O intestino do Andrício

Para falar da obra-prima poética que é O Intestino Eloquente, livro de poemas e tiras de Andrício de Souza, resolvi fazer uns versinhos também.450xN

Um dia avistei o mano Andrício
Que já foi logo falando:
“Véi, me cansei dessa vida
de trampar de cartunista.
Passar fome desenhando?
Vou largar desse suplício.”

Me contou o que pretendia:
“Se é pra viver na pobreza,
Vou assumir a pindaíba
E viverei de poesia.
Serei fodido na vida,
Mas fodido com nobreza.”

Achei que fosse uma piada
(Dessas que vive contando
E a gente dá umas risadas
Pra preservar sua auto-estima).
Mas logo estaria lançando
Seu próprio livro de rimas.

O intestino eloquente
É o nome da produção.
Do autor, dá para afirmar
Que sabe, perfeitamente
E com muita precisão,
Forma e conteúdo encaixar.

Escreve, como ninguém,
Sobre cocô, peido, mijo
Merda, cu, intestino, lixo.
Além de rimar porcarias,
Andrício sabe fazer rimas
Que são porcarias também.

Pois é aí que Andrício supera
Outros poetas da nossa era:
Gente como Glauco Mattoso
Que escreve sobre chulé
Com um soneto garboso,
Métrica e outros rapapés.

Vai, paga os quarenta reais
Desse livro, camarada.
Velhos poetas consagrados,
Que te trazem mais cultura,
Não te divertirão mais
Que o Ed Wood da literatura.

As outras vítimas

Virgilio Roveda

Virgílio Roveda, personagem do livro “O Coringa do Cinema”, de Matheus Trunk

Um Estado autoritário tortura e mata seus inimigos. E quem são eles? Podem ser qualquer um.

A gente sabe que a ditadura militar de 1964-1985 tinha os seus alvos preferenciais: sindicalistas, camponeses, militantes de esquerda, movimentos sociais, professores, estudantes. Mas não eram só eles — e isso é o que vejo de mais assustador nas ditaduras. Quando o Estado se presenteia com o direito de torturar e matar quem quiser, todo mundo passa a ser visto como um inimigo em potencial das autoridades, sempre a um passo de ser perseguido pelos motivos mais estúpidos.

Gente como Virgílio Roveda, o Gaúcho, e Roberto Leme, dois operários do cinema da Boca do Lixo sem histórico de atuação política ou militância sindical. Quem poderia imaginar que eles seriam presos e torturados apenas por alugar o apartamento que havia pertencido a um estudante da USP suspeito de atuação “subversiva”, e que, no DOI-Codi, seriam acusados de terrorismo por terem trabalhado nos filmes de terror do Zé do Caixão? Isso aconteceu no segundo semestre de 1973 e é uma das várias histórias contadas num livro muito bacana, O Coringa do Cinema, que o jornalista, historiador e meu amigo Matheus Trunk acaba de lançar pela editora Giostri.

Aqui embaixo, segue um trecho do livro que relata as violências praticadas contra os dois técnicos, e que marcaram ambos, especialmente Roberto,  para o resto da vida. Lendo o relato de Matheus, eu fico imaginando se não existe uma multidão de pessoas vitimadas pela ditadura que vem passando despercebida pelos radares dos historiadores e das comissões da verdade, simplesmente porque não faziam parte do grupo de “suspeitos de sempre” que o regime perseguia com regularidade.

