Quilombos de palavras

Matéria que escrevi para a Revista do Parlamento Paulistano, da Câmara Municipal de São Paulo, um trabalho muito bom de fazer, por causa da ajuda dos amigos e guerreiros Elton, Gisele, Leandro, Lívia, Rodrigo, Rogério, Sândor  e, claro, nossa comandante Maria Isabel.

Saraus levam a periferia para o centro da cultura

Tubardao DuLixo

Texto de Tubarão DuLixo em arte de Rogério Alves

“Vai trabalhar, negrinha! Essa menina vive com o caderno na mão. Olha a vassoura, vai lá limpar. Você sonha muito alto. Desde quando negro vai ser escritor?” Era o que as patroas viviam dizendo para Tula Pilar Ferreira, que trabalhava como doméstica desde os oito anos. Quando as madames saíam, Pilar largava a vassoura e corria para as estantes dos patrões: lia todos os livros que encontrava e depois saía a cantar e a dançar pelos corredores da casa. “Eu cresci com essa arte oculta”, lembra.

A arte que Pilar trazia oculta desde pequena veio à luz em 2002, quando pela primeira vez colocou os pés numa novidade: um sarau de poesia que rolava ali na sua quebrada , em Taboão da Serra (Grande São Paulo), feito pelos próprios moradores da comunidade. Era o Cooperifa, criado um ano antes pelo poeta Sérgio Vaz — e que no ano seguinte mudaria para o Jardim São Luís, na zona sul da capital, onde está até hoje. O encontro deu a chave para Pilar nascer como poeta. Passou a escrever e declamar seus poemas pelos saraus afora, e, de verso em verso, já publicou um livreto, Palavras inacadêmicas. “As palavras que cuspo estavam entranhadas dentro de mim”, conta Pilar, que se define como “mãe de três filhos, poetisa e 29 anos para sempre”.

Pilar não está nada oculta nesta noite de 5 de setembro de 2012, diante da plateia do Sarau da Ocupa, uma das dezenas de saraus da periferia que, após a iniciativa pioneira do Cooperifa, passaram a pipocar em todas as regiões da cidade. O microfone está aberto para quem quiser falar, como é de lei nos saraus. Na sua vez, Pilar declama, com a voz e com a dança do corpo, um poema sobre sua avó escravizada: “Tenho no sangue, na ancestralidade, gente que foi escrava de verdade. Minha avó, chicoteada aos doze anos de idade. Apanhou por rebeldia, desobediência. Sinhá não teve piedade, somente maldade. Inconsciência. Então rufem os tambores e batam palmas. A africanidade está cravada em minha alma…” O poema é saudado com aplausos, o único cachê dos poetas de saraus.

Sem-teto leem poemas no Sarau do Ocupa

Sem-teto leem poemas no Sarau do Ocupa (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Atualmente, pelo menos 20 saraus ocorrem todo mês na periferia paulistana, organizadas pela mesma gente que os patrões de Pilar achavam que nunca seria capaz de escrever. Os dados aparecem na Agenda Cultural da Periferia, publicada pela ONG Ação Educativa, que também inclui eventos como o Sarau da Ocupa — que, mesmo ocorrendo na Avenida São João, em pleno centro de São Paulo, também é considerado um evento periférico por ocorrer num prédio ocupado por famílias sem-teto da Frente de Luta por Moradia, ameaçadas de despejo por conta de uma ação de reintegração de posse. “Nós somos a periferia do centro, porque estamos cercados de tudo e não temos nada”, afirma o educador popular Ruivo Lopes, 33 anos, responsável pelo sarau. Natural da parte pobre da Baixada Santista, Ruivo conheceu cedo a vida entre cortiços e despejos e, ao engajar-se na luta dos movimentos de moradia, decidiu adotar a cultura como arma de luta. “Com os saraus, as senzalas tomaram de assalto a literatura, que até então era feita na casa-grande”, analisa.

Sarau é tudo

“Os saraus da periferia fazem uma total dessacralização do que se tinha como conceito de sarau poético, conceituado como uma reunião em casa particular, realizado noturnamente e pela elite, trazido pelos portugueses com a vinda da Família Real para o Brasil”, analisa a pesquisadora Aline Deyques Vieira, que analisou a literatura da periferia paulista em sua dissertação de mestrado O clarim dos marginalizados – A literatura marginal/periférica na literatura brasileira contemporânea (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2011). Quando resolveu estudar o universo literário periférico, Aline tinha a pretensão de “legitimar” a literatura produzida na periferia perante os olhos sisudos da universidade, mas mudou de ideia quando conheceu os saraus de perto. “Vi que eles não precisavam dessa legitimação, que eles são legitimados por eles mesmos”, conta. Ao contrário: as universidades é que perdem quando deixam de conhecer “uma literatura escrita por pessoas que, em muitos casos, nunca frequentaram ou frequentarão um universidade, mas que não deixa de ter um grande valor na cena atual da literatura contemporânea”.

