Trechos de um diário de viagens pela minha cabeça

corto-maltese

Desenho de Hugo Pratt, um cara que entendia de tudo quanto é tipo de viagem

Revendo anotações do ano passado enquanto entro devagar, devagarinho em 2013.

2/4
Se não for o medo, se não for a pena (pena que começa com autopiedade para depois chegar à tão almejada pena dos outros por você)… se não for nenhum desses caminhos, o que sobra? A vida. A vida, ela. Sem desculpas, justificativas, fatalismos. A vida.

9/4
Escrever com verdade é reconhecer que há outras forças em ação além do papel e da sua mente. É respeitar os mistérios, maravilhar-se com eles, horrorizar-se com eles, e colocar suas palavras a serviço de algo maior do que você. Escrever é descobrir.

13/4
O fogo que trago em mim quer ser. Para o fogo, ser é queimar.

25/4
Reconheço a armadilha ao meu redor. Jogo toda a minha força contra ela para quebrá-la. Analiso-a de todos os lados buscando um ponto fraco ou uma possibilidade de fuga. Grito, chuto, esmurro, gozo, sangro. A armadilha permanece, cada vez mais pura. Pura armadilha. E eu, pura presa.
Então, basta um outro olhar. Sem intenção, sem objetivos. Apenas um olhar que se pretenda olhar. Nesse olhar, vejo que a armadilha depende de mim para funcionar. Só posso sair quando quiser de fato. Meu desespero é encenação, ao mesmo tempo que não é. Grito que estou preso, grito bem alto, para não ouvir a mim mesmo e perceber que estou preso porque quero.
Eu posso sair. Ao notar isso, a armadilha se parte. Eu me levanto. Olho para frente. Vejo minhas mãos. Ouço. Respiro. Caminho.

4/5
Esse caminho não é o da sabedoria cumulativa. Cada nova lição parece modificar o que eu sabia antes. Tem a ver com mudar meu jeito de olhar. Parar de cristalizar conceitos, transformando tudo em dogmas pessoais, que depois me servirão de muleta e venda. As lições têm que ter ginga, o movimento vivo que nunca para, uma hora é golpe e já é esquiva e é dança. Um pensamento que, diante da contradição, não se choca, mas se esquiva e avança ao mesmo tempo. E, juntos, saber e não saber, dúvida e certeza, rodopiam, giram, dançam e se tornam um — sem deixar de ser dois.

17/5
O baque. A queda. Sssshhh… quieto. Silencie a cabeça. Não se apresse em entender. Senão, o ego salta à frente, fabricando ilusões, não entendimento. Deixe o entendimento vir até você. Aproveite a queda. É um momento privilegiado para entender. Veja onde tropeçou. Cuidado: evite as respostas profundas, complexas. Veja o simples. E aprenda para não errar os mesmos erros.
A vida é mágica, mas nenhuma magia vai produzir efeitos à revelia da sua vontade. É o que há de tão lindo e assustador no livre-arbítrio. Sempre há uma escolha. É lindo: significa que, não importa o que aconteça à sua volta, você sempre será um ser livre. É assustador: você nunca poderá culpar os deuses, o destino,  a pobreza, os amigos, a família, seu corpo ou seus traumas pelo que você faz. É tudo com você.

27/7
Passei um bom tempo lutando com minha dificuldade para me conectar com o momento presente, a tendência a Deixar para Depois. Um depois que nunca chega, já que o depois não existe, só existe o presente. Vivo deixando para depois a minha vida. Não consigo me automotivar e me autorientar a fazer o que tenho de fazer. Incapaz de obedecer a mim mesmo, sigo o ritmo que outros me ditam; logo, não sigo ritmo nenhum, já que os outros são vários e contraditórios: família, emprego, amigos. Empurrado de uma exigência alheia para outra, não me comprometo de fato com nada, sigo distraído, até que alguém grita agora! e eu vou lá e faço como consigo naquele momento. No resto do tempo, sigo sem ver, sem ouvir, sonâmbulo de olhos abertos. Mas calma que um dia vai melhorar. Amanhã, ou daqui a alguns anos, um dia.
Chego ao final do universo. Tudo acabou. Não há mais amanhã para você adiar sua vida. Nunca houve, de fato.
E agora?
Agora.
Pã-pam. Pã-pam.
Um ritmo.
Você segue. Você sabe.
Um pulso.
O tambor, o coração.
Uma explosão toma conta do céu feito um big bang.
Tum-ta-tum.
Canto com alegria, pés descalços, sentindo o chão.
Vivo.
Pã-pam.
Pã-pam.
Pã-pam.
Pã-pam.

20/9
Ser mais substância, menos gesto. Menos sorriso para os outros. O sorriso-máscara, defesa contra o mundo. Não precisa sorrir à toa, basta ser. Ocupar o lugar onde você está. E manter o ritmo. Com a sensação de que o caminho é um rio que flui sem parar, sem chegar lá, que o lá não existe, porque não existe fim, antes ou depois, só existe o fluir.

14/10
Delicadeza e suavidade são parte e consequência do estar presente, consciente de si mesmo.

21/10
Para dar certo, ir no ritmo, entregue, com humildade para participar da dança de tudo que existe. Que o negócio é viver. Não usar o pensamento para substituir o viver.

11/11
Toda essa dor só pode ser resistência a mudar. Basta aceitar e a dor cessa. Aceitar o novo. Aceitar ser feliz.

26/12
Humildade é ter a percepção exata do que você é. Não é se achar menos do que os outros: esse é o coitado. Não é se achar mais que os outros: esse é o arrogante. Arrogante e coitado são as duas partes de um mesmo rosto, dois jeitos de ver o mundo que andam juntos, um em cada olho.
O humilde está livre da oposição entre superiores e inferiores. Ele vê a todos como são: universos. Saber disso é a libertação de um fardo. Quem consegue ver a si e aos outros não precisa provar seu valor. Basta ser.

2/1
Quero a paz de quem age com a delicadeza suave da precisão.

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