Ponte

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Tem coisas que a gente aprende a aceitar que são do jeito que são, que sempre foram assim e não serão diferentes.

Tipo.

“Fausto, checa essa história de dois caras que foram mortos lá no Parque Trianon. Se forem garotos de programa, faz uma nota por telefone, mesmo. Se for alguém de classe média, aí vale a pena ir até o local e fazer matéria. Pode até ser manchete.”

Eu era um moleque de 22 anos, recém-formado em Jornalismo, quando ouvi essa ordem, dita por um chefe do antigo Jornal da Tarde. Fiquei chocado. Eu me chocava com as coisas na época. Até me indignava, acreditava? É que eu era um moleque, com muito menos pêlo no rosto e barriga no abdome do que tenho hoje. E um monte de sonhos ainda intactos no peito.

Era a primeira vez que ouvia algo assim. Com o tempo, ouviria muitas outras. Anos depois, como repórter de madrugada no Agora SP, trampando enquanto meus chefes dormiam, precisava decidir em quais histórias valia a pena investir e quais era melhor deixar de lado. No dia seguinte, eu seria cobrado se tivesse corrido atrás da história errada. Na base da tentativa e erro, do esculacho e do esporro, fui aprendendo.

Aprendi que, mesmo num jornal que se diz “popular”, as histórias envolvendo gente pobre e negra, desenroladas nas quebradas mais distantes do centro, só enchiam as páginas se o dia estivesse muito fraco, e mesmo assim não repercutiam nas edições seguintes. Histórias quentes vinham de delegacias como o 78º DP, nos Jardins, do 15º, no Itaim Bibi, ou do 34º, no Morumbi (se bem que nesse era bom tomar cuidado porque a região também tinha muitas favelas, onde morte e vida não importam tanto para os jornalistas). Delegacias como o 47º DP, no Capão Redondo, ou o 25º DP, em Parelheiros, eram uma roubada: longes e cheias de histórias que rendiam pouco, porque aconteciam com gente que não valia tanto.

Logo, eu mesmo já tinha aprendido a fazer as perguntas certas para avaliar uma pauta.

“Esse cara que foi morto tinha qual profissão, você sabe?”

“Em que bairro isso aconteceu?”

Ou, sendo mais direto:

“Tem ideia da classe social dos envolvidos?”

Afinal, se era assim que as coisas eram, sempre foram e sempre serão, não adiantava fazer diferente.

Acho que em poucas áreas do jornalismo as barreiras entre as classes se mostram com tanta evidência como na cobertura policial – talvez só nas matérias de comportamento a opção por privilegiar a classe média branca seja tão ostensiva. A justificativa vem travestida de argumento comercial. Dizem que nem mesmo os pobres gastam dinheiro em jornal para ver outros pobres como eles. Que pobres e ricos, negros e brancos, preferem ver os dramas de ricos e brancos. Durante anos, o mesmo argumento foi usado para afastar os negros da publicidade e das capas de revista. Essa noção é tratada como uma verdade evidente por si mesma – embora nunca tenha sido testada, já que ninguém faz diferente.

E não só os jornalistas agem desse jeito. O poder público segue a mