Machuca

bicicleta
Ensinando minha caçula a andar de bicicleta. Uma pedalada de cada vez, um pouco mais a cada dia.

Quando ela hesita, é como olhar para um espelho. Ela está ali, com as mãos no guidão, os pés sobre os pedais, pronta para seguir em frente e tomar a Praça Roosevelt inteira… mas ela cai. Bastaria começar a pedalar para ir em frente, mas ela tem medo de cair. É esse medo que a faz parar, o medo que a faz frear e cair.

“O freio é meu amigo”, ela diz.

Ah, como eu conheço essa queda provocada por nenhum motivo além do medo de cair. Quantas vezes eu não me vejo por aí com as mãos no guidão e os pés nos pedais, com nada a fazer além de pedalar… e eu não pedalo, e caio. Cair por ficar parado. Por travar na hora de fazer o que é tão simples, tão natural e tão bom de fazer.

Ah, mano, dá para meditar, fazer análise, estudar astrologia ou tomar ayahuasca. Mas poucas coisas ajudam tanto a gente a olhar para si mesmo como observar os próprios filhos.

“Pai, não quero mais andar de bicicleta. Machuca.”

“É assim mesmo.”

“Vou querer um patinete.”

“Também machuca.”

“Quero uma coisa que não machuca.”

“Tudo machuca. Viver machuca.”

Ela me dá um beijo:

“E isso, machuca?”

Puxo uns flashbacks da minha cabeça:

“Pode machucar também.”

“Tá. Me compra um sorvete?”

Moleque maravilhoso

calvin-haroldo-comecouNada como começar o ano me abastecendo de infância. Fiz isso com Calvin e Haroldo – E foi assim que tudo começou, que peguei emprestado na Biblioteca Monteiro Lobato. O mais legal dessas primeiras histórias é que nunca o Calvin foi tão criança, tão despretensiosamente moleque, sem a pegada mais “filosófica” que as tirinhas ganhariam anos depois. Recomendo para todo mundo.

calvin-haroldoHiperativo, bagunceiro, cheio de imaginação e muito feliz, Calvin não consegue se concentrar na aula porque prefere lutar contra alienígenas ou tiranossauros dentro da própria cabeça enquanto a professora passa a lição. Vivesse hoje, corria o sério risco de ser diagnosticado com transtorno de deficit de atenção e hiperatividade e dopado com ritalina até virar uma criança apática, incapaz de questionar a realidade e condenada a nunca mais ouvir o rugido de seu tigre de pelúcia.

A propósito, o prefácio do livro, escrito por Garry Trudeau (de Doonesbury), já sugeria que Calvin e Haroldo é melhor do que qualquer droga. Leia que é dos bons. Ele compara Bill Watterson a um repórter da infância:

Existem poucas fontes de humor mais confiáveis e perenes que a mente de uma criança. A maioria dos cartunistas, seres infantilizados que são, sabe bem disso. Mas, quando se dispõem a captar o espírito tumultuoso dos pequenos, eles quase sempre trapaceiam. Sem pudor, criam não crianças reconhecíveis, mas adultos em miniatura, irritantes e piadistas. Pode-se atribuir isso a indolência ou falha de memória, mas a maioria das pessoas que escrevem diálogos cômicos para crianças dá mostras de uma surpreendente falta de sensibilidade – ou de fé – em relação ao material que as inspira, isto é, a infância, em toda a sua livre e encantadora exuberância.

É nesse sentido que Bill Watterson se revela tão original quanto seus fantasiosos personagens Calvin e Haroldo. Watterson é o repórter que acertou a mão, conseguindo retratar a infância tal como realmente é, com suas constantes mudanças de sistemas de referência. Todos os que conviveram com crianças pequenas sabem que a realidade pode ser uma coisa muitíssimo circunstancial. A expressão daquilo que um adulto considera “mentira” pode muito bem refletir a profunda convicção da criança, pelo menos no momento em que ela aflora. A fantasia, que lhe é tão acessível, é vivida com tal intensidade e frequência que pais melindrados como os de Calvin têm a impressão de estar sendo manipulados, quando a verdade é muito mais assustadora: eles nem sequer existem. A criança é ao mesmo tempo rei e guardião desse reino, e pode ser muito exigente na escolha de suas companhias.

Naturalmente, esse exclusivismo leva muitos adultos a buscarem recuperar para si as descobertas felizes da infância, o que é, na verdade, uma tentativa de recuperar o irrecuperável. Alguns desesperados fazem coisas que terminam por levá-los a clínicas de desintoxicação.

O resto de nós, mais sensatos, lê Calvin e Haroldo.

Os olhos de Adèle

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Os olhos e a boca de Adèle Exarchopoulos enchendo uma cena de “Azul é a cor mais quente”

Os olhos dela. Dois planetas vivos, habitados por espécies não catalogadas que afloram e submergem nas suas pupilas. E a boca. Quase sempre entreaberta, revelando os dentes entre os lábios cheios de carne. Dando na cara a fome da adolescente que quer comer o mundo com os olhos e com a boca, a entrega da menina que se deixa levar pelo bungee jumpe sem corda do primeiro grande amor.

Em Azul é a cor mais quente, os olhos e a boca de Adèle Exarchopoulos conduzem todas as cenas. O diretor Abdellatif Kechiche filma como se estivesse apaixonado por sua protagonista e leva quem assiste a se apaixonar junto. Manja aquela paixão que certas atrizes em certos filmes conseguem despertar na gente, tipo Nastassja Kinski em Paris, Texas, Claudia Cardinale em Era uma Vez no Oeste, Ornela Mutti em Crônica de um Amor Louco?

É um filme todo sensualidade, todo corpo. Há um tesão espalhado de cabo a rabo, não só nas belas sequências de trepada. Cada cena enche nossos olhos com os rostos dos atores, filmados sempre de perto, e nossos ouvidos com os barulhos de seus corpos. Ouvimos a respiração dos personagens, o barulho de lábios chupando ou se beijando, o som da comida sendo mastigada em suas bocas.

Quando uma briga põe fim ao seu relacionamento, vemos cada lágrima que cai dos olhos de Adèle e o seu nariz que escorre em cataratas. Deselegante, meio sujo, muito humano. Quanto amor intenso que, ao terminar, não deixa na boca um gosto de lágrimas e ranho?

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Uma das pinturas feitas para o filme, por Cecile Desserle