Ponte

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Tem coisas que a gente aprende a aceitar que são do jeito que são, que sempre foram assim e não serão diferentes.

Tipo.

“Fausto, checa essa história de dois caras que foram mortos lá no Parque Trianon. Se forem garotos de programa, faz uma nota por telefone, mesmo. Se for alguém de classe média, aí vale a pena ir até o local e fazer matéria. Pode até ser manchete.”

Eu era um moleque de 22 anos, recém-formado em Jornalismo, quando ouvi essa ordem, dita por um chefe do antigo Jornal da Tarde. Fiquei chocado. Eu me chocava com as coisas na época. Até me indignava, acreditava? É que eu era um moleque, com muito menos pêlo no rosto e barriga no abdome do que tenho hoje. E um monte de sonhos ainda intactos no peito.

Era a primeira vez que ouvia algo assim. Com o tempo, ouviria muitas outras. Anos depois, como repórter de madrugada no Agora SP, trampando enquanto meus chefes dormiam, precisava decidir em quais histórias valia a pena investir e quais era melhor deixar de lado. No dia seguinte, eu seria cobrado se tivesse corrido atrás da história errada. Na base da tentativa e erro, do esculacho e do esporro, fui aprendendo.

Aprendi que, mesmo num jornal que se diz “popular”, as histórias envolvendo gente pobre e negra, desenroladas nas quebradas mais distantes do centro, só enchiam as páginas se o dia estivesse muito fraco, e mesmo assim não repercutiam nas edições seguintes. Histórias quentes vinham de delegacias como o 78º DP, nos Jardins, do 15º, no Itaim Bibi, ou do 34º, no Morumbi (se bem que nesse era bom tomar cuidado porque a região também tinha muitas favelas, onde morte e vida não importam tanto para os jornalistas). Delegacias como o 47º DP, no Capão Redondo, ou o 25º DP, em Parelheiros, eram uma roubada: longes e cheias de histórias que rendiam pouco, porque aconteciam com gente que não valia tanto.

Logo, eu mesmo já tinha aprendido a fazer as perguntas certas para avaliar uma pauta.

“Esse cara que foi morto tinha qual profissão, você sabe?”

“Em que bairro isso aconteceu?”

Ou, sendo mais direto:

“Tem ideia da classe social dos envolvidos?”

Afinal, se era assim que as coisas eram, sempre foram e sempre serão, não adiantava fazer diferente.

Acho que em poucas áreas do jornalismo as barreiras entre as classes se mostram com tanta evidência como na cobertura policial – talvez só nas matérias de comportamento a opção por privilegiar a classe média branca seja tão ostensiva. A justificativa vem travestida de argumento comercial. Dizem que nem mesmo os pobres gastam dinheiro em jornal para ver outros pobres como eles. Que pobres e ricos, negros e brancos, preferem ver os dramas de ricos e brancos. Durante anos, o mesmo argumento foi usado para afastar os negros da publicidade e das capas de revista. Essa noção é tratada como uma verdade evidente por si mesma – embora nunca tenha sido testada, já que ninguém faz diferente.

E não só os jornalistas agem desse jeito. O poder público segue a mesma lógica, até porque pauta e é pautado pelo noticiário. A polícia brasileira, com sua estrutura ineficiente de divisão em Civil e Militar, só tem condições de investigar uma fração dos crimes que chegam até ela. Que critério ela vai usar nessa peneira? Ir atrás dos casos que geram mais repercussão na mídia é um deles. Agradar a pessoas influentes é outro. É só comparar a estrutura mobilizada pela polícia para investigar os casos envolvendo gente branca e bonita do centro expandido, como o casal Nardoni ou Suzane von Richtofen, que envolveu equipes enormes e recursos de seriado americano, com os inquéritos envolvendo gente da periferia, que muitas vezes se arrastam por meses sem fazer o trabalho mínimo de ouvir as testemunhas arroladas nos boletins de ocorrência.

Quando quer promover um policial, o governo o leva para os DPs nobres; ir trabalhar nas delegacias e nos batalhões da periferia é considerado uma punição e um exílio. Tanto para o governo como para os jornalistas, a vida além do centro expandido vale menos.

