“A alma do filho da puta saindo”

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Lembro quando ele apareceu com o álbum de fotos. O ano devia ser 2002, talvez 2003. Era alta madrugada, disso tenha certeza, porque estava em meu horário de trabalho. Na época, eu trampava como repórter da madrugada do jornal Agora SP – função hoje extinta na maioria das redações. O trabalho consistia em rodar a cidade coletando histórias de crimes e me colocava em contato diário com policiais, bandidos, vítimas.

Eu e outros repórteres da madrugada estávamos em alguma delegacia do ABC, conversando com um grupo de policiais militares. Quando a entrevista chegou ao fim, o sargento foi até a viatura e voltou de lá trazendo seu pequeno tesouro para mostrar aos jornalistas. Era um álbum de fotografias, daquelas reveladas em uma hora nas lojas da Kodak, como se fazia antes da chegada da TecPix.

“Aqui estão todas as derrubadas”, anunciou. E passou a virar as páginas do álbum. Eram fotos de gente que ele havia matado. Homens caídos no chão, com furos de bala na pele, em meio a poças de sangue, uns com os olhos abertos, alguns prostrados, outros em posturas retorcidas pela dor. Quase todos negros. Negros como o policial que nos mostrava o álbum, com o orgulho do artesão que mostra o catálogo das suas peças mais bonitas.

“Olha esse aqui”, apontava, mostrando um risco de luz sobre a imagem de um cadáver, provocado por um reflexo na lente. “Dá até para ver a alma do filho da puta saindo.”

As coisas mudaram de lá para cá. O pequeno álbum da Kodak era um troféu para poucos olhos. Hoje, os policiais que se orgulham de provocar morte e dor (não estou falando dos que recorrem à força como último recurso e vêm a morte como exceção, seguindo o que determinam as leis e e as normas da corporação) podem mostrar seus troféus de sangue para o mundo todo, via internet.

“Vai demorar aí, caralho? É para morrer”, diz uma das vozes ouvidas no vídeo que registra a agonia de três homens baleados pela PM. Inicialmente postado numa página do Facebook de apoio à polícia paulista, o vídeo passou a ser conhecido pelo grande público após ser denunciado pelos repórteres Rafael Ribeiro, no Diário de S. Paulo, e, depois, por Laura Capriglione e André Caramante. Lembra o vídeo em que outro policial diz “estrebucha” também para um moribundo baleado. Lembra também o vídeo em que detentos filmam corpos decapitados em Pedrinhas, no Maranhão. Ou os vídeos em que o narcotráfico mexicano mostra rivais sendo executados. Ou, ainda, a decapitação do jornalista Daniel Pearl, filmada por terroristas paquistaneses em 2002.

Não há muita diferença no comportamento de policiais, criminosos e terroristas que de alguma forma participaram da produção desses filmes. Não importa o diretor, pertencem ao mesmo subgênero: uma espécie de pornô amador da violência, em que os autores se deliciam em provocar e filmar o sofrimento de um inimigo.

Algo me chamou a atenção lendo os comentários postados na página de apoio à polícia. Não havia nenhum relato acompanhando o vídeo do “é para morrer”. Não dava para saber, naquele momento, quem eram as pessoas que estavam morrendo, nem em que circunstâncias haviam sido baleadas. Mesmo assim, os comentários vibravam com a violência, dando parabéns e pedindo mais mortes. Aceitavam que eram “bandidos” e ponto. Os indivíduos não importam: quem são, suas histórias de vida, os fatos que o levaram até ali. Basta enquadrá-la no rótulo de “bandido” ou “vagabundo” que deixam de ser gente. Passam a ser apenas alguém que merece o ódio.

Seja o policial com seu álbum da Kodak, sejam os autores do mais novo snuff movie de abuso policial, sejam os apoiadores dessa violência, todos parecem ter eleito um grupo a quem podem odiar sem restrições. Contra esse inimigo, vale tudo. Não há sofrimento que seja demais, não há morte que seja ilegítima. Eu posso até gozar ao ver esse sofrimento. O mesmo gozo de qualquer assassino, de qualquer torturador, de qualquer estuprador. Ma, ah!, eu não sou nada disso. Eu sou cidadão de bem. Mesmo quando apoio, desejo ou pratico o mal.

Dizem que ela existe pra proteger

Reportagem que fiz para a Revista Adusp número 53, capitaneada pelo parceiro Pedro Pomar, que discute o papel da Polícia Militar. Histórias tristes de morte e opressão, histórias bonitas de resistência e compaixão.

Daniel teve o filho assassinado pela PM (foto Sônia Pinheiro)

“A notícia é a pior possível”, disse o chefe dos enfermeiros. Ao entrar no Hospital Regional de Osasco, o eletricista Daniel Eustáquio de Oliveira, 50 anos, sabia apenas que seu filho, César Dias de Oliveira, 20 anos, havia sido baleado quando voltava para casa dirigindo a motocicleta que comprara dez dias antes. Assim que ouviu as palavras do enfermeiro, porém, Daniel entendeu tudo. “Meu filho está morto”, disse. “Está”, confirmou o enfermeiro. Daniel começou a chorar. “Mas como?”, perguntou. “Cinco tiros”, foi a resposta. “Esses ladrões sem vergonha, além de tentar roubar meu filho, ainda mataram ele com cinco tiros”, desabafou. O enfermeiro o corrigiu: “Foi a polícia que matou seu filho”. Daniel parou de chorar na hora. Na saída, olhou para o grupo fardado de policiais militares na entrada do hospital e fez uma promessa: “Eu vou provar que vocês mataram um inocente”.

No dia 1º de julho, o filho de Daniel e o amigo dele, Ricardo Tavares da Silva, também de 20 anos, que estava na garupa da moto, entraram para a lista de 182 pessoas mortas pela Polícia Militar na cidade de São Paulo nos sete primeiros meses do ano, período em que a Secretaria da Segurança Pública registrou um total de 907 homicídios. Os números mostram que, a cada cinco pessoas assassinadas no município, uma foi vítima da polícia. Denúncias de abusos envolveram várias destas mortes, entre elas a do publicitário Ricardo Prudente de Aquino, baleado após fugir de uma abordagem policial, em 19 de julho. Três PMs foram presos pelo crime, que teve mais repercussão na mídia do que todos os demais, por envolver uma vítima que fugia ao padrão habitual de jovens negros e pobres da periferia.

Na mesma época em que Daniel, os dois Ricardos e tantos outros eram mortos, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovava a recomendação de abolir a Polícia Militar como forma de combater a violência do Estado brasileiro. Foi em 30 de maio, quando o Brasil passou pela Revisão Periódica Universal do Conselho, uma espécie de prova à qual todos os países são submetidos. Na ocasião, o governo da Dinamarca sugeriu “abolir o sistema separado de polícia militar” com o objetivo de “reduzir a incidência de execuções extrajudiciais pela polícia”.
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Crime capital

Ao meio-dia, num matagal próximo ao Centro Olímpico da Universidade de Brasília (UnB), um dos policiais, Antônio Morais de Medeiros, resolveu sentar-se e rezar. Sua oração foi interrompida pela chegada de um rato, que passou por ele e entrou em uma toca que parecia ter sido mexida há pouco. Com um pedaço de pau, o agente revolveu a terra e encontrou Ana Lídia Braga: nua e morta, enterrada em uma vala rasa do cerrado brasiliense, a mil metros da Praça dos Três Poderes.

Os peritos calcularam que a criança havia sido assassinada de madrugada, por asfixia, entre 4h e 6h daquele 12 de setembro de 1973. Os cabelos haviam sido cortados de forma irregular, a pele estava coberta por hematomas e escoriações e os ferimentos nas partes íntimas indicavam que ela havia sido estuprada depois de morta.

Ali, junto ao corpo de Ana Lídia, ao lado de duas camisinhas usadas e das mechas de cabelo misturadas com a terra, morria o sonho de uma Brasília ideal. Uma Brasília que ainda se via como uma jovem capital modelada com as curvas da utopia de Oscar Niemeyer, um sonho de modernidade construído por brasileiros de todos os lugares — ainda que as ações de expulsão da gente pobre do Plano Piloto para as novas cidades-satélites já dessem mostras de que a nova metrópole não seria assim tão diferente das outras.

Para Joelma Rodrigues da Silva, doutora em história pela UnB, o sequestro, estupro e morte de Ana Lídia significou “uma outra inauguração de Brasília”, que mudou o significado da capital para os seus habitantes, destruindo as ilusões de uma cidade melhor do que as outras. “Brasília não era mais um lugar para começos, não era o lugar do futuro, era um lugar como outro qualquer, com os mesmos demônios, os mesmos perigos, os mesmos riscos. O estupro-assassinato inaugura uma cidade onde também se eliminam inocentes”, afirma.

Trecho da reportagem que escrevi para a Revista Joyce Pascowitch de junho, sobre Ana Lídia, menina de sete anos morta e estuprada nos primeiros anos de Brasília, num crime que destruiu as ilusões que a capital tinha de si mesma. Uma história muito triste.

O coração destroçado pelas mesquinharias

Luís Antonio

O telefone do apartamento tocou. Do outro lado da linha, a 700 quilômetros do corpo estraçalhado de Luís, estava seu irmão, José Celso Martinez Corrêa. Esperava Luís para a ceia de Natal, ao lado das duas irmãs e da mãe, na casa da família, em Araraquara, no interior de São Paulo. “Seu irmão foi assassinado”, informou o policial ao telefone. “O Luís foi assassinado”, repetiu José para a família reunida em volta da mesa posta para a ceia. Zé Celso tinha 50 anos, treze a mais do que Luís. À frente do Teatro Oficina, já havia sido atacado no palco por caçadores de comunistas, preso pela ditadura, torturado e exilado. Mas foi naquela noite de Natal que Zé Celso conheceu a tragédia.

A história da morte do irmão de Zé Celso, Luís Antonio Martinez Corrêa, um crime que mudou a maneira como os crimes contra homossexuais passaram a ser vistos pela opinião pública, está na reportagem que fiz para a Revista Joyce Pascowitch que acaba de chegar às bancas.

Obrigado, Flavia, pela indicação. Obrigado, Vanessa e André, pela edição caprichada. Obrigado, Carol, Clayton, Gio e Roxo, pela ajuda.

Zé e Luís: evoé!