escrevi para o site da Vice. Boa de apurar, boa de escrever. Deve ter ficado boa de ler.

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Quilombos de palavras

Matéria que escrevi para a Revista do Parlamento Paulistano, da Câmara Municipal de São Paulo, um trabalho muito bom de fazer, por causa da ajuda dos amigos e guerreiros Elton, Gisele, Leandro, Lívia, Rodrigo, Rogério, Sândor  e, claro, nossa comandante Maria Isabel.

Saraus levam a periferia para o centro da cultura

Tubardao DuLixo

Texto de Tubarão DuLixo em arte de Rogério Alves

“Vai trabalhar, negrinha! Essa menina vive com o caderno na mão. Olha a vassoura, vai lá limpar. Você sonha muito alto. Desde quando negro vai ser escritor?” Era o que as patroas viviam dizendo para Tula Pilar Ferreira, que trabalhava como doméstica desde os oito anos. Quando as madames saíam, Pilar largava a vassoura e corria para as estantes dos patrões: lia todos os livros que encontrava e depois saía a cantar e a dançar pelos corredores da casa. “Eu cresci com essa arte oculta”, lembra.

A arte que Pilar trazia oculta desde pequena veio à luz em 2002, quando pela primeira vez colocou os pés numa novidade: um sarau de poesia que rolava ali na sua quebrada , em Taboão da Serra (Grande São Paulo), feito pelos próprios moradores da comunidade. Era o Cooperifa, criado um ano antes pelo poeta Sérgio Vaz — e que no ano seguinte mudaria para o Jardim São Luís, na zona sul da capital, onde está até hoje. O encontro deu a chave para Pilar nascer como poeta. Passou a escrever e declamar seus poemas pelos saraus afora, e, de verso em verso, já publicou um livreto, Palavras inacadêmicas. “As palavras que cuspo estavam entranhadas dentro de mim”, conta Pilar, que se define como “mãe de três filhos, poetisa e 29 anos para sempre”.

Pilar não está nada oculta nesta noite de 5 de setembro de 2012, diante da plateia do Sarau da Ocupa, uma das dezenas de saraus da periferia que, após a iniciativa pioneira do Cooperifa, passaram a pipocar em todas as regiões da cidade. O microfone está aberto para quem quiser falar, como é de lei nos saraus. Na sua vez, Pilar declama, com a voz e com a dança do corpo, um poema sobre sua avó escravizada: “Tenho no sangue, na ancestralidade, gente que foi escrava de verdade. Minha avó, chicoteada aos doze anos de idade. Apanhou por rebeldia, desobediência. Sinhá não teve piedade, somente maldade. Inconsciência. Então rufem os tambores e batam palmas. A africanidade está cravada em minha alma…” O poema é saudado com aplausos, o único cachê dos poetas de saraus.

Sem-teto leem poemas no Sarau do Ocupa

Sem-teto leem poemas no Sarau do Ocupa (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Atualmente, pelo menos 20 saraus ocorrem todo mês na periferia paulistana, organizadas pela mesma gente que os patrões de Pilar achavam que nunca seria capaz de escrever. Os dados aparecem na Agenda Cultural da Periferia, publicada pela ONG Ação Educativa, que também inclui eventos como o Sarau da Ocupa — que, mesmo ocorrendo na Avenida São João, em pleno centro de São Paulo, também é considerado um evento periférico por ocorrer num prédio ocupado por famílias sem-teto da Frente de Luta por Moradia, ameaçadas de despejo por conta de uma ação de reintegração de posse. “Nós somos a periferia do centro, porque estamos cercados de tudo e não temos nada”, afirma o educador popular Ruivo Lopes, 33 anos, responsável pelo sarau. Natural da parte pobre da Baixada Santista, Ruivo conheceu cedo a vida entre cortiços e despejos e, ao engajar-se na luta dos movimentos de moradia, decidiu adotar a cultura como arma de luta. “Com os saraus, as senzalas tomaram de assalto a literatura, que até então era feita na casa-grande”, analisa.
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“Sarau é cidadania”