Como ia dizendo, com o tempo a gente aprende a aceitar que as coisas são como são e deixar de lado a rebeldia. Faz parte do processo de amadurecimento. E, se tem uma lição que o jornalismo ensina com propriedade, é a do conformismo. Creio que poucos ambientes conseguem ser mais autoritários do que uma redação de jornal. Os profissionais muitas vezes trabalham à margem da lei, aceitando condições de trabalho que provocariam uma greve se fossem impostas a operários de uma fábrica. São contratados ilegalmente, obrigando a abrir empresas para burlar a CLT, e vivem trabalhando de graça, entregando às empresas centenas de horas extras que nunca serão pagas. Demissões coletivas, chamadas passaralhos, fazem parte da rotina, e ninguém as contesta. Ordens vindas das castas superiores dos editores são tratadas como decretos divinos e discuti-las é visto como heresia.

Os repórteres, seres da redação que estão em contato mais próximo com a realidade, são os que recebem menos, tanto em grana como em prestígio, já que a realidade não importa. O que importa é o que a chefia diz que é a realidade. E não adianta discutir. As coisas são o que são. Aceitar é bom. Abaixar a cabeça significa matar o moleque rebelde dentro de você e amadurecer. E, uma vez maduro, só falta se deixar apodrecer e morrer.

O engraçado é que tem sempre uma galera com outro jeito de enxergar. Até veem as coisas como são, mas preferem olhar para como elas podem ser. E, hoje, com as novas tecnologias, nunca houve tantas ferramentas para gente desse tipo fazer as coisas do seu jeito.

Conheci uma galera que é assim, e nada me deixa mais feliz do que estar no meio desse povo e do projeto que estamos criando junto, a Ponte. Aqui, tem gente como Laura Capriglione e Bruno Paes Manso, que eu já lia antes de pisar pela primeira vez numa redação, e que me faziam pensar “um dia, quero escrever histórias que nem eles”. Tem o pessoal mais novo, feito o Padu e o Luís Adorno, que trazem jeitos novos de olhar para o que a gente achava que já conhecia. Tem André Caramante, que há anos me dá várias aulas de jornalismo só por vê-lo trabalhando, e William Cardoso, amigo de fé e irmão camarada, sangue de contador de histórias correndo pelas veias. Tem os amigos novos: Carol Trevisan, Caio Palazzo, Claudia Belfort, Gabriel Uchida, Joana Brasileiro, Rafael Bonifácio, Tati Merlino. Tem o Milton Bellintani, outro mestre. Tem Marina Amaral e Natália Viana, que, com a Agência Pública, provaram que as coisas no jornalismo não precisam ser como são.

Todos juntos, sem chefes, e ainda com pouca grana, estamos aprendendo a fazer jornalismo sem pensar no que ele é, mas no que a gente acredita que pode ser. Um jornalismo que olhe para as pessoas, antes de mais nada, como gente. Lembrando uma verdade tão simples: que gente é gente, não importa a cor, a grana, como trepa ou o que faça.

Não temos lados. Não somos ativistas, somos jornalistas. O caminho que escolhemos é o da reportagem, porque é o que sabemos fazer. Tudo o que queremos é ir à rua e contar o que vimos lá. Coisas que fazem a gente se indignar, chorar, rir, berrar. Escolhemos a Ponte porque a gente não gosta de olhar para territórios e fronteiras. Preferimos as possibilidades.

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“A alma do filho da puta saindo”

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Lembro quando ele apareceu com o álbum de fotos. O ano devia ser 2002, talvez 2003. Era alta madrugada, disso tenha certeza, porque estava em meu horário de trabalho. Na época, eu trampava como repórter da madrugada do jornal Agora SP – função hoje extinta na maioria das redações. O trabalho consistia em rodar a cidade coletando histórias de crimes e me colocava em contato diário com policiais, bandidos, vítimas.

Eu e outros repórteres da madrugada estávamos em alguma delegacia do ABC, conversando com um grupo de policiais militares. Quando a entrevista chegou ao fim, o sargento foi até a viatura e voltou de lá trazendo seu pequeno tesouro para mostrar aos jornalistas. Era um álbum de fotografias, daquelas reveladas em uma hora nas lojas da Kodak, como se fazia antes da chegada da TecPix.

“Aqui estão todas as derrubadas”, anunciou. E passou a virar as páginas do álbum. Eram fotos de gente que ele havia matado. Homens caídos no chão, com furos de bala na pele, em meio a poças de sangue, uns com os olhos abertos, alguns prostrados, outros em posturas retorcidas pela dor. Quase todos negros. Negros como o policial que nos mostrava o álbum, com o orgulho do artesão que mostra o catálogo das suas peças mais bonitas.

