Machuca

bicicleta
Ensinando minha caçula a andar de bicicleta. Uma pedalada de cada vez, um pouco mais a cada dia.

Quando ela hesita, é como olhar para um espelho. Ela está ali, com as mãos no guidão, os pés sobre os pedais, pronta para seguir em frente e tomar a Praça Roosevelt inteira… mas ela cai. Bastaria começar a pedalar para ir em frente, mas ela tem medo de cair. É esse medo que a faz parar, o medo que a faz frear e cair.

“O freio é meu amigo”, ela diz.

Ah, como eu conheço essa queda provocada por nenhum motivo além do medo de cair. Quantas vezes eu não me vejo por aí com as mãos no guidão e os pés nos pedais, com nada a fazer além de pedalar… e eu não pedalo, e caio. Cair por ficar parado. Por travar na hora de fazer o que é tão simples, tão natural e tão bom de fazer.

Ah, mano, dá para meditar, fazer análise, estudar astrologia ou tomar ayahuasca. Mas poucas coisas ajudam tanto a gente a olhar para si mesmo como observar os próprios filhos.

“Pai, não quero mais andar de bicicleta. Machuca.”

“É assim mesmo.”

“Vou querer um patinete.”

“Também machuca.”

“Quero uma coisa que não machuca.”

“Tudo machuca. Viver machuca.”

Ela me dá um beijo:

“E isso, machuca?”

Puxo uns flashbacks da minha cabeça:

“Pode machucar também.”

“Tá. Me compra um sorvete?”

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De vento

De volta, por alguns dias, para o barro do Rio Pardo de que sou feito, encontro na rua uma amiga de infância que não via há quase trinta anos. Conversa rápida: oi, é você, é, sou eu, meus sentimentos pelo seu pai, obrigado, casou, casei e separei, eu casei mas não separei, três filhos, eu também. Antes de ir embora, ela dispara: “Eu virei professora, tá? Não sou burra como você dizia”.

Eu não lembrava de tê-la chamada de burra. Lembro, ao contrário, de ser apaixonado por ela. Vai ver, era por isso que a xingava… meninos e meninas, entende? É, eu também não.

O que me espantou foi descobrir que ela havia guardado em algum lugar dentro dela, ao longo de toda a vida, a mágoa por algo que eu havia dito quando a gente tinha, sei lá… sete anos?

Fico pensando em quantas frases estúpidas ditas por mim, desde quando era criança, continuam ziguezagueando por aí, sangrando feito ferida de hemofílico dentro das pessoas que conheci, inclusive gente de quem nem me lembro mais.

Os Senhores do Karma vão ter trabalho para seguir o rastro das tantas flechas envenenadas que disparei por aí, na forma de palavras que eu, bestamente, achei serem de vento.

Obrigado, pai

fausto e faustao

Fausto Salvadori e Fausto Salvadori Filho: meu pai e eu

Quando voltei para a casa dos meus pais, pensei em me estirar no sofá da sala, diante da televisão, e contar para meu pai como o velório havia sido cansativo, e que ele tinha mesmo razão em seu hábito de evitar funerais, missas de sétimo dia e todo tipo de cerimônia envolvendo defuntos. Ainda no caminho entre a cozinha e a sala, lembrei que não teria como dizer isso para o velho, já que era o corpo dele que eu havia acabado de velar.

O velório do meu pai deve ter sido o primeiro em que ele participou do começo ao fim, pelo menos de corpo presente. Enquanto as horas cambaleavam sonolentas sobre as cadeiras, em meio às vozes dizendo meus sentimentos, meus pêsames e que a morte é a única certeza dessa vida, imaginei que o velho Fausto iria a qualquer momento sair discretamente do caixão e, sem falar com ninguém, dar o fora dali e voltar só na hora do sepultamento – como ele havia feito no velório da mãe, da irmã, de todos que eu me lembrasse. Kardecista-do-jeito-dele, achava bobagem todo o aparato de cerimônias e mausoléus relacionados a cadáveres. Sempre que via o Velório Municipal aberto, dizia tem defunto fresco aí; se os carros estacionados na frente fossem poucos e populares, acrescentava e não é defunto bem de vida, não. Caso o defunto tivesse mais de 60 anos, ainda ironizava: coitado, tão moço… (ele morreu com 74).

Com Ohana, uma dos cinco netos

Com Ohana, um dos cinco netos

E não era só com os funerais. Cultivava indiferença por convenções sociais, opiniões alheias, aparências, “fazer um social”. Mesmo numa festa que acontecesse em sua casa, era comum que passasse a maior parte do tempo num canto da sala, longe das “visitas”, vendo TV e falando mal de tudo o que via, que era o seu jeito de se divertir com a programação. Carregava dentro de si uma paz com que se bastava. Ali, na dele, apenas sendo quem sabia ser.

Naquele dia, o fato de o velho ter aguentado o tempo todo no caixão, sem erguer a cabeça do véu nem para reclamar das ladainhas que repetiam sem parar glória a vós senhor, para mim era mais uma prova de que meu pai não estava lá. Que o Fausto de verdade tinha é deixado o corpo por ali, estampando na cara gelada a expressão serena com que sempre viveu, e se mandado para bem longe.

