Violências

Não acredito em violência do opressor X violência do oprimido. Violência é opressão. No momento de uma agressão, quem pratica violência é opressor e quem sofre é oprimido. Não importa quem usa farda, quem é branco, quem é negro, quem é homem ou mulher, gay ou hétero. Não importa o que aconteceu antes ou acontecerá depois. Motivos, ideais e causas não justificam a violência, simplesmente porque a violência não precisa de nada disso. Violência é fogo, e fogo não precisa de justificativas para queimar. Ele simplesmente queima. Lutar contra a opressão significa lutar contra toda forma de violência.

Manjuba

“Fazia um tempo que ele tava aprontando com ela. Até que um dia se deu mal.”

“É?”

“É. Nessa vez, ele saiu dizendo pra a mulher que ia pescar lá no Rio Pardo. Passou o dia fora. Voltou para casa trazendo manjuba.”

“E o que que tem?”

“Você  não sabia que manjuba é peixe de água salgada?”

“Não.”

“Ele também não. Mas a mulher dele sabia.”

“Chega de Amarildos. Desmilitarização já”

Protesto no Parque da Juventude pede a desmilitarização da polícia (foto de Marcelo Camargo/ABr)

Protesto no Parque da Juventude pede a desmilitarização da polícia (foto de Marcelo Camargo/ABr)

“Adalberto Oliveira dos Santos”

“Presente!”

“Adão Luiz Ferreira de Aquino”

“Presente!”

Gritar presente! em memória dos companheiros mortos é uma tradição da militância política. Mas não pertenciam a guerrilheiros ou revolucionários os nomes que aquele grupo de umas cinquenta pessoas recitava na tarde gelada de sábado, dia 5, no Parque da Juventude. Eram todos nomes de vítimas: 111 presos, a maioria sem condenação formal, gente que queria apenas continuar a viver mais alguns anos neste planeta, respirando, amando, errando e acertando como todos nós. Direito que perderam em 2 de outubro de 1992, pelas balas e pelos cães da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Os nomes foram homenageados um a um, por gente de movimentos como Mães de Maio, Rede 2 de Outubro, Coletivo Desentorpecendo a Razão, Movimento Organizado Moinho Vivo, e outros e mais outros, todos pisando o gramado ralo do parque, que até hoje para não ter conseguido força para vicejar direito naquele chão que recebeu tanto sangue dos tempos em que ali funcionou a Casa de Detenção do Carandiru. Organizado para fechar a Semana Contra a Democracia dos Massacres, promovido pelos coletivos, o protesto de sábado mantinha um olho nos 21 anos do massacre do Carandiru e outro nos massacres que as Polícias Militares continuam a praticar todos os dias.

Entre as vítimas destes massacres, pessoas como o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, pai de seis filhos, que, segundo inquérito da Polícia Civil, foi morto sob tortura pelos PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha. Sobrinha de Amarildo, Michelle Lacerda também pisou a grama rala do Parque da Juventude naquele dia. E falou:

“Não é possível que a gente pague, com o nosso suor, o salário de pessoas para entrar em nossas casas, nos tirar de lá, e matar e torturar. Acima de tudo, nós nossos seres humanos. Temos coração. Coração que, se machucar, dói, e, se doer, nós temos que gritar. Essa é a mensagem que a minha família passa. Está machucado, nós estamos gritando, sim, e não vamos parar de gritar. E hoje o grito do meu Amarildo é o grito de todos os Amarildos que já foram.Chega de Amarildos!”

E Michelle disse mais:

“Todo dia o meu tio chegava na porta da minha casa, me mandava beijo e me chamava pelo nome. Eu não escuto mais esse beijo, não tenho mais aquele abraço caloroso, e eu não desejo isso para ninguém. Para a gente, é juntar as energias, juntar as forças, é juntar os gritos e gritar todo mundo: basta! Nem um passo atrás jamais. Desmilitarização já!”

Diz o manifesto distribuído pelos movimentos:

Esse mesmo Estado, que deveria garantir nossos direitos, vem implementando uma verdadeira ‘democracia dos massacres’ onde os principais executores são aqueles que deveriam nos ouvir e proteger, ou seja, a Polícia Militar. Além do medo e da insegurança, o que ganhamos com isso? Não esqueceremos nem nos calaremos diante do Massacre do Carandiru, nem da ação truculenta e desumana no Pinheirinho. Não nos esqueceremos dos milhares de Amarildos, nem dos tantos Ricardos. Não nos cegaremos diante da violência policial nas manifestações sociais, ou do genocídio secular dos povos indígenas, sem medo dos inúmeros massacres que o Estado brasileiro promove. Desmilitarizar a polícia é urgente — nossa luta tá só no começo Quem fecha com a gente?”

Danilo Dara, das Mães de Maio, lembrou que a luta não é apenas pela desmilitarização das polícias. “Gritamos contra todos os dispositivos que reproduzem a lógica penal-militar, tanto na polícia como no Judiciário, na política, na imprensa.”

Enquanto ele falava, dois homens que se diziam jornalistas, mas sem mencionar a que veículo pertenciam, sem tomar notas e sem entrevistar ninguém, fotografavam e filmavam todos os participantes do protesto.

De vento

De volta, por alguns dias, para o barro do Rio Pardo de que sou feito, encontro na rua uma amiga de infância que não via há quase trinta anos. Conversa rápida: oi, é você, é, sou eu, meus sentimentos pelo seu pai, obrigado, casou, casei e separei, eu casei mas não separei, três filhos, eu também. Antes de ir embora, ela dispara: “Eu virei professora, tá? Não sou burra como você dizia”.

Eu não lembrava de tê-la chamada de burra. Lembro, ao contrário, de ser apaixonado por ela. Vai ver, era por isso que a xingava… meninos e meninas, entende? É, eu também não.

O que me espantou foi descobrir que ela havia guardado em algum lugar dentro dela, ao longo de toda a vida, a mágoa por algo que eu havia dito quando a gente tinha, sei lá… sete anos?

Fico pensando em quantas frases estúpidas ditas por mim, desde quando era criança, continuam ziguezagueando por aí, sangrando feito ferida de hemofílico dentro das pessoas que conheci, inclusive gente de quem nem me lembro mais.

Os Senhores do Karma vão ter trabalho para seguir o rastro das tantas flechas envenenadas que disparei por aí, na forma de palavras que eu, bestamente, achei serem de vento.