“Olha esse aqui”, apontava, mostrando um risco de luz sobre a imagem de um cadáver, provocado por um reflexo na lente. “Dá até para ver a alma do filho da puta saindo.”

As coisas mudaram de lá para cá. O pequeno álbum da Kodak era um troféu para poucos olhos. Hoje, os policiais que se orgulham de provocar morte e dor (não estou falando dos que recorrem à força como último recurso e vêm a morte como exceção, seguindo o que determinam as leis e e as normas da corporação) podem mostrar seus troféus de sangue para o mundo todo, via internet.

“Vai demorar aí, caralho? É para morrer”, diz uma das vozes ouvidas no vídeo que registra a agonia de três homens baleados pela PM. Inicialmente postado numa página do Facebook de apoio à polícia paulista, o vídeo passou a ser conhecido pelo grande público após ser denunciado pelos repórteres Rafael Ribeiro, no Diário de S. Paulo, e, depois, por Laura Capriglione e André Caramante. Lembra o vídeo em que outro policial diz “estrebucha” também para um moribundo baleado. Lembra também o vídeo em que detentos filmam corpos decapitados em Pedrinhas, no Maranhão. Ou os vídeos em que o narcotráfico mexicano mostra rivais sendo executados. Ou, ainda, a decapitação do jornalista Daniel Pearl, filmada por terroristas paquistaneses em 2002.

Não há muita diferença no comportamento de policiais, criminosos e terroristas que de alguma forma participaram da produção desses filmes. Não importa o diretor, pertencem ao mesmo subgênero: uma espécie de pornô amador da violência, em que os autores se deliciam em provocar e filmar o sofrimento de um inimigo.

Algo me chamou a atenção lendo os comentários postados na página de apoio à polícia. Não havia nenhum relato acompanhando o vídeo do “é para morrer”. Não dava para saber, naquele momento, quem eram as pessoas que estavam morrendo, nem em que circunstâncias haviam sido baleadas. Mesmo assim, os comentários vibravam com a violência, dando parabéns e pedindo mais mortes. Aceitavam que eram “bandidos” e ponto. Os indivíduos não importam: quem são, suas histórias de vida, os fatos que o levaram até ali. Basta enquadrá-la no rótulo de “bandido” ou “vagabundo” que deixam de ser gente. Passam a ser apenas alguém que merece o ódio.

Seja o policial com seu álbum da Kodak, sejam os autores do mais novo snuff movie de abuso policial, sejam os apoiadores dessa violência, todos parecem ter eleito um grupo a quem podem odiar sem restrições. Contra esse inimigo, vale tudo. Não há sofrimento que seja demais, não há morte que seja ilegítima. Eu posso até gozar ao ver esse sofrimento. O mesmo gozo de qualquer assassino, de qualquer torturador, de qualquer estuprador. Ma, ah!, eu não sou nada disso. Eu sou cidadão de bem. Mesmo quando apoio, desejo ou pratico o mal.

As outras vítimas

Virgilio Roveda

Virgílio Roveda, personagem do livro “O Coringa do Cinema”, de Matheus Trunk

Um Estado autoritário tortura e mata seus inimigos. E quem são eles? Podem ser qualquer um.

A gente sabe que a ditadura militar de 1964-1985 tinha os seus alvos preferenciais: sindicalistas, camponeses, militantes de esquerda, movimentos sociais, professores, estudantes. Mas não eram só eles — e isso é o que vejo de mais assustador nas ditaduras. Quando o Estado se presenteia com o direito de torturar e matar quem quiser, todo mundo passa a ser visto como um inimigo em potencial das autoridades, sempre a um passo de ser perseguido pelos motivos mais estúpidos.

Gente como Virgílio Roveda, o Gaúcho, e Roberto Leme, dois operários do cinema da Boca do Lixo sem histórico de atuação política ou militância sindical. Quem poderia imaginar que eles seriam presos e torturados apenas por alugar o apartamento que havia pertencido a um estudante da USP suspeito de atuação “subversiva”, e que, no DOI-Codi, seriam acusados de terrorismo por terem trabalhado nos filmes de terror do Zé do Caixão? Isso aconteceu no segundo semestre de 1973 e é uma das várias histórias contadas num livro muito bacana, O Coringa do Cinema, que o jornalista, historiador e meu amigo Matheus Trunk acaba de lançar pela editora Giostri.

