Ponte

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Tem coisas que a gente aprende a aceitar que são do jeito que são, que sempre foram assim e não serão diferentes.

Tipo.

“Fausto, checa essa história de dois caras que foram mortos lá no Parque Trianon. Se forem garotos de programa, faz uma nota por telefone, mesmo. Se for alguém de classe média, aí vale a pena ir até o local e fazer matéria. Pode até ser manchete.”

Eu era um moleque de 22 anos, recém-formado em Jornalismo, quando ouvi essa ordem, dita por um chefe do antigo Jornal da Tarde. Fiquei chocado. Eu me chocava com as coisas na época. Até me indignava, acreditava? É que eu era um moleque, com muito menos pêlo no rosto e barriga no abdome do que tenho hoje. E um monte de sonhos ainda intactos no peito.

Era a primeira vez que ouvia algo assim. Com o tempo, ouviria muitas outras. Anos depois, como repórter de madrugada no Agora SP, trampando enquanto meus chefes dormiam, precisava decidir em quais histórias valia a pena investir e quais era melhor deixar de lado. No dia seguinte, eu seria cobrado se tivesse corrido atrás da história errada. Na base da tentativa e erro, do esculacho e do esporro, fui aprendendo.

Aprendi que, mesmo num jornal que se diz “popular”, as histórias envolvendo gente pobre e negra, desenroladas nas quebradas mais distantes do centro, só enchiam as páginas se o dia estivesse muito fraco, e mesmo assim não repercutiam nas edições seguintes. Histórias quentes vinham de delegacias como o 78º DP, nos Jardins, do 15º, no Itaim Bibi, ou do 34º, no Morumbi (se bem que nesse era bom tomar cuidado porque a região também tinha muitas favelas, onde morte e vida não importam tanto para os jornalistas). Delegacias como o 47º DP, no Capão Redondo, ou o 25º DP, em Parelheiros, eram uma roubada: longes e cheias de histórias que rendiam pouco, porque aconteciam com gente que não valia tanto.

Logo, eu mesmo já tinha aprendido a fazer as perguntas certas para avaliar uma pauta.

“Esse cara que foi morto tinha qual profissão, você sabe?”

“Em que bairro isso aconteceu?”

Ou, sendo mais direto:

“Tem ideia da classe social dos envolvidos?”

Afinal, se era assim que as coisas eram, sempre foram e sempre serão, não adiantava fazer diferente.

Acho que em poucas áreas do jornalismo as barreiras entre as classes se mostram com tanta evidência como na cobertura policial – talvez só nas matérias de comportamento a opção por privilegiar a classe média branca seja tão ostensiva. A justificativa vem travestida de argumento comercial. Dizem que nem mesmo os pobres gastam dinheiro em jornal para ver outros pobres como eles. Que pobres e ricos, negros e brancos, preferem ver os dramas de ricos e brancos. Durante anos, o mesmo argumento foi usado para afastar os negros da publicidade e das capas de revista. Essa noção é tratada como uma verdade evidente por si mesma – embora nunca tenha sido testada, já que ninguém faz diferente.

E não só os jornalistas agem desse jeito. O poder público segue a mesma lógica, até porque pauta e é pautado pelo noticiário. A polícia brasileira, com sua estrutura ineficiente de divisão em Civil e Militar, só tem condições de investigar uma fração dos crimes que chegam até ela. Que critério ela vai usar nessa peneira? Ir atrás dos casos que geram mais repercussão na mídia é um deles. Agradar a pessoas influentes é outro. É só comparar a estrutura mobilizada pela polícia para investigar os casos envolvendo gente branca e bonita do centro expandido, como o casal Nardoni ou Suzane von Richtofen, que envolveu equipes enormes e recursos de seriado americano, com os inquéritos envolvendo gente da periferia, que muitas vezes se arrastam por meses sem fazer o trabalho mínimo de ouvir as testemunhas arroladas nos boletins de ocorrência.

Quando quer promover um policial, o governo o leva para os DPs nobres; ir trabalhar nas delegacias e nos batalhões da periferia é considerado uma punição e um exílio. Tanto para o governo como para os jornalistas, a vida além do centro expandido vale menos.

Como ia dizendo, com o tempo a gente aprende a aceitar que as coisas são como são e deixar de lado a rebeldia. Faz parte do processo de amadurecimento. E, se tem uma lição que o jornalismo ensina com propriedade, é a do conformismo. Creio que poucos ambientes conseguem ser mais autoritários do que uma redação de jornal. Os profissionais muitas vezes trabalham à margem da lei, aceitando condições de trabalho que provocariam uma greve se fossem impostas a operários de uma fábrica. São contratados ilegalmente, obrigando a abrir empresas para burlar a CLT, e vivem trabalhando de graça, entregando às empresas centenas de horas extras que nunca serão pagas. Demissões coletivas, chamadas passaralhos, fazem parte da rotina, e ninguém as contesta. Ordens vindas das castas superiores dos editores são tratadas como decretos divinos e discuti-las é visto como heresia.

Os repórteres, seres da redação que estão em contato mais próximo com a realidade, são os que recebem menos, tanto em grana como em prestígio, já que a realidade não importa. O que importa é o que a chefia diz que é a realidade. E não adianta discutir. As coisas são o que são. Aceitar é bom. Abaixar a cabeça significa matar o moleque rebelde dentro de você e amadurecer. E, uma vez maduro, só falta se deixar apodrecer e morrer.

O engraçado é que tem sempre uma galera com outro jeito de enxergar. Até veem as coisas como são, mas preferem olhar para como elas podem ser. E, hoje, com as novas tecnologias, nunca houve tantas ferramentas para gente desse tipo fazer as coisas do seu jeito.

Conheci uma galera que é assim, e nada me deixa mais feliz do que estar no meio desse povo e do projeto que estamos criando junto, a Ponte. Aqui, tem gente como Laura Capriglione e Bruno Paes Manso, que eu já lia antes de pisar pela primeira vez numa redação, e que me faziam pensar “um dia, quero escrever histórias que nem eles”. Tem o pessoal mais novo, feito o Padu e o Luís Adorno, que trazem jeitos novos de olhar para o que a gente achava que já conhecia. Tem André Caramante, que há anos me dá várias aulas de jornalismo só por vê-lo trabalhando, e William Cardoso, amigo de fé e irmão camarada, sangue de contador de histórias correndo pelas veias. Tem os amigos novos: Carol Trevisan, Caio Palazzo, Claudia Belfort, Gabriel Uchida, Joana Brasileiro, Rafael Bonifácio, Tati Merlino. Tem o Milton Bellintani, outro mestre. Tem Marina Amaral e Natália Viana, que, com a Agência Pública, provaram que as coisas no jornalismo não precisam ser como são.

Todos juntos, sem chefes, e ainda com pouca grana, estamos aprendendo a fazer jornalismo sem pensar no que ele é, mas no que a gente acredita que pode ser. Um jornalismo que olhe para as pessoas, antes de mais nada, como gente. Lembrando uma verdade tão simples: que gente é gente, não importa a cor, a grana, como trepa ou o que faça.

Não temos lados. Não somos ativistas, somos jornalistas. O caminho que escolhemos é o da reportagem, porque é o que sabemos fazer. Tudo o que queremos é ir à rua e contar o que vimos lá. Coisas que fazem a gente se indignar, chorar, rir, berrar. Escolhemos a Ponte porque a gente não gosta de olhar para territórios e fronteiras. Preferimos as possibilidades.

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O intestino do Andrício

Para falar da obra-prima poética que é O Intestino Eloquente, livro de poemas e tiras de Andrício de Souza, resolvi fazer uns versinhos também.450xN

Um dia avistei o mano Andrício
Que já foi logo falando:
“Véi, me cansei dessa vida
de trampar de cartunista.
Passar fome desenhando?
Vou largar desse suplício.”