“Se for reintegração de posse, devolve as encruzilhadas para Exu e as matas para Oxóssi”, declama Augusto Oliveira, 21 anos, assumindo o microfone da Ocupa, logo depois de Pilar, para improvisar seu apoio à causa sem-teto. Morador de Cidade Tiradentes, na zona leste, Oliveira é um mestre do freestyle, a poesia improvisada na hora da fala. No reduto dos saraus, poeta é todo mundo que quiser falar, com verso próprio ou alheio. Tem poeta que improvisa, como Augusto, e tem poeta que fala de cor, ou que declama com os olhos numa página de livro, numa folha xerocada ou no celular. Pelo microfone, passam um poema de Manoel de Barros, depois uma denúncia contra o massacre dos povos indígenas, em seguida uma canção de banquinho e violão, depois um protesto contra a política habitacional do governo, e tudo se mistura e tudo vale porque, em sarau, tudo é poesia. A força dos saraus está na palavra, na forma de rima crua declamada, de prosa ou de poesia cantada. Porque nos saraus também se canta, e se canta rap, e se canta samba, e se canta maracatu, e se dança ciranda. “O sarau engloba tudo”, afirma o poeta Binho, outro pioneiro dos saraus, na ativa desde 2004.

Alternando-se entre a plateia e o microfone, o Ocupa desta noite está cheio de poetas de saraus de diferentes cantos da cidade. Aqui tem mano do Sarau da Brasa (Vila Brasilândia), Mesquiteiros (Ermelino Matarazzo), Sarau Ademar (Cidade Ademar), O que Dizem os Umbigos (Itaim Paulista), Elo da Corrente (Pirituba), Pavio da Cultura (Suzano), Suburbano (Bela Vista), e mais, e outros. É uma troca comum nos eventos das quebradas, já que a organização em redes é uma das bases da cultura periférica. Mesmo que tenha seus autores, a literatura não é vista como uma criação de alguns eleitos das musas, mas um atributo de todos, porque todo mundo é capaz de poesia.

Ruivo Lopes: “Nós somos a periferia do centro” (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

“Poesia é uma coisa coletiva. O que escrevo não estou criando, estou dando o meu recorte. A poesia meio que já está escrita, o poeta só pega e modela”, define Victor Rodrigues, 22 anos, escritor da Cidade A.E. Carvalho, na zona leste, que acaba de lançar seu primeiro livro, Praga de poeta. “O livro nasceu de uma conversa de amigos. Um fez ilustração, outro, o projeto gráfico, um outro indicou o lugar para imprimir.” Os mil exemplares da edição independente, ele bancou com o dinheiro que juntou ao longo de dois anos guardando, mês a mês, metade do salário que recebia como caixa de banco. É uma maneira de meter as caras, dando um jeito de fazer com o que se tem à mão e juntando as pessoas em volta, que é típica do jeito de fazer cultura na quebrada . “É bem a cultura do quilombo, que era ‘vamos fugir e criar a nossa própria sociedade’. Se o que o governo faz não está bom, vamos fazer a gente e mostrar como é.”

Raízes periféricas

A literatura periférica, também chamada de marginal, entra em cena a partir do ano 2000, com a publicação do romance Capão Pecado, de Ferréz, e da coletânea Literatura Marginal que ele organizou para a revista Caros Amigos. Não que antes não houvesse uma literatura feita nas margens da sociedade. “A literatura periférica sempre existiu”, afirma a professora Heloisa Buarque de Holanda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), referindo-se a autores como a mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977) ou os tantos escritores que morreram sem serem publicados ou percebidos. “Este momento é especial porque os escritores se articularam e ganharam visibilidade”, afirma Heloisa. Ao contrário, por exemplo, da literatura de cordel, “politicamente conservadora e herdeira de tradições longínquas e medievais”, a literatura periférica é “moderna, antiestablishment, transformadora e tem metas literárias e políticas bastante definidas”. Parte desta nova cena literária, os saraus são “uma oportunidade única de agregar uma comunidade em torno do estímulo à criação e à literatura, que é uma expressão vista como de elite por essas mesmas comunidades, e se apropriar dela ”.