Aqui embaixo, segue um trecho do livro que relata as violências praticadas contra os dois técnicos, e que marcaram ambos, especialmente Roberto,  para o resto da vida. Lendo o relato de Matheus, eu fico imaginando se não existe uma multidão de pessoas vitimadas pela ditadura que vem passando despercebida pelos radares dos historiadores e das comissões da verdade, simplesmente porque não faziam parte do grupo de “suspeitos de sempre” que o regime perseguia com regularidade.

Gaúcho e o montador Roberto Leme, o Robertinho, foram levados do apartamento por duas viaturas. Ficaram duas semanas detidos nas dependências do temido DOI-Codi, localizado na mesma rua Tutóia. As lembranças são as piores possíveis. “É um pavor total. Você não tinha noção de mais nada: tempo, futuro. Você só ouve gritos, gemidos. É terrível”.
Nos interrogatórios, davam um pedaço de papel e uma caneta. A ideia era que Gaúcho deveria colocar o nome de pessoas que estivessem colaborando com os movimentos esquerdistas. Mas o técnico não conhecia ninguém que estivesse engajado na luta armada. “Eu ia colocar o nome de quem? Mazzaropi? Mojica? David Cardoso?”.
(…)
As sessões de tortura resultaram em danos irreversíveis tanto em Roveda como no colega Roberto Leme. O diretor de fotografia sulista sofre uma deficiência no ouvido até hoje. Já o montador Roberto Leme tinha alucinações e ficou com mania de perseguição até falecer, nos anos 90. Passadas duas semanas, os militares perceberam que os dois técnicos não eram pessoas ligadas à militância política. “Nesse momento, eles passaram a chamar a gente de merda. O pior é que durante os interrogatórios, eles passaram a me acusar de ser terrorista porque eu trabalhei em filmes de terror com o Mojica. Dá pra acreditar nisso?”.
Virgílio Roveda é uma pessoa que viveu os dois lados da Ditadura. Em 1964, Gaúcho era soldado da 11º Delegacia do Serviço Militar, em Vacaria. Sua companhia foi a última do Brasil a se render ao golpe daquele ano. Ele lembra que seu quartel prendeu colonos que estavam organizando uma cooperativa no Rio Grande do Sul. “Foi algo nojento. Prendíamos pessoas inocentes que não sabiam nada sobre política. Se você fosse barbudo, era tido como comunista. Se tivesse organizando uma cooperativa de trabalhadores também”.

Histórias assim só poderiam vir à luz pelas mãos de um cara como Matheus Trunk, um historiador que sabe que a Muralha da China foi construída pelos seus pedreiros. Matheus é um cinéfilo de coração enorme, onde cabe todos os responsáveis pela feitura dos filmes, não só a aristocracia dos diretores e atores. Nas suas pesquisas, Matheus inclui todos os profissionais envolvidos nessa coisa maluca e coletiva que é o cinema, com um olhar especial para os nomes que só aparecem nos créditos finais.

Com um olhar desses, é natural que Matheus seja um apaixonado pela Boca do Lixo, o movimento do cinema paulista que, nos anos 70 e 80, democratizou como poucas vezes a arte audiovisual. Uma época em que caminhoneiros e taxistas podiam se tornar cineastas e fazer filmes para espectadores parecidos com eles, que lotavam as salas aos milhões.

Quem acha toscos os filmes daquela época precisa lembrar que a Boca produziu cinema de verdade. Acontece que fazer cinema não é só filmar, como fazer literatura não é só escrever livros (já dizia Antônio Cândido): a arte só existe se houver um público. E público os produtos da Boca sempre tiveram.

Violências

Não acredito em violência do opressor X violência do oprimido. Violência é opressão. No momento de uma agressão, quem pratica violência é opressor e quem sofre é oprimido. Não importa quem usa farda, quem é branco, quem é negro, quem é homem ou mulher, gay ou hétero. Não importa o que aconteceu antes ou acontecerá depois. Motivos, ideais e causas não justificam a violência, simplesmente porque a violência não precisa de nada disso. Violência é fogo, e fogo não precisa de justificativas para queimar. Ele simplesmente queima. Lutar contra a opressão significa lutar contra toda forma de violência.

“Chega de Amarildos. Desmilitarização já”

Protesto no Parque da Juventude pede a desmilitarização da polícia (foto de Marcelo Camargo/ABr)

Protesto no Parque da Juventude pede a desmilitarização da polícia (foto de Marcelo Camargo/ABr)

“Adalberto Oliveira dos Santos”

“Presente!”

