Encenação de Édipo Rei na Praça Roosevelt. Assassinato, incesto, suicídio e o ser humano que não pode se considerar feliz até sua atingir o termo da sua vida.

Duas crianças observam, impressionadas:

— Você viu a peça?

— Vi. A moça soltou um monte de balões.

— É. Tão lá no céu. Ali, ó.

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Céu por todos os lados

astronauta beyruth

“E a Maurício de Sousa por emprestar os seus brinquedos”, agradece Danilo Beyruth no final de Magnetar, o romance gráfico que ele escreveu e ilustrou com o personagem Astronauta. E parece que Danilo estava mesmo brincando ao contar do seu jeito uma aventura do personagem de Maurício. Brincando do jeito que criança brinca. Já viu como crianças levam a sério uma brincadeira? São capazes de correr para lá e para cá sem parar durante horas, ou de passar um bom tempo sem mexer um músculo, tudo em nome da brincadeira. E ao mesmo tempo não esquecem que estão brincando, e que tudo só vale a pena enquanto estiver divertido.

Danilo leva a sério a sua brincadeira. Isso a gente vê no traço dinâmico e cuidadoso, no ritmo da narrativa, que acelera e ralenta sem perder o pulso de um bom gibi de aventura, e nas referências astronômicas que buscou para montar o Magnetar do título (o cadáver de uma estrela que renasce como um diamante gigantesco, emitindo radiações luminosas em rosa e branco pelo espaço afora e pelas páginas adentro). Mas tudo continua a ser uma brincadeira: só entra na narrativa o que é divertido.

O que fica é uma história de náufrago, lutando com sua própria mente para não enlouquecer e encontrar uma saída para a armadilha em que meteu sua vida. É ali, nos confins do espaço sideral — o mais exterior possível, o mais solitário possível — que o Astronauta consegue olhar para si mesmo e aí encontrar seus amigos e amores,  descobrindo “a proximidade por meio da distância”, como diz Amyr Klink no posfácio.

Klink em seu barco no Atlântico, Danilo com seus papéis, seus lápis e suas tintas, a gente que lê essa história, o próprio Astronauta em sua nave redonda feito os astros por onde navega… todo mundo é astro-nauta nessa história, viajando dentro e fora e descobrindo “céu por todos os lados”.

Como recomendaria o velho Camões

murillo antunes alves

Caricatura de Murillo Antunes Alves

Abaixo, a abertura de um perfil que escrevi para a revista Apartes, da Câmara Municipal, sobre Murillo Antunes Alves, um dos jornalistas mais importantes da era de ouro do rádio, que entrevistou de Monteiro Lobato a Getúlio Vargas. Nesses dois parágrafos, tentei imitar o estilo dos locutores daquela época. “Parece o meu pai falando”, disse Beto, o filho do Murillo, ao ler o texto — um comentário que me deixou feliz.

Cheguei a fazer uma versão da reportagem escrita inteirinha nesse estilo, mas  quem leu concluiu que não dava para aguentar mais de dois parágrafos desse palavrório. Para sorte dos leitores, o restante do texto ficou mais prosaico.

Amável leitor, quisera o autor da presente reportagem, que narra tempos idos e vividos da existência de Murillo Antunes Alves, emular o estilo daquele jornalista, cerimonialista e vereador. Para tal, tornar-se-ia necessário abrir mão da roupagem contemporânea e empregar palavras de sobrecasaca e gravata preta, como as que abrem esta narrativa. Seria a forma ideal de homenagear Murillo, figura que brilhou no firmamento do jornalismo como uma das estrelas dos tempos primevos do rádio e da televisão, e modo seguro de trasladar o leitor de volta ao tempo dos comunicadores bacharéis, que traziam nas mãos gravadores de arame e o português mais castiço na ponta de suas línguas.
Não obstante, falta a este escriba “engenho e arte”, como recomendaria o velho Camões. E, mesmo que os houvesse, o resultado haveria de aparecer como um espetáculo sobremaneira enfadonho aos olhos hodiernos. Destarte, urge abrir mão de todo o preciosismo dos tempos idos, sob o risco de enfastiar o amável leitor a ponto de afastá-lo da leitura. O que seria uma pena, já que vale a pena conhecer Murillo Antunes Alves. Leia tudo.

Idades

As sete idades das mulheres, de Hans Baldung

As sete idades das mulheres, de Hans Baldung

À beira da fogueira, a moça disse:

“Uma vez ouvi me falaram: ‘não somos mais crianças’. Eu, não. Eu fui feto e sou feto. Eu fui criança e sou criança. Eu fui adolescente e sou adolescente. Eu serei velha e continuarei a ser tudo isso. Quando você deixa alguma dessas identidades de lado, você está se subtraindo. Você se diminui. Reconhecendo que continuo a ser o que eu fui, eu posso usar na minha vida a alegria da criança, a energia do adolescente… Essas forças continuam presentes em nós. Se eu não as reconheço em mim, elas vão me usar sem que eu perceba. Vou acabar sendo infantil quando devia ser adulta, ou agir como adulto num momento que exigia a energia de um adolescente. Eu preciso reconhecer que sou nenê, que eu não me basto, que eu preciso de uma teta para me sustentar, para me alimentar. Se eu não percebo isso, vou acabar me encostando em qualquer teta errada por aí.”