Os saraus e a literatura produzida em volta deles são expressões da cultura periférica, que nasce como movimento nos anos 80, com o hip hop. “O hip hop era um movimento de contestação que reivindicava novos espaços. Frente a uma situação em que os espaços eram negados, ele aprendeu a criar suas próprias formas coletivamente”, explica Mateus Subverso, criador da Edições Toró, que desde 2005 publicou 17 livros de autores da periferia. “Meu aprendizado para editar livros foi autodidata. É algo que o hip hop me colocou: a busca do conhecimento por conta própria”, afirmou Mateus durante o seminário Estéticas da Periferia, realizado em agosto. “Qualquer movimento da cultura de quebrada pensa os seus processos de maneira não-hierárquica, horizontal e partilhada, porque vai ao encontro do que a gente quer para a sociedade”, afirma. Segundo Mateus, a cultura hip hop — baseada nos DJs e MCs do rap (que usavam os remixes de outros autores como base para expressar sua própria voz), na arte do grafite e na dança do break (que ocupavam as ruas e os muros como seus espaços) — se fazia acontecer por meio de redes sociais. Redes do mundo real, anteriores a Orkut e Facebook. Quando veio a internet, as redes pré-digitais só precisaram se apoderar da web para ampliar o que faziam.

Tubarão DuLixo e Alessandro Buzo comandam o Sarau Suburbano (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

“A internet foi importantíssima para a cultura da periferia”, afirma o escritor Alessandro Buzo, 40 anos. “Você fazia um evento e ficava torcendo para que a mídia fosse cobrir, e às vezes o evento durava cinco anos e a mídia nunca aparecia. Agora, o cara cria um blog, ou qualquer barato na internet, e faz ele mesmo a mídia dele.” Buzo sabe o que fala: autor de dez livros, é um agitador cultural que organiza o evento Favela Toma Conta no Itaim Paulista, zona leste, e, na tevê, apresenta o programa Manos e Minas (Cultura), além de um quadro sobre cultura da periferia no SPTV (Globo). Toda terça-feira, pilota o sarau Suburbano, na livraria que mantém na Bela Vista, a Suburbano Convicto, “única do Brasil especializada em literatura periférica”.

A trajetória de Buzo começou em 1999, quando se cansou do aperto e dos atrasos do trem que o levava do Itaim para o centro e resolveu escrever um texto, “Ferrovia nua e crua”. Tirou 50 cópias xérox, mandou uma para a ouvidoria da companhia de trens e o resto distribuiu entre os passageiros. A ouvidoria não lhe deu resposta, mas os passageiros identificaram-se com o texto (“Finalmente alguém falou a nossa versão”) e sugeriram que ele escrevesse um livro sobre o tema. Assim, sem querer, só falando do que via e sentia à sua volta, Buzo produziu o primeiro livro, O trem – baseado em fatos reais, e se descobriu escritor. A vida de agitador cultural, com o Favela Toma Conta e, mais tarde, com os saraus, Buzo começou depois de uma cena que viu na rua de casa. “À meia-noite, tinha vinte moleques jogando basquete num poste com um aro de bicicleta. Pensei: que falta de opção dessa molecada, vou fazer um evento.”

De Rosa Maria a Paris

Tudo isso é muito, mas é só o começo. “O movimento dos saraus ainda é muito incipiente”, diz o poeta Binho. Mesmo estando em seus primeiros versos, contudo, o movimento já pode comemorar o sucesso de algumas vozes que descobriram a poesia com os saraus. Vozes como a de Fabio Boca, 26 anos. Morador do Jardim Rosa Maria, na zona oeste, Fabio começou a rimar cedo (montou seu primeiro grupo de rap aos 16 anos), mas só descobriu a força da palavra no poema quando começou a frequentar o sarau da Cooperifa, que ele chama de “minha faculdade”. “Comecei a dar mais importância à lírica, para o que você está falando e para quem está escrevendo”, conta o poeta.

Leitura de poema no Sarau Suburbano (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

A descoberta da poesia levou Boca a participar dos slams, competições de poesia em que os autores se enfrentam sendo julgados por um júri selecionado pelo público. Em 2012, Boca foi escolhido para representar o Brasil num campeonato de slam em Paris. “É muito louco poder conhecer outro país através da sua poesia. Eu via a Torre Eiffel na minha frente e pensava que duas semanas atrás estava tomando uma cerveja no Seu Oliveira…”, conta Boca, sem esquecer como chegou lá. “Esse momento de hoje vem dessa terra que outros cultivaram lá atrás e do suor que eles derramaram para que nascesse um fruto como eu.”

A história do jovem que os saraus levaram a Paris é uma das que fazem lembrar que, seja com a música, as artes plásticas ou a literatura, já faz tempo que a periferia deixou de ser periferia quando o assunto é cultura. “O que tem de destaque sendo feito na cultura urbana vem da periferia. Hoje, a periferia é o centro da cultura”, afirma Ruivo Lopes, lembrando que ainda falta o mais importante. “A periferia precisa também se tornar o centro das políticas públicas, na educação, na saúde, na moradia, no transporte.”

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