“Adão Luiz Ferreira de Aquino”

“Presente!”

Gritar presente! em memória dos companheiros mortos é uma tradição da militância política. Mas não pertenciam a guerrilheiros ou revolucionários os nomes que aquele grupo de umas cinquenta pessoas recitava na tarde gelada de sábado, dia 5, no Parque da Juventude. Eram todos nomes de vítimas: 111 presos, a maioria sem condenação formal, gente que queria apenas continuar a viver mais alguns anos neste planeta, respirando, amando, errando e acertando como todos nós. Direito que perderam em 2 de outubro de 1992, pelas balas e pelos cães da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Os nomes foram homenageados um a um, por gente de movimentos como Mães de Maio, Rede 2 de Outubro, Coletivo Desentorpecendo a Razão, Movimento Organizado Moinho Vivo, e outros e mais outros, todos pisando o gramado ralo do parque, que até hoje para não ter conseguido força para vicejar direito naquele chão que recebeu tanto sangue dos tempos em que ali funcionou a Casa de Detenção do Carandiru. Organizado para fechar a Semana Contra a Democracia dos Massacres, promovido pelos coletivos, o protesto de sábado mantinha um olho nos 21 anos do massacre do Carandiru e outro nos massacres que as Polícias Militares continuam a praticar todos os dias.

Entre as vítimas destes massacres, pessoas como o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, pai de seis filhos, que, segundo inquérito da Polícia Civil, foi morto sob tortura pelos PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha. Sobrinha de Amarildo, Michelle Lacerda também pisou a grama rala do Parque da Juventude naquele dia. E falou:

“Não é possível que a gente pague, com o nosso suor, o salário de pessoas para entrar em nossas casas, nos tirar de lá, e matar e torturar. Acima de tudo, nós nossos seres humanos. Temos coração. Coração que, se machucar, dói, e, se doer, nós temos que gritar. Essa é a mensagem que a minha família passa. Está machucado, nós estamos gritando, sim, e não vamos parar de gritar. E hoje o grito do meu Amarildo é o grito de todos os Amarildos que já foram.Chega de Amarildos!”

E Michelle disse mais:

“Todo dia o meu tio chegava na porta da minha casa, me mandava beijo e me chamava pelo nome. Eu não escuto mais esse beijo, não tenho mais aquele abraço caloroso, e eu não desejo isso para ninguém. Para a gente, é juntar as energias, juntar as forças, é juntar os gritos e gritar todo mundo: basta! Nem um passo atrás jamais. Desmilitarização já!”

Diz o manifesto distribuído pelos movimentos:

Esse mesmo Estado, que deveria garantir nossos direitos, vem implementando uma verdadeira ‘democracia dos massacres’ onde os principais executores são aqueles que deveriam nos ouvir e proteger, ou seja, a Polícia Militar. Além do medo e da insegurança, o que ganhamos com isso? Não esqueceremos nem nos calaremos diante do Massacre do Carandiru, nem da ação truculenta e desumana no Pinheirinho. Não nos esqueceremos dos milhares de Amarildos, nem dos tantos Ricardos. Não nos cegaremos diante da violência policial nas manifestações sociais, ou do genocídio secular dos povos indígenas, sem medo dos inúmeros massacres que o Estado brasileiro promove. Desmilitarizar a polícia é urgente — nossa luta tá só no começo Quem fecha com a gente?”

Danilo Dara, das Mães de Maio, lembrou que a luta não é apenas pela desmilitarização das polícias. “Gritamos contra todos os dispositivos que reproduzem a lógica penal-militar, tanto na polícia como no Judiciário, na política, na imprensa.”

Enquanto ele falava, dois homens que se diziam jornalistas, mas sem mencionar a que veículo pertenciam, sem tomar notas e sem entrevistar ninguém, fotografavam e filmavam todos os participantes do protesto.

Um tanque de guerra dentro do quarto

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Para os cypherpunks, vivemos em um Big Brother mundial sem paredão e sem prêmio. As ações de cada pessoa são espionadas e registradas em enormes depósitos ultrassecretos, graças a uma parceria entre a agência de espionagem norte-americana, a NSA (National Agency Security), e empresas como Google, Facebook, Microsoft e Apple, proprietárias dos sites e dos aparelhos que enchemos diariamente com todos os detalhes possíveis a respeito de nossas vidas. Quando nos comunicamos pela internet ou por telefonia celular, que agora está imbuída na internet, nossas trocas são interceptadas por organizações militares de inteligência. “É como ter um tanque de guerra dentro do quarto”, exagera Assange. A espionagem por parte das autoridades não é feita sobre alvos determinados, como rebeldes, terroristas ou suspeitos de crimes. A tecnologia tornou possível a “interceptação estratégica”, que, por padrão, grava e armazena automaticamente os dados de todas as pessoas que falam ao telefone ou acessam a internet, “porque nunca se sabe quando alguém é suspeito”.