Me contou o que pretendia:
“Se é pra viver na pobreza,
Vou assumir a pindaíba
E viverei de poesia.
Serei fodido na vida,
Mas fodido com nobreza.”

Achei que fosse uma piada
(Dessas que vive contando
E a gente dá umas risadas
Pra preservar sua auto-estima).
Mas logo estaria lançando
Seu próprio livro de rimas.

O intestino eloquente
É o nome da produção.
Do autor, dá para afirmar
Que sabe, perfeitamente
E com muita precisão,
Forma e conteúdo encaixar.

Escreve, como ninguém,
Sobre cocô, peido, mijo
Merda, cu, intestino, lixo.
Além de rimar porcarias,
Andrício sabe fazer rimas
Que são porcarias também.

Pois é aí que Andrício supera
Outros poetas da nossa era:
Gente como Glauco Mattoso
Que escreve sobre chulé
Com um soneto garboso,
Métrica e outros rapapés.

Vai, paga os quarenta reais
Desse livro, camarada.
Velhos poetas consagrados,
Que te trazem mais cultura,
Não te divertirão mais
Que o Ed Wood da literatura.

As outras vítimas

Virgilio Roveda

Virgílio Roveda, personagem do livro “O Coringa do Cinema”, de Matheus Trunk

Um Estado autoritário tortura e mata seus inimigos. E quem são eles? Podem ser qualquer um.

A gente sabe que a ditadura militar de 1964-1985 tinha os seus alvos preferenciais: sindicalistas, camponeses, militantes de esquerda, movimentos sociais, professores, estudantes. Mas não eram só eles — e isso é o que vejo de mais assustador nas ditaduras. Quando o Estado se presenteia com o direito de torturar e matar quem quiser, todo mundo passa a ser visto como um inimigo em potencial das autoridades, sempre a um passo de ser perseguido pelos motivos mais estúpidos.

Gente como Virgílio Roveda, o Gaúcho, e Roberto Leme, dois operários do cinema da Boca do Lixo sem histórico de atuação política ou militância sindical. Quem poderia imaginar que eles seriam presos e torturados apenas por alugar o apartamento que havia pertencido a um estudante da USP suspeito de atuação “subversiva”, e que, no DOI-Codi, seriam acusados de terrorismo por terem trabalhado nos filmes de terror do Zé do Caixão? Isso aconteceu no segundo semestre de 1973 e é uma das várias histórias contadas num livro muito bacana, O Coringa do Cinema, que o jornalista, historiador e meu amigo Matheus Trunk acaba de lançar pela editora Giostri.

Aqui embaixo, segue um trecho do livro que relata as violências praticadas contra os dois técnicos, e que marcaram ambos, especialmente Roberto,  para o resto da vida. Lendo o relato de Matheus, eu fico imaginando se não existe uma multidão de pessoas vitimadas pela ditadura que vem passando despercebida pelos radares dos historiadores e das comissões da verdade, simplesmente porque não faziam parte do grupo de “suspeitos de sempre” que o regime perseguia com regularidade.

Gaúcho e o montador Roberto Leme, o Robertinho, foram levados do apartamento por duas viaturas. Ficaram duas semanas detidos nas dependências do temido DOI-Codi, localizado na mesma rua Tutóia. As lembranças são as piores possíveis. “É um pavor total. Você não tinha noção de mais nada: tempo, futuro. Você só ouve gritos, gemidos. É terrível”.
Nos interrogatórios, davam um pedaço de papel e uma caneta. A ideia era que Gaúcho deveria colocar o nome de pessoas que estivessem colaborando com os movimentos esquerdistas. Mas o técnico não conhecia ninguém que estivesse engajado na luta armada. “Eu ia colocar o nome de quem? Mazzaropi? Mojica? David Cardoso?”.
(…)
As sessões de tortura resultaram em danos irreversíveis tanto em Roveda como no colega Roberto Leme. O diretor de fotografia sulista sofre uma deficiência no ouvido até hoje. Já o montador Roberto Leme tinha alucinações e ficou com mania de perseguição até falecer, nos anos 90. Passadas duas semanas, os militares perceberam que os dois técnicos não eram pessoas ligadas à militância política. “Nesse momento, eles passaram a chamar a gente de merda. O pior é que durante os interrogatórios, eles passaram a me acusar de ser terrorista porque eu trabalhei em filmes de terror com o Mojica. Dá pra acreditar nisso?”.
Virgílio Roveda é uma pessoa que viveu os dois lados da Ditadura. Em 1964, Gaúcho era soldado da 11º Delegacia do Serviço Militar, em Vacaria. Sua companhia foi a última do Brasil a se render ao golpe daquele ano. Ele lembra que seu quartel prendeu colonos que estavam organizando uma cooperativa no Rio Grande do Sul. “Foi algo nojento. Prendíamos pessoas inocentes que não sabiam nada sobre política. Se você fosse barbudo, era tido como comunista. Se tivesse organizando uma cooperativa de trabalhadores também”.

