Obrigado, pai

fausto e faustao

Fausto Salvadori e Fausto Salvadori Filho: meu pai e eu

Quando voltei para a casa dos meus pais, pensei em me estirar no sofá da sala, diante da televisão, e contar para meu pai como o velório havia sido cansativo, e que ele tinha mesmo razão em seu hábito de evitar funerais, missas de sétimo dia e todo tipo de cerimônia envolvendo defuntos. Ainda no caminho entre a cozinha e a sala, lembrei que não teria como dizer isso para o velho, já que era o corpo dele que eu havia acabado de velar.

O velório do meu pai deve ter sido o primeiro em que ele participou do começo ao fim, pelo menos de corpo presente. Enquanto as horas cambaleavam sonolentas sobre as cadeiras, em meio às vozes dizendo meus sentimentos, meus pêsames e que a morte é a única certeza dessa vida, imaginei que o velho Fausto iria a qualquer momento sair discretamente do caixão e, sem falar com ninguém, dar o fora dali e voltar só na hora do sepultamento – como ele havia feito no velório da mãe, da irmã, de todos que eu me lembrasse. Kardecista-do-jeito-dele, achava bobagem todo o aparato de cerimônias e mausoléus relacionados a cadáveres. Sempre que via o Velório Municipal aberto, dizia tem defunto fresco aí; se os carros estacionados na frente fossem poucos e populares, acrescentava e não é defunto bem de vida, não. Caso o defunto tivesse mais de 60 anos, ainda ironizava: coitado, tão moço… (ele morreu com 74).

Com Ohana, uma dos cinco netos

Com Ohana, um dos cinco netos

E não era só com os funerais. Cultivava indiferença por convenções sociais, opiniões alheias, aparências, “fazer um social”. Mesmo numa festa que acontecesse em sua casa, era comum que passasse a maior parte do tempo num canto da sala, longe das “visitas”, vendo TV e falando mal de tudo o que via, que era o seu jeito de se divertir com a programação. Carregava dentro de si uma paz com que se bastava. Ali, na dele, apenas sendo quem sabia ser.

Naquele dia, o fato de o velho ter aguentado o tempo todo no caixão, sem erguer a cabeça do véu nem para reclamar das ladainhas que repetiam sem parar glória a vós senhor, para mim era mais uma prova de que meu pai não estava lá. Que o Fausto de verdade tinha é deixado o corpo por ali, estampando na cara gelada a expressão serena com que sempre viveu, e se mandado para bem longe.

Acabei fazendo algo parecido. Sem aguentar permanecer ao lado de um corpo num dia de céu tão azul, tratei de sair de perto todas as vezes que pude. Para tomar um café, para almoçar, para olhar o Rio Pardo, e para ver os preparativos no mausoléu da família. Essa parte foi interessante. Vi os coveiros derrubarem uma das paredes a marretadas e depois retirar com as mãos os tijolos que pudessem ser reaproveitados depois para fechar o buraco. “Outro dia fui enterrar um cara e, sem querer, tive um acesso de riso quando vi. Tinham colocado o cavaquinho em cima dele, porque falaram que era tocador. Imagina, enterrar com cavaquinho. Tinha que ser negão, mesmo”, contou um coveiro, negro retinto, enquanto enfiava um rastelo dentro do túmulo para puxar o que havia dentro. Tirou de lá um ajuntamento feito de restos de caixão, roupas, ossos e terra. Tudo misturado, ficava difícil distinguir o que era um pedaço de madeira, resto enlameado de tecido ou um fragmento de costela. Os vestígios do meu tio-padrinho, sepultado há menos tempo, eram os que ainda lembravam algo humano. Um dos funcionários levantou uma calça, e de dentro dela caíram os ossos das pernas. Uma caveira, sem maxilar, logo tombou por ali. A camisa ainda estava inteira, como a gravata, apertada num laço circundando o vazio. “Esse terno tá bom, ainda. E essa gravata ainda dá para um forró”, disse um dos coveiros. Do meu avô, enterrado ali há mais tempo, havia os fragmentos de uma outra caveira, mais detonada. “Está tudo derretendo, se desmanchando”, disse um funcionário, catando os ossos com uma mão enluvada e juntando tudo dentro de um saco de plástico azul, no qual amarraram um quadrado de papel com o nome do meu padrinho e as datas do sepultamento e da exumação.