Como evitar que a internet se torne uma ferramenta de opressão é o tema da matéria Pelo direito de fechar a porta do banheiro, que escrevi para a Galileu. A matéria saiu com ilustrações estilosas de Cris Vector. Vale a pena sair da internet e ir para uma banca atrás da revista, que tem boas matérias, como a reportagem de capa, sobre agrotóxicos, o dossiê O segredo da felicidade e um perfil de Chris Ware.

Obrigado, Tiago Mali, que me fez o convite de voltar a escrever para a revista. Obrigado, Alexandre Matias e Rafael Tonon, pela edição e paciência. Obrigado a todos os entrevistados: Jacob Appelbaum, Anahuac de Paula Gil e Alexandre Oliva, que me deu de bandeja o título da matéria. E obrigado, Tiago Soares, pelo tesouro das boas dicas.

“O Esquadrão da Morte está nos levando”

Memorial erguido no Cemitério de Perus (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Memorial erguido no Cemitério de Perus (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Dizem que a ditadura acabou:

Uma das principais “heranças malditas” da ditadura, segundo o relatório da Comissão Municipal, foi deixada na polícia: “a cultura da violência e a aceitação natural da tortura como método de investigação, numa confusão ontológica entre polícia e segurança pública eficazes com o emprego irrefreado da violência e da tortura”.

A política de extermínio do Estado durante o regime miliar foi muito além dos opositores ao regime. Presos políticos que passaram pelo Presídio Tiradentes contam que costumavam acordar de madrugada com os gritos dos presos comuns prestes a serem assassinados pela polícia. “Eles eram tirados de lá gritando: ‘Políticos, políticos, socorro! O Esquadrão da Morte está nos levando’. Os membros do Esquadrão da Morte eram os mesmos que nos torturavam”, contou o militante Clóvis de Castro à Comissão Municipal da Verdade. Comandado por Sérgio Fleury, o Esquadrão da Morte era uma espécie de avô das atuais milícias: um grupo paramilitar formado por policiais que executavam suspeitos de crimes comuns.

A ditadura aumentou a presença militar nas forças de segurança, dando mais poderes às polícias militares e pondo-as sob o guarda-chuva do Ministério do Exército. Em 1969, um decreto-lei do governo federal tirou das ruas as Guardas Civis, substituindo-as pelos policiais militares. As Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) surgiram no ano seguinte, com a missão de executar “ações de controle de distúrbios civis e de contraguerrilha urbana”.

O fim do regime militar não modificou a estrutura de policiamento, nem impediu que a Polícia Militar (PM) se envolvesse em uma série de chacinas que marcariam os anos da redemocratização, como os 111 mortos na Casa de Detenção, no Carandiru, em 1992, e os 21 mortos na comunidade de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, em 1993, além das dezenas de mortes atribuídas a grupos de extermínio como “Os Matadores do 18”, que atuariam na zona norte de São Paulo, e os “Highlanders”, na zona sul.

O maior dos massacres ocorreu em maio de 2006, quando o Estado comandou uma suposta reação aos ataques do crime organizado, que haviam matado 43 agentes públicos. A ação da polícia e de grupos de extermínio encapuzados multiplicou o número de vítimas, que em nove dias chegou a 493 mortos (mais do que a ditadura conseguiu eliminar em duas décadas). “Isso tudo é herança da ditadura”, afirma a jornalista Rose Nogueira, que, como presidente do Condepe, ajudou a montar uma comissão independente que analisou os homicídios de maio de 2006. Para ela, aqueles crimes repetiram o procedimento adotado décadas antes pela repressão política. “Os carrascos da ditadura diziam que, para cada agente do Estado que fosse morto, matariam outras dez pessoas”, conta Rose, que conheceu as torturas do regime autoritário atrás das grades do Dops.

Trecho da reportagem Em busca da verdade, que escrevi para a revista Apartes, da Câmara Municipal, com a coordenação da Maria Isabel e do Sândor e a ajuda dos parceiros Rogério, Gisele, Lívia, Leandro e Elton. Dá para ler o texto aqui.