Histórias assim só poderiam vir à luz pelas mãos de um cara como Matheus Trunk, um historiador que sabe que a Muralha da China foi construída pelos seus pedreiros. Matheus é um cinéfilo de coração enorme, onde cabe todos os responsáveis pela feitura dos filmes, não só a aristocracia dos diretores e atores. Nas suas pesquisas, Matheus inclui todos os profissionais envolvidos nessa coisa maluca e coletiva que é o cinema, com um olhar especial para os nomes que só aparecem nos créditos finais.

Com um olhar desses, é natural que Matheus seja um apaixonado pela Boca do Lixo, o movimento do cinema paulista que, nos anos 70 e 80, democratizou como poucas vezes a arte audiovisual. Uma época em que caminhoneiros e taxistas podiam se tornar cineastas e fazer filmes para espectadores parecidos com eles, que lotavam as salas aos milhões.

Quem acha toscos os filmes daquela época precisa lembrar que a Boca produziu cinema de verdade. Acontece que fazer cinema não é só filmar, como fazer literatura não é só escrever livros (já dizia Antônio Cândido): a arte só existe se houver um público. E público os produtos da Boca sempre tiveram.

O mar, a lua velha, o bebê e os fantasmas

Eles são palhaços e cantores. São poetas e pintores — de pintar a tarde garoenta com histórias e risadas. Fazem arte como criança faz arte: botando para dançar os lápis de cor pelas paredes brancas do quarto até ouvir o berro da mãe O QUE VOCÊ FEZ AÍ, MENINO? e então responder fiz um sol, um carro, uma casinha. O caso das paredes rabiscadas é um dos contos que os Cantadores de Contos contam, eles que não são só cantadores de contar. Também são cantadores de ouvir, que abrem a roda para acolher os contos da infância de quem assiste ao espetáculo.

Uma hoje moça, Betina, conta o conto da Betina criança que passava as férias ao lado do mar. À noite, tremia de medo na cama ouvindo o barulho das ondas. Parecia que o mar ia entrar pelas janelas e tomar conta de tudo. As noites foram passando e ela foi perdendo o medo, após ver que a cada manhã o mar não havia saído do lugar. É bom descobrir que o mar continua sempre no mesmo lugar.

Um hoje senhor, João, conta o conto do João criança que, em 1947, ouviu os mais velhos falarem chegada da lua nova. E depois passou a percorrer as plantações em busca da lua velha, que devia ter caído por ali. Um dia, achou a tampa de uma panela. Teve certeza de que havia encontrado a lua, que de nova havia ficado velha e caído do céu, ali perto da sua casa.

Uma moça, Clara, conta o conto da sua primeira lembrança. Da Clara de três anos de idade que ouviu o choro do irmão recém-nascido no berço. E que dali a pouco apareceu na sala, diante dos adultos, carregando nos braços o bebê, pouco menor do que ela. Os adultos se desesperam, com medo que ela derrube o bebê. E ela, toda segura, toda irmã mais velha: calma, estou segurando a cabecinha dele. Porque neném tem o pescocinho mole, e ela, toda segura, toda irmã mais velha, sabia muito bem disso.

E um moço, Fausto, ficou pensando num pedaço de infância que poderia compartilhar. E só viu o branco em sua cabeça. Até agora, quando se sentou para escrever diante da tela em branca, e aí resolveu pintá-la que nem criança arteira com a história do Fausto criança que brincava sozinho pelos cantos na hora do recreio e, sem que ninguém soubesse, estava caçando os fantasmas da escola: a loira do banheiro, o fantasma do jardim e o vampiro do laboratório, todos destruídos na pirâmide de papel que o menino um dia queimou no quintal de casa.

Carolina Nagayoshi, Débora Sanders e Thiago Freitas são os arteiros dos Cantadores de Contos. As apresentações deles são cheias de cenas como essa do compartilhamento de lembranças, que aconteceu ontem no Espaço Florescer, da Sofia. Isso por que nós gostramos de ‘RE-EM-VENTAR’, para que nós, como criadores, sejamos também reinventados a cada instante, a cada momento, a cada movimento e a cada vento, contam os Cantadores em seu canto na Web. Os arteiros gostam de falar com as crianças do jeito que elas mais gostam, transformando tudo em brincadeira. E a gente que é adulto, na ilusão da infância esquecida, lembra de como a vida só vale pelo que nela existe de brinquedo.

A Semana do Euclidão

Euclidão recebendo o beijo de uma maratonista nos anos 90

Capa do livro da Rachel

Acabo de receber uma carta. Em papel, com selos e um recado carinhoso escrito a mão numa folha de papel pautado. E, dentro do envelope, um livro escrito pela autora da carta,  a velha amiga Rachel Bueno. Conheço a Raquel do tempo em que as pessoas escreviam cartas. E eram muitas: não havia dia que eu não recebesse ou escrevesse uma carta, para gente de várias partes do país. Gente que se conhecia durante os sete dias da Maratona Intelectual Euclidiana, evento que reunia a molecada para estudar e viver lá em São José do Rio Pardo, meu torrão natal, onde Euclides da Cunha escreveu Os Sertões.O livro da Raquel é sobre isso: um apanhado muito bacana de “casos e causos” que rolavam com os estudantes naquelas semanas, que só quem viveu sabe como era. Quem quiser um exemplar, na mão da Rachel é mais barato: dá para negociar direto com ela pelo e-mail joanaimaginaria@ig.com.br.

Ah, e a autora me deu a honra de escrever o prefácio, que é o seguinte.

Eu achava que sabia o que era uma Semana Euclidiana. Claro que sabia. Eu era um rio-pardense, nascido e embalado no berço d’Os Sertões, que muito antes da puberdade já sacolejava em cima de carros alegóricos improvisados nos desfiles inaugurais de 9 de agosto, diante das autoridades e dos meus pais que davam tchauzinho na multidão. Agora no ensino médio, eu já tinha lido a “Bíblia da nacionalidade”, podia recitar de cor o parágrafo começado com “Canudos não se rendeu” e colecionava medalhas pelas minhas participações nas Maratonas Intelectuais. Só aí eu descobri que não sabia nada sobre a verdadeira Semana Euclidiana.

Nem eu, nem a maioria dos estudantes nascidos às margens do Rio Pardo. Os alunos ribeirinhos, que passavam o dia ouvindo sobre os oxímoros da linguagem euclidiana, almoçavam na casa dos pais e iam dormir na mesma cama de todas as noites, viam apenas a cara sisuda da Semana Euclidiana: o desfile de abertura com seu jeitão de parada militar, os eventos que emendavam o Hino Nacional com longos discursos destacando o amor à Pátria e os professores que reverenciavam Euclides da Cunha com a fé de Antônio Beatinho no seu bom Conselheiro.

