“Arrá, urru, a Paulista é nossa”

Paulista livre

Gente na Paulista. Sem carro, sem ônibus. Gente para todos os lados. Dançando, pulando, cantando. Gente deitando no meio da avenida. Sentindo embaixo das costas o asfalto quase virgem do contato com gente. Gente olhando a meia-lua crescente lá no céu, velando por nós. Gente gritando: o povo unido é gente pra caralho.

Gente. Gente pra caralho.

Foi muito bom estar na rua ontem em São Paulo. Tinha um clima de Virada Cultural. Aquele gosto de tomar conta da cidade. Em vez de se enclausurar em Alcatrazes de ouro, na forma de carros, apartamentos, shoppings ou barzinhos (aqueles minúsculos espaços que compramos para nos isolar dos outros), a gente descobre que pode ser feliz na rua, o lugar de todos, compartilhando espaço com outras pessoas.

Um dos grandes feitos que o Movimento Passe Livre obteve foi conseguir mudar, do dia para a noite, a opinião que tantos tinham a respeito disso de andar a pé pelas ruas, tomando o lugar dos carros em nome de uma boa causa. Durante anos, e até quarta-feira da semana passada, os veículos da tal grande mídia tinham um roteiro bem amarradinho para cobrir passeatas, greves e tudo o que envolvesse gente lutando por direitos: restringir o debate sobre as motivações dos movimentos e ampliar tudo o que produzissem de ruim, especialmente se cometessem o imenso pecado de atrapalhar a circulação dos automóveis.

Voltaram a seguir o mesmo roteiro com o Passe Livre. Globo, Folha, Estadão, Record: lá foram eles pintar os protestos como quebra-quebra de baderneiros, que atrapalham o trânsito, o progresso, a economia, a Copa do Mundo, a nação. Vândalos querendo ocupar a Paulista, imagine só, esse templo dos carros! Então, a mídia fez como costuma fazer com trabalhadores sem-terra, sem-teto, povos indígenas, professores. Como fez com Pinheirinho, ou com as ocupações das reitorias da USP ou da PUC. A mídia fez seu trabalho de sempre, dando à polícia o álibi para agir com a violência habitual.

Algo saiu do script dessa vez, e a reação nas redes sociais contra a repressão do Estado foi tamanha que levou todo mundo a mudar de lado em questão de dias. A grande mídia parece menor do que nunca agora. Ficou pequenininha diante do mundo real que a atropelou — sem carro.

É muito engraçado ver Arnaldo Jabor, Datena e Luiz Felipe Pondé defendendo a legitimidade dos protestos. É engraçado ver os jornais condenando hoje a violência que defenderam ontem. E não acho que seja ruim. Não é bom ver pessoas mudando de ideia e passando a defender causas bacanas?

Vai ser bem mais difícil para a tal grande mídia, daqui para a frente, retratar o protesto de um índio em Belo Monte ou de um sem-teto no centro de São Paulo como coisa de bandido.  Ela vai tentar, é claro. Mas vai ter muito mais trabalho.  Até porque ninguém acredita mais nela.

Tem cada vez mais pessoas acreditando em si mesmas. Apoiadas em seus pés, caminhando firme sobre as ruas.

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O monstro da janela

passe livre

Vi da janela do prédio. Tá, eu sei: jornalista que se preza é o que não perde a chance de tirar a bunda da cadeira e correr até o chão dos fatos. Mas eu estava com minhas filhas, brincando de fazer sombras com velas acesas e luzes apagadas. Além do mais, não tinha nenhum empregador me pagando para fugir de balas de borracha e respirar pimenta. Então, quando ouvi o barulho das bombas, fui para a varanda e fiquei vendo de lá o que rolava nas imediações da Praça Roosevelt. E o que vi foi uma multidão tomando conta da praça e das ruas e gritando sem parar:

“Sem violência! Sem violência!”

Na janela ao lado, apareceu a cabeça de Lívia, a vizinha:

“Um monte de gente indo para rua para pedir transporte público melhor. É lindo isso, gente.”

Dali a pouco, vimos as pessoas correndo. Estouros. O cheiro de gás lacrimogêneo chegando até o sétimo andar. Policiais jogavam bombas em grupos que estavam na rua, e que não estavam fazendo nada além de… estar na rua. Gente na rua. Por que será que isso incomoda tanto?

Ao meu lado, Vitória vibrava pelos manifestantes e xingava os policiais. Ela é skatista e faz seus ollies na praça Roosevelt, então já aprendeu que a violência do Estado volta e meia é usada para perseguir uns crimes esquisitos. Como andar de skate. Ou estar na rua. Ou portar vinagre, como a gente ficaria sabendo depois.

Abraçada a minhas pernas, vendo tudo com seus olhões azuis, Ohana fez uma pergunta:

“Por que a polícia joga bomba nas pessoas?”

Pergunta difícil. Pergunta essencial. Daquelas que meninas de sete anos gostam de fazer. E que os adultos, ah, esses adultos cheios de pose, não sabem responder.

Se eu fosse editorialista da Folha ou do Estadão, poderia responder que a polícia precisava agir com o máximo de rigor para conter os manifestantes do Passe Livre, todos baderneiros que gostavam de quebrar coisas. Mas ela estava vendo as pessoas apanhando na rua depois de gritar “sem violência, sem violência”. Não ia colar.

Podia dizer que a polícia estava garantindo o direito de ir e vir dos cidadãos. Que os manifestantes faziam uma coisa muito feia, que era parar o trânsito de São Paulo, impedindo os papais de chegarem em casa para ver suas filhas. Como a Ohana não sabe que o maior índice de lentidão da semana ocorreu no Dia dos Namorados, quando não houve protestos, talvez ela se convencesse. Talvez.

Eu poderia contar algumas das coisas que sei sobre a ação policial. Que grupos militarizados atuando no policiamento de rua são uma exceção na democracia, e que um conselho da ONU já pediu ao Brasil a desmilitarização de sua polícia. Que a lógica militar não é a de combater ações criminosas, mas a de enfrentar grupos inimigos. Por isso, quando acuados pelo crime organizado, como ocorreu em maio de 2006 e no ano passado, os policiais respondem com matanças aleatórias na periferia. Podia contar que a violência que nos pegava de surpresa ali, embaixo da nossa janela, era a realidade de todos os dias além da ponte João Dias. E que não se tratava de uma polícia descontrolada, era uma política de Estado, parte de uma longa tradição.

Devia explicar que a violência é como um monstro que engana a gente, nos fazendo acreditar que ela pode ser boa quando feita pelas pessoas certas, ou em nome das causas certas. Que esse monstro só vai parar de crescer quando a gente olhar bem para a fuça dele, sem disfarces, e perceber que o monstro é sempre um monstro, venha na forma de manifestantes que espancam um policial, venha na forma de policiais que espalham feridas e balas para esvaziar as ruas.

Essa seria a melhor explicação. Mas não consegui . Achei melhor abraçá-la bem forte e contar essa história outro dia.