Desenho que fiz dele no hospital, a caminho da partida

Desenho que fiz dele no hospital, a caminho da partida

Lembrei dos tantos corpos mortos que vi nos tempos em que trabalhei como repórter policial. Cadáveres recentes, apodrecidos, jovens, velhos, baleados, queimados, decapitados, intactos. Pensei no pouco que tudo isso me ensinou sobre a morte, pelo menos naquela época. Lembrei dos versos death metal de Augusto dos Anjos que eu curtia na adolescência, podreiras do tipo “Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos. / Roída toda de bichos, como os queijos…”, versos que agora eu achava… bom, adolescentes. E reparei que eu já não olhava para os efeitos da morte com o mesmo olhar mórbido de antes. Nos ossos e nas roupas que se desmanchavam, eu buscava enxergar o movimento do mundo, a dança que faz tudo se transformar. Nada vivendo para sempre e nada permanecendo morto. Morte e vida capoeirando um com o outro.

De volta ao velório, achei curioso conversar com tanta gente que descrevia meu pai como quieto, sério, caladão. Tímido é o que ele talvez fosse. Porque sempre vi meu pai como um gozador em tempo integral e um dos caras mais engraçados que conheci. Mas esse é um lado que ele devia guardar como um presente, distribuído de vez em quando, aqui e ali, entre os amigos mais próximos, esposa, filhos, netos, nora, genro. Gente privilegiada.

Ao contrário de mim, minha mãe permaneceu ao lado do caixão o tempo todo, do mesmo jeito que havia ficado ao lado dele no hospital. Foram duas semanas entre o diagnóstico de câncer terminal no pulmão e a última expiração que ele deu, segurando a mão dela, às 3 horas da madrugada do dia 26, no Hospital São Vicente. Rápido o bastante para que ele não sofresse tanto, e, imagino, lento o suficiente para que ele aceitasse a partida e fosse se desligando aos poucos (“não vou sarar”, ele confidenciou para um amigo, num momento em que a mente dele já vacilava entre a confusão e a lucidez, e a gente bobamente imaginava que ele ignorava o próprio diagnóstico). Se, para mim, pareceu mais fácil aceitar a partida de meu pai buscando me conectar com ele distante do seu corpo, olhando sol, céu e rio, para minha mãe o caminho foi o velar do caixão. E minha irmã, acho, misturou um pouco dos dois. Os jeitos de cada um para dar tchau.

Gente boa

Gente boa

Terminado o velório, ajudei a carregar o caixão levando um turbilhão em minha cabeça, como se caminhasse em transe, voando nos espaços siderais. Depois que os coveiros jogaram desajeitadamente o caixão no mausoléu, arrancando as alças para poder passa-lo através do buraco que haviam aberto, me aproximei e cantei sobre um jardim cheio de flores, dando a todos a cura e a paz.

Saí do cemitério me sentindo de vários jeitos. Aliviado. Cansado. Com saudade. Órfão. Talvez um pouco mais adulto. Agradecido. E feliz pelo meu pai. Por ter conhecido a paz com que ele viveu a vida, e por ter conseguido entrar em sintonia, por um momento, com o que (eu imagino) seja um pedaço pequenininho da paz que ele encontrou, longe da carne que desmancha e acaba virando barro embrulhado em saco azul.

Paz pequenina, enche minha vida. Obrigado, pai.

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Um doce ruído
interrompe meu sonho:
gostas de chuva sobre a folhagem.