Fui conhecer a outra cara da Semana Euclidiana no ano em que resolvi me juntar à legião dos “estrangeiros”: os alunos que vinham de outras cidades e viviam aqueles sete dias como uma aventura. Eram adolescentes que, em muitos casos, estavam pela primeira vez passando uma semana longe da casa de seus pais e de tudo o que conheciam. Meninas e moleques que viviam a fome de conhecer a terra ignota que esperava por eles fora dos quartos da sua infância. Fome de saber, fome de experenciar, fome de amar e de sofrer por amar. Parecida com a fome euclidiana pelo desconhecido, na Amazônia ou na caatinga. E eu, que vivia a mesma fome, também me reuni aos outros maratonistas nas cantorias sobre o túmulo de Euclides, nas peregrinações para ver o sol nascer debaixo dos sovacos de Cristo, nas noites de sono curto sobre os colchonetes amontoados nos alojamentos e nas choradeiras de 15 de agosto na rodoviária, cantando “volta, volta para as cavernas, se tranca e engole a chave” para os ônibus Nasser que iam embora, deixando a cidade mais vazia.

Na Semana Euclidiana eu me apaixonei, na Semana Euclidiana eu sofri — tanto a dor das minhas paixões como a dor por tabela das paixões de outros maratonistas. Na Semana Euclidiana eu fiz grandes amigos, alguns para a vida toda. Amigos de quem a gente anotava os endereços, com número da rua e CEP, para se dedicar ao pré-histórico costume de trocar cartas: pedaços de nosso cotidiano e dos nossos sonhos na forma de folhas de papel rabiscadas, que a gente espalhava pelo país durante o longo ano entre dois agostos.

A Semana Euclidiana foi o nosso Quarup. Um rito de passagem travestido de maratona escolar para alunos aplicados. É claro que deve rolar algo parecido com adolescentes em outros tipos de acontecimentos: excursões, acampamentos, festivais de rock. Algo que fazia a Semana Euclidiana diferente era o fato de as escolas geralmente escolherem os maratonistas entre os estudantes que gostavam de escrever. O que gerava uma alta concentração por metro quadrado de uma molecada que compartilhava da mesma paixão por literatura, poesia, música. Vários eram CDFs (o termo nerd, bem como o glamour torto que passou a acompanhá-lo, viriam depois). Uma gente com um outro jeito de olhar à volta, que não costumava ter muitos amigos com quem falar sobre isso nas suas cidades de origem. A Semana Euclidiana serviu para nos mostrar que não estávamos sozinhos.

Muitos antes que Zé Celso resolvesse encenar Os Sertões, os maratonistas já faziam sua versão antropofágica da cultura euclidiana. Tínhamos o nosso Euclides da Cunha, diferente da figura sagrada dos discursos à beira da Herma. O nosso Euclides era humano, como todos nós. Era o Euclidão, um cara gente boa, nosso parceiro. Euclidão oferecia seu mausoléu para a gente beber, cantar e namorar sobre seus restos mortais. Em seu busto de bronze, Euclidão ria das canções obscenas em que celebrávamos sua história de amor infeliz, depois se oferecia para ser enfeitado com flores e receber os beijos das nossas meninas. E eu sentia que, de algum jeito, essa celebração combinava com a epopeia cheia de vida, plena de sangue e contradições, que Euclidão havia escrito logo ali, na casinha a poucos metros de nós.

Escrevo no passado porque nunca mais voltei a participar das Semanas Euclidianas. Ler as crônicas coletadas aqui pela Rachel me fez mergulhar de novo nesse passado, e agradeço a ela por isso. Conheci Rachel quando já era professora da Maratona Euclidiana, e o que me encanta nela é como consegue levar às aulas o mesmo coração jovem de maratonista. Suas aulas não são transmissão de dogmas, são momentos de descoberta e questionamento. Rachel é daquelas que conseguem ensinar Euclides da Cunha sem esquecer do Euclidão. E é o que ela está fazendo agora, ao reunir histórias que são uma parte da história da Semana Euclidiana, tão fundamental quanto qualquer conferência de encerramento. Obrigado, Rachel. Volta, Euclidão! Ô, fudega!