“Arrá, urru, a Paulista é nossa”

Paulista livre

Gente na Paulista. Sem carro, sem ônibus. Gente para todos os lados. Dançando, pulando, cantando. Gente deitando no meio da avenida. Sentindo embaixo das costas o asfalto quase virgem do contato com gente. Gente olhando a meia-lua crescente lá no céu, velando por nós. Gente gritando: o povo unido é gente pra caralho.

Gente. Gente pra caralho.

Foi muito bom estar na rua ontem em São Paulo. Tinha um clima de Virada Cultural. Aquele gosto de tomar conta da cidade. Em vez de se enclausurar em Alcatrazes de ouro, na forma de carros, apartamentos, shoppings ou barzinhos (aqueles minúsculos espaços que compramos para nos isolar dos outros), a gente descobre que pode ser feliz na rua, o lugar de todos, compartilhando espaço com outras pessoas.

Um dos grandes feitos que o Movimento Passe Livre obteve foi conseguir mudar, do dia para a noite, a opinião que tantos tinham a respeito disso de andar a pé pelas ruas, tomando o lugar dos carros em nome de uma boa causa. Durante anos, e até quarta-feira da semana passada, os veículos da tal grande mídia tinham um roteiro bem amarradinho para cobrir passeatas, greves e tudo o que envolvesse gente lutando por direitos: restringir o debate sobre as motivações dos movimentos e ampliar tudo o que produzissem de ruim, especialmente se cometessem o imenso pecado de atrapalhar a circulação dos automóveis.

Voltaram a seguir o mesmo roteiro com o Passe Livre. Globo, Folha, Estadão, Record: lá foram eles pintar os protestos como quebra-quebra de baderneiros, que atrapalham o trânsito, o progresso, a economia, a Copa do Mundo, a nação. Vândalos querendo ocupar a Paulista, imagine só, esse templo dos carros! Então, a mídia fez como costuma fazer com trabalhadores sem-terra, sem-teto, povos indígenas, professores. Como fez com Pinheirinho, ou com as ocupações das reitorias da USP ou da PUC. A mídia fez seu trabalho de sempre, dando à polícia o álibi para agir com a violência habitual.

Algo saiu do script dessa vez, e a reação nas redes sociais contra a repressão do Estado foi tamanha que levou todo mundo a mudar de lado em questão de dias. A grande mídia parece menor do que nunca agora. Ficou pequenininha diante do mundo real que a atropelou — sem carro.

É muito engraçado ver Arnaldo Jabor, Datena e Luiz Felipe Pondé defendendo a legitimidade dos protestos. É engraçado ver os jornais condenando hoje a violência que defenderam ontem. E não acho que seja ruim. Não é bom ver pessoas mudando de ideia e passando a defender causas bacanas?

Vai ser bem mais difícil para a tal grande mídia, daqui para a frente, retratar o protesto de um índio em Belo Monte ou de um sem-teto no centro de São Paulo como coisa de bandido.  Ela vai tentar, é claro. Mas vai ter muito mais trabalho.  Até porque ninguém acredita mais nela.

Tem cada vez mais pessoas acreditando em si mesmas. Apoiadas em seus pés, caminhando firme sobre as ruas.

O monstro da janela

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Vi da janela do prédio. Tá, eu sei: jornalista que se preza é o que não perde a chance de tirar a bunda da cadeira e correr até o chão dos fatos. Mas eu estava com minhas filhas, brincando de fazer sombras com velas acesas e luzes apagadas. Além do mais, não tinha nenhum empregador me pagando para fugir de balas de borracha e respirar pimenta. Então, quando ouvi o barulho das bombas, fui para a varanda e fiquei vendo de lá o que rolava nas imediações da Praça Roosevelt. E o que vi foi uma multidão tomando conta da praça e das ruas e gritando sem parar:

“Sem violência! Sem violência!”

Na janela ao lado, apareceu a cabeça de Lívia, a vizinha:

“Um monte de gente indo para rua para pedir transporte público melhor. É lindo isso, gente.”

Dali a pouco, vimos as pessoas correndo. Estouros. O cheiro de gás lacrimogêneo chegando até o sétimo andar. Policiais jogavam bombas em grupos que estavam na rua, e que não estavam fazendo nada além de… estar na rua. Gente na rua. Por que será que isso incomoda tanto?