binho

Na hora da cerveja / Eu pinga / Na hora de Guantanamo / Eu Cuba libre / Na hora de guerrear / Eu Dalai Lama, proclamam os versos do poeta Robson Padial, o Binho. Ele é autor de dois livros — Postesia e Donde miras – dois poetas e um caminho (com Serginho Poeta) —, mas sua obra mais famosa é o sarau que criou há oito anos em seu bar na zona sul de São Paulo. O bar foi fechado em maio pela Subprefeitura de Campo Limpo, por falta de licença de funcionamento. Na hora de desistir, Binho continuou: por meio de uma ação de financiamento coletivo na internet, levantou dinheiro para pagar os R$ 9 mil em multas do bar e continuar com o sarau, agora em versão itinerante.

Como surgiu o sarau do Binho?

Binho: A gente tinha a Noite da Vela no bar. Ficava à luz de vela e botava uns bolachões para tocar. Entre um vinil e outro, alguém pedia para recitar um poema. A poesia entrou aos poucos no espaço. Numa dessas noites, eu falei: a gente podia colocar poesia em poste. Era época de eleição, e a gente retirava as placas dos políticos dos postes, pintava e devolvia com poesia. A partir do Postesia, fomos conhecendo outros poetas. Antigamente a gente só conhecia os poetas mortos. Aí conhecemos os poetas vivos, que estavam por aí, perambulando.

Como você define um sarau?

Binho: Sarau são encontros humanos. O sarau engloba tudo. É um exercício de cidadania e tolerância. Pega as pessoas das mais diferentes divisões sociais: um que gosta de samba, outro de rock, outro de rap, e no sarau um ouve o que o outro tem a dizer. A gente vai desconstruindo os preconceitos. Isso é uma coisa bacana do sarau: estar atento para ouvir o outro. O sarau consegue congregar cultura popular, maracatu, um que quer passar um vídeo, outro que quer contar uma piada, um outro que só quer se colocar ali na frente. É um se colocar no mundo: eu faço parte, eu tenho valor. É uma nova escola. Um novo jeito de estudar, de buscar e absorver a informação que está sendo falada.

Por que o seu bar foi fechado?

Binho: Eles alegaram que era por falta de alvará de funcionamento . Não tem sentido. Um bar que faz poesia tinha que ser um patrimônio público. Tinha que ser tombado, não fechado. A gente não compactou com a política daqui, não quis pendurar a faixa do político. Ninguém do comércio daqui tem alvará. A gente não se sujeitou a algumas coisas e pagou por isso.

Onde o sarau acontece hoje?

Binho: O sarau é itinerante. Estamos indo a outros lugares, somando com outros espaços que têm iniciativas culturais. Antes acontecia uma vez por semana, agora é uma vez por mês. É uma perda grande pra cidade de São Paulo. O sarau para existir não precisa de um espaço, mas você perde uma referência importante sem ele. Perde a memória, a relação com a comunidade. Agora ficou mais difícil. Temos que ficar divulgando, avisando as pessoas quando vai acontecer. Mas a gente vai continuar fazendo do mesmo jeito.

Muita gente apoiou vocês?

Binho: Muita gente. Tivemos apoio de fora do Brasil. Gente da Argentina, México, Inglaterra. O povo legitimou nossa luta, até financeiramente, contribuindo para pagar as multas do bar. Quem devia dar o alvará para o funcionamento era o povo, e ele deu. O poder perdeu.

Por que a periferia precisa dos saraus?

Binho: A imagem da periferia chega distorcida. Até para quem vive aqui, parece que a periferia é o que está na tevê. Se a gente não perceber, vai reproduzir o que o Datena diz que é a periferia. E a periferia é muito maior do que a tevê mostra. O sarau também serve para abrir os nossos olhos para essa consciência mais crítica da nossa realidade.

Poeta é “infrator”
A Secretaria de Coordenação das Subprefeituras defendeu o fechamento do bar de Binho e disse que o poeta é um “infrator” que mantinha um bar “em uma área de zoneamento que não permite a realização deste tipo de atividade”. “Ressaltamos que não se trata de nenhum ato arbitrário, mas sim o cumprimento às obrigações destinadas à administração municipal”, afirmou, em nota.