Acabei fazendo algo parecido. Sem aguentar permanecer ao lado de um corpo num dia de céu tão azul, tratei de sair de perto todas as vezes que pude. Para tomar um café, para almoçar, para olhar o Rio Pardo, e para ver os preparativos no mausoléu da família. Essa parte foi interessante. Vi os coveiros derrubarem uma das paredes a marretadas e depois retirar com as mãos os tijolos que pudessem ser reaproveitados depois para fechar o buraco. “Outro dia fui enterrar um cara e, sem querer, tive um acesso de riso quando vi. Tinham colocado o cavaquinho em cima dele, porque falaram que era tocador. Imagina, enterrar com cavaquinho. Tinha que ser negão, mesmo”, contou um coveiro, negro retinto, enquanto enfiava um rastelo dentro do túmulo para puxar o que havia dentro. Tirou de lá um ajuntamento feito de restos de caixão, roupas, ossos e terra. Tudo misturado, ficava difícil distinguir o que era um pedaço de madeira, resto enlameado de tecido ou um fragmento de costela. Os vestígios do meu tio-padrinho, sepultado há menos tempo, eram os que ainda lembravam algo humano. Um dos funcionários levantou uma calça, e de dentro dela caíram os ossos das pernas. Uma caveira, sem maxilar, logo tombou por ali. A camisa ainda estava inteira, como a gravata, apertada num laço circundando o vazio. “Esse terno tá bom, ainda. E essa gravata ainda dá para um forró”, disse um dos coveiros. Do meu avô, enterrado ali há mais tempo, havia os fragmentos de uma outra caveira, mais detonada. “Está tudo derretendo, se desmanchando”, disse um funcionário, catando os ossos com uma mão enluvada e juntando tudo dentro de um saco de plástico azul, no qual amarraram um quadrado de papel com o nome do meu padrinho e as datas do sepultamento e da exumação.

Desenho que fiz dele no hospital, a caminho da partida

Desenho que fiz dele no hospital, a caminho da partida

Lembrei dos tantos corpos mortos que vi nos tempos em que trabalhei como repórter policial. Cadáveres recentes, apodrecidos, jovens, velhos, baleados, queimados, decapitados, intactos. Pensei no pouco que tudo isso me ensinou sobre a morte, pelo menos naquela época. Lembrei dos versos death metal de Augusto dos Anjos que eu curtia na adolescência, podreiras do tipo “Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos. / Roída toda de bichos, como os queijos…”, versos que agora eu achava… bom, adolescentes. E reparei que eu já não olhava para os efeitos da morte com o mesmo olhar mórbido de antes. Nos ossos e nas roupas que se desmanchavam, eu buscava enxergar o movimento do mundo, a dança que faz tudo se transformar. Nada vivendo para sempre e nada permanecendo morto. Morte e vida capoeirando um com o outro.

De volta ao velório, achei curioso conversar com tanta gente que descrevia meu pai como quieto, sério, caladão. Tímido é o que ele talvez fosse. Porque sempre vi meu pai como um gozador em tempo integral e um dos caras mais engraçados que conheci. Mas esse é um lado que ele devia guardar como um presente, distribuído de vez em quando, aqui e ali, entre os amigos mais próximos, esposa, filhos, netos, nora, genro. Gente privilegiada.

Ao contrário de mim, minha mãe permaneceu ao lado do caixão o tempo todo, do mesmo jeito que havia ficado ao lado dele no hospital. Foram duas semanas entre o diagnóstico de câncer terminal no pulmão e a última expiração que ele deu, segurando a mão dela, às 3 horas da madrugada do dia 26, no Hospital São Vicente. Rápido o bastante para que ele não sofresse tanto, e, imagino, lento o suficiente para que ele aceitasse a partida e fosse se desligando aos poucos (“não vou sarar”, ele confidenciou para um amigo, num momento em que a mente dele já vacilava entre a confusão e a lucidez, e a gente bobamente imaginava que ele ignorava o próprio diagnóstico). Se, para mim, pareceu mais fácil aceitar a partida de meu pai buscando me conectar com ele distante do seu corpo, olhando sol, céu e rio, para minha mãe o caminho foi o velar do caixão. E minha irmã, acho, misturou um pouco dos dois. Os jeitos de cada um para dar tchau.

Gente boa

Gente boa

Terminado o velório, ajudei a carregar o caixão levando um turbilhão em minha cabeça, como se caminhasse em transe, voando nos espaços siderais. Depois que os coveiros jogaram desajeitadamente o caixão no mausoléu, arrancando as alças para poder passa-lo através do buraco que haviam aberto, me aproximei e cantei sobre um jardim cheio de flores, dando a todos a cura e a paz.

Saí do cemitério me sentindo de vários jeitos. Aliviado. Cansado. Com saudade. Órfão. Talvez um pouco mais adulto. Agradecido. E feliz pelo meu pai. Por ter conhecido a paz com que ele viveu a vida, e por ter conseguido entrar em sintonia, por um momento, com o que (eu imagino) seja um pedaço pequenininho da paz que ele encontrou, longe da carne que desmancha e acaba virando barro embrulhado em saco azul.

Paz pequenina, enche minha vida. Obrigado, pai.