Bashô

(tradução de Olga Savary)

Libertação

Libertação, excarceração, livrança, livramento, soltura, delivramento, delivramento, restituição à liberdade, sursis, anistia, livramento condicional, alforria, emancipação, manumissão, abolição, abolimento, abolicionismo, tiranicídio; liberação, abertura; liberalização, flexibilização;
redenção, resgate, remissão, rendição, absolvição; escapula;
desobrigação, desoneração, desopressão;
13 de Maio, Lei Áurea, habeas corpus, mandado de soltura, mandado de segurança, carta de alforria;
abolicionista, antiescravista, antivescravagista, negrófilo, manumissor, libertador, tiranicida, antidéspota, redentor, libertador, resgatador, alfaqueque, d. Isabel, a Redentora, desopressor, zadona (ant.).
V. libertar; desoprimir; desopressar; livrar; absolver;
dar/restituir à liberdade; pôr a salvo, tornar livre & adj., aliviar os ferros, romper as algemas;
desatar/ desaferrolhar cadeias/ grilhões; excarcerar; desacorrentar; descravizar; desalgemar;
desatar, tirar as cadeias;
quebrar/ sacudir grilhões; deprender das algemas, pôr em liberdade, redimir, remir, resgatar, alforriar, forrar, aforrar, dar alforria a, pôr na rua, manumitir, delivrar, dar rédea larga, dar rédeas soltas, desencarcerar, desenxovar, desencerrar, desengaiolar, desajoujar, desafogar, desenjaular, desencurralar, desencapoeirar, desentalar, desatrelar, desaferrolhar, desencadear, desencabrestar, desemparedar, desimpedir, desprender, largar, soltar, desencochar, despear, soltar o freio a alguém, desbridar, descativar, dessubjugar, relaxar da prisão, despedaçar os laços, desenclaustrar, desenlear; desjungir, desaçaimar, desentaipar, desembaraçar, desemaranhar, libertar-se, sacudir o jugo, desfazer-se dos laços, alcançar a carta de alforria, obter habeas corpus, sair do cativeiro, livrar-se de;
recuperar, conquistar (a liberdade); resgatar-se rebentar as algemas, arrançoar-se, fugir, escapulir;
liberalizar, liberar, flexibilizar, desobrigar, desvincular, descontingenciar, descondicionar.
Adj. libertado & v.; desafrontado, desoprimido, forro, liberto, orcino, libertador, libertário, libertivo, livrador, redentor, salvador, resgatador, remissor, remissório, desopressor, livre, solto, redimido, remido, liberado, desobrigado.
Interj. Independência ou morte!
FRASE: Libertas quæ sera tamen (melhor seria que se dissesse: libertas quamvis sera. O lema dos conjurados mineiros atenta contra a gramática e não tem sentido algum.)

(Dicionário analógico da língua portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo)

Um tanque de guerra dentro do quarto

galileu revista

Para os cypherpunks, vivemos em um Big Brother mundial sem paredão e sem prêmio. As ações de cada pessoa são espionadas e registradas em enormes depósitos ultrassecretos, graças a uma parceria entre a agência de espionagem norte-americana, a NSA (National Agency Security), e empresas como Google, Facebook, Microsoft e Apple, proprietárias dos sites e dos aparelhos que enchemos diariamente com todos os detalhes possíveis a respeito de nossas vidas. Quando nos comunicamos pela internet ou por telefonia celular, que agora está imbuída na internet, nossas trocas são interceptadas por organizações militares de inteligência. “É como ter um tanque de guerra dentro do quarto”, exagera Assange. A espionagem por parte das autoridades não é feita sobre alvos determinados, como rebeldes, terroristas ou suspeitos de crimes. A tecnologia tornou possível a “interceptação estratégica”, que, por padrão, grava e armazena automaticamente os dados de todas as pessoas que falam ao telefone ou acessam a internet, “porque nunca se sabe quando alguém é suspeito”.

Como evitar que a internet se torne uma ferramenta de opressão é o tema da matéria Pelo direito de fechar a porta do banheiro, que escrevi para a Galileu. A matéria saiu com ilustrações estilosas de Cris Vector. Vale a pena sair da internet e ir para uma banca atrás da revista, que tem boas matérias, como a reportagem de capa, sobre agrotóxicos, o dossiê O segredo da felicidade e um perfil de Chris Ware.

Obrigado, Tiago Mali, que me fez o convite de voltar a escrever para a revista. Obrigado, Alexandre Matias e Rafael Tonon, pela edição e paciência. Obrigado a todos os entrevistados: Jacob Appelbaum, Anahuac de Paula Gil e Alexandre Oliva, que me deu de bandeja o título da matéria. E obrigado, Tiago Soares, pelo tesouro das boas dicas.