De vento

De volta, por alguns dias, para o barro do Rio Pardo de que sou feito, encontro na rua uma amiga de infância que não via há quase trinta anos. Conversa rápida: oi, é você, é, sou eu, meus sentimentos pelo seu pai, obrigado, casou, casei e separei, eu casei mas não separei, três filhos, eu também. Antes de ir embora, ela dispara: “Eu virei professora, tá? Não sou burra como você dizia”.

Eu não lembrava de tê-la chamada de burra. Lembro, ao contrário, de ser apaixonado por ela. Vai ver, era por isso que a xingava… meninos e meninas, entende? É, eu também não.

O que me espantou foi descobrir que ela havia guardado em algum lugar dentro dela, ao longo de toda a vida, a mágoa por algo que eu havia dito quando a gente tinha, sei lá… sete anos?

Fico pensando em quantas frases estúpidas ditas por mim, desde quando era criança, continuam ziguezagueando por aí, sangrando feito ferida de hemofílico dentro das pessoas que conheci, inclusive gente de quem nem me lembro mais.

Os Senhores do Karma vão ter trabalho para seguir o rastro das tantas flechas envenenadas que disparei por aí, na forma de palavras que eu, bestamente, achei serem de vento.

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