Machuca

bicicleta
Ensinando minha caçula a andar de bicicleta. Uma pedalada de cada vez, um pouco mais a cada dia.

Quando ela hesita, é como olhar para um espelho. Ela está ali, com as mãos no guidão, os pés sobre os pedais, pronta para seguir em frente e tomar a Praça Roosevelt inteira… mas ela cai. Bastaria começar a pedalar para ir em frente, mas ela tem medo de cair. É esse medo que a faz parar, o medo que a faz frear e cair.

“O freio é meu amigo”, ela diz.

Ah, como eu conheço essa queda provocada por nenhum motivo além do medo de cair. Quantas vezes eu não me vejo por aí com as mãos no guidão e os pés nos pedais, com nada a fazer além de pedalar… e eu não pedalo, e caio. Cair por ficar parado. Por travar na hora de fazer o que é tão simples, tão natural e tão bom de fazer.

Ah, mano, dá para meditar, fazer análise, estudar astrologia ou tomar ayahuasca. Mas poucas coisas ajudam tanto a gente a olhar para si mesmo como observar os próprios filhos.

“Pai, não quero mais andar de bicicleta. Machuca.”

“É assim mesmo.”

“Vou querer um patinete.”

“Também machuca.”

“Quero uma coisa que não machuca.”

“Tudo machuca. Viver machuca.”

Ela me dá um beijo:

“E isso, machuca?”

Puxo uns flashbacks da minha cabeça:

“Pode machucar também.”

“Tá. Me compra um sorvete?”

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1 comentário

  1. Adorei, é bem por aí mesmo.

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