Gaúcho e o montador Roberto Leme, o Robertinho, foram levados do apartamento por duas viaturas. Ficaram duas semanas detidos nas dependências do temido DOI-Codi, localizado na mesma rua Tutóia. As lembranças são as piores possíveis. “É um pavor total. Você não tinha noção de mais nada: tempo, futuro. Você só ouve gritos, gemidos. É terrível”.
Nos interrogatórios, davam um pedaço de papel e uma caneta. A ideia era que Gaúcho deveria colocar o nome de pessoas que estivessem colaborando com os movimentos esquerdistas. Mas o técnico não conhecia ninguém que estivesse engajado na luta armada. “Eu ia colocar o nome de quem? Mazzaropi? Mojica? David Cardoso?”.
(…)
As sessões de tortura resultaram em danos irreversíveis tanto em Roveda como no colega Roberto Leme. O diretor de fotografia sulista sofre uma deficiência no ouvido até hoje. Já o montador Roberto Leme tinha alucinações e ficou com mania de perseguição até falecer, nos anos 90. Passadas duas semanas, os militares perceberam que os dois técnicos não eram pessoas ligadas à militância política. “Nesse momento, eles passaram a chamar a gente de merda. O pior é que durante os interrogatórios, eles passaram a me acusar de ser terrorista porque eu trabalhei em filmes de terror com o Mojica. Dá pra acreditar nisso?”.
Virgílio Roveda é uma pessoa que viveu os dois lados da Ditadura. Em 1964, Gaúcho era soldado da 11º Delegacia do Serviço Militar, em Vacaria. Sua companhia foi a última do Brasil a se render ao golpe daquele ano. Ele lembra que seu quartel prendeu colonos que estavam organizando uma cooperativa no Rio Grande do Sul. “Foi algo nojento. Prendíamos pessoas inocentes que não sabiam nada sobre política. Se você fosse barbudo, era tido como comunista. Se tivesse organizando uma cooperativa de trabalhadores também”.

Histórias assim só poderiam vir à luz pelas mãos de um cara como Matheus Trunk, um historiador que sabe que a Muralha da China foi construída pelos seus pedreiros. Matheus é um cinéfilo de coração enorme, onde cabe todos os responsáveis pela feitura dos filmes, não só a aristocracia dos diretores e atores. Nas suas pesquisas, Matheus inclui todos os profissionais envolvidos nessa coisa maluca e coletiva que é o cinema, com um olhar especial para os nomes que só aparecem nos créditos finais.

Com um olhar desses, é natural que Matheus seja um apaixonado pela Boca do Lixo, o movimento do cinema paulista que, nos anos 70 e 80, democratizou como poucas vezes a arte audiovisual. Uma época em que caminhoneiros e taxistas podiam se tornar cineastas e fazer filmes para espectadores parecidos com eles, que lotavam as salas aos milhões.

Quem acha toscos os filmes daquela época precisa lembrar que a Boca produziu cinema de verdade. Acontece que fazer cinema não é só filmar, como fazer literatura não é só escrever livros (já dizia Antônio Cândido): a arte só existe se houver um público. E público os produtos da Boca sempre tiveram.

Histórias para viver

Do livro As narrativas preferidas de um contador de histórias, de Ilan Brenman.

Carne de língua (conto africano)

Há muito, muito tempo, existiu um rei que se apaixonou perdidamente por uma rainha. Depois do casamento, a rainha foi morar no castelo do rei, mas assim que pisou lá, misteriosamente ficou doente. Ninguém sabia o que tinha, ia definhando a cada dia. O rei, que era muito rico e poderoso, mandou chamar os melhores médicos do mundo. Eles a examinaram, mas não encontraram a causa de sua doença. O rei, então mandou chamara os curandeiros mais famosos do mundo. Fizeram preces, prepararam poções e magias. Também não adiantou nada. A rainha emagrecia diariamente, dali a pouco desapareceria por completo.

O rei, que amava sua esposa tão intensamente, decidiu:

— Eu mesmo vou procurar a cura para a doença da minha rainha.

E lá foi ele procurando a cura para sua rainha. Andou por cidades e campos. Num desses campos, avistou uma cabana.

Aproximou-se, colocou o rosto perto da janela e viu, lá dentro, um casal de camponeses. O camponês mexia os lábios e, na frente dele, a camponesa, gordinha e rosadinha, não parava de gargalhar. Os olhos daquela mulher transbordavam felicidade.

O rei começou a pensar:

— O que será que faz essa mulher ser tão feliz assim?

Com essa pergunta na cabeça, o rei respirou fundo e bateu na porta da cabana.

— Majestade! O que vossa alteza deseja? — perguntou o camponês um pouco assustado com a presença real na sua frente.

— Quero saber, camponês, o que você faz para sua mulher ser tão feliz e saudável? A minha rainha está morrendo no castelo, toda tristonha.