Ao meu lado, Vitória vibrava pelos manifestantes e xingava os policiais. Ela é skatista e faz seus ollies na praça Roosevelt, então já aprendeu que a violência do Estado volta e meia é usada para perseguir uns crimes esquisitos. Como andar de skate. Ou estar na rua. Ou portar vinagre, como a gente ficaria sabendo depois.

Abraçada a minhas pernas, vendo tudo com seus olhões azuis, Ohana fez uma pergunta:

“Por que a polícia joga bomba nas pessoas?”

Pergunta difícil. Pergunta essencial. Daquelas que meninas de sete anos gostam de fazer. E que os adultos, ah, esses adultos cheios de pose, não sabem responder.

Se eu fosse editorialista da Folha ou do Estadão, poderia responder que a polícia precisava agir com o máximo de rigor para conter os manifestantes do Passe Livre, todos baderneiros que gostavam de quebrar coisas. Mas ela estava vendo as pessoas apanhando na rua depois de gritar “sem violência, sem violência”. Não ia colar.

Podia dizer que a polícia estava garantindo o direito de ir e vir dos cidadãos. Que os manifestantes faziam uma coisa muito feia, que era parar o trânsito de São Paulo, impedindo os papais de chegarem em casa para ver suas filhas. Como a Ohana não sabe que o maior índice de lentidão da semana ocorreu no Dia dos Namorados, quando não houve protestos, talvez ela se convencesse. Talvez.

Eu poderia contar algumas das coisas que sei sobre a ação policial. Que grupos militarizados atuando no policiamento de rua são uma exceção na democracia, e que um conselho da ONU já pediu ao Brasil a desmilitarização de sua polícia. Que a lógica militar não é a de combater ações criminosas, mas a de enfrentar grupos inimigos. Por isso, quando acuados pelo crime organizado, como ocorreu em maio de 2006 e no ano passado, os policiais respondem com matanças aleatórias na periferia. Podia contar que a violência que nos pegava de surpresa ali, embaixo da nossa janela, era a realidade de todos os dias além da ponte João Dias. E que não se tratava de uma polícia descontrolada, era uma política de Estado, parte de uma longa tradição.

Devia explicar que a violência é como um monstro que engana a gente, nos fazendo acreditar que ela pode ser boa quando feita pelas pessoas certas, ou em nome das causas certas. Que esse monstro só vai parar de crescer quando a gente olhar bem para a fuça dele, sem disfarces, e perceber que o monstro é sempre um monstro, venha na forma de manifestantes que espancam um policial, venha na forma de policiais que espalham feridas e balas para esvaziar as ruas.

Essa seria a melhor explicação. Mas não consegui . Achei melhor abraçá-la bem forte e contar essa história outro dia.

Os exilados da democracia

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Em 13 anos de experiência de cobertura da segurança pública, o repórter da Folha denunciou a existência de sete grupos de extermínio formados por policiais. Por causa disso, acumulou processos por “calúnia e difamação” de agentes que se sentiram atingidos. Não foi condenado em nenhum deles, mas viu o time de desafetos crescer. Para Caramante, as ameaças contra ele e a família partiram de simpatizantes de policiais como esses.
“Foram feitas ligações anônimas à redação da Folha dizendo que sabiam onde eu moro, onde fica a escola de meus filhos e que a ‘nossa hora’ estava para chegar”, conta. “Além disso, postaram uma foto do diretor de redação do jornal, Sérgio Dávila, como sendo eu. Entendi como um recado também à direção da empresa de que o cerco de apertava. Então, em comum acordo com o jornal, se decidiu que eu deveria trabalhar à distância.”
A estratégia durou menos de três semanas. Caramante e a Folha concluíram que não era seguro permanecer na cidade. No dia 11 de setembro, o repórter, a mulher e os dois filhos — um com menos de 2 anos e a outra com menos de 5 — embarcaram para Nova York. (…) Lá fora, embora se sentindo em segurança, o casal de jornalistas descobriu que a democracia brasileira produz exílios.

A história de André Caramante, Mauro König e outros jornalistas exilados pela ação de agentes do Estado brasileiro está na reportagem Compromisso de risco,da Revista de Jornalismo ESPM-CJR.  Escrita por Milton Bellintani, a matéria traz informações como esta:  “Nesses 20 anos, em plena democracia, houve o dobro de execuções de jornalistas do que na ditadura 1964-1985”. Leia aqui a matéria toda aqui. E me diga se não dá vontade de agir para mudar tudo isso. Bora?