— Muito simples, majestade. Alimento a minha mulher todos os dias com carne de língua.

O rei pensou que tinha ouvido errado: CARNE DE LÍNGUA! O camponês repetiu:

— Alimento minha esposa diariamente com carne de língua.

A situação era de vida ou morte. O rei, mesmo achando aquilo meio estranho, agradeceu ao camponês e foi correndo para seu castelo. Chegando lá, mandou chamar imediatamente à sua presença o cozinheiro real:

— Cozinheiro, prepare imediatamente um imenso sopão com carne de língua de tudo o que é animal vivente na terra.

—O que?! Como assim vossa alteza? – perguntou o cozinheiro, com um ponto de interrogação no rosto.

—Você ouviu direito! Carne de língua de todos os animais do reino! Corra, porque a rainha não pode mais esperar.

O cozinheiro foi chamar os caçadores do reino. Depois de algumas horas, já tinha na sua frente língua de cachorro, gato, rato, jacaré, elefante, tigre, girafa, lagartixa, tartaruga, vaca, ovelha, zebra, hipopótamo…

O imenso sopão ficou pronto no meio da noite. O próprio rei foi alimentar a sua rainha com carne de língua. Entrou no quarto e ficou espantado com a aparência de sua amada esposa. Sentou-se ao seu lado, pegou uma colher do sopão e a aproximou da boca da rainha. Com muito esforço, ela engoliu algumas colheradas do sopão.

O rei esperou, esperou e esperou, mas a rainha não melhorava, muito pelo contrário, parecia que a morte a levaria a qualquer momento. Um desespero tomou conta do rei. Se não fizesse algo, a rainha iria embora para sempre.

— Soldado! Soldado! — gritou.

Um imenso homem, com armadura e espada, entrou no quarto.

— Escute bem, soldado. A rainha tem que ser transferida imediatamente para a casa de um camponês. Lá você encontrará uma mulher gordinha e rosadinha, que você a traga até aqui.

O rei explicou ao soldado onde ficava a casa desse camponês. Essa era a única chance, ele imaginava, de a mulher sobreviver.

Talvez ele não tivesse entendido direito o que o camponês lhe dissera.

— Corre, corre, soldado! A vida da rainha depende disso!

O soldado pegou a rainha no colo e com a ajuda de outros homens saiu em disparada até a casa do camponês. A troca foi feita e, assim que a camponesa entrou no castelo do rei, ficou doente misteriosamente. Depois de t rês semanas, a camponesa, que era gordinha e rosadinha, estava magra e triste. O rei, então, decidiu ver como estava a sua rainha.

Chegando na cabana, pôs o rosto na janela e…Não podia ser! A rainha estava gordinha, rosadinha e gargalhava como nunca tinha visto antes. Na frente dela, o camponês não parava de mexer os lábios. O rei bateu à porta:

— Majestade, você novamente aqui. O que vossa alteza deseja?

— Camponês, o que esta acontecendo!? A sua esposa está morrendo no meu castelo e a minha está toda feliz saudável aqui na nossa frente.

— Me diga você, alteza, o que você fez?

—Fiz exatamente o que moce mandou. Dei carne de língua de cachorro, gato, sapo, coelho, girafa… para minha rainha e para sua esposa também. Mas, camponês, nada adiantou.

— Majestade, você não compreendeu o que eu disse. Eu alimento a sua rainha e a minha esposa com carne de língua, que são as histórias contadas pela minha língua.

O rei pensou um pouco sobre aquelas palavras. Lembrou-se também dos lábios do camponês mexendo. Parecia que agora havia entendido. Chamou a sua rainha de volta e devolveu a camponesa para sua casa. Assim que a rainha entrou no castelo, o rei prometeu que daria todas as noites, antes de dormir, carne de língua.

A partir daquele dia, contam os quenianos, o rei contava uma história diferente todas a s noites. E os quenianos nos revelaram que nunca mais essa rainha ficou doente. E esse povo africano ainda nos revela mais um segredo: as histórias fazem muito bem para as mulheres, crianças, jovens, homens e até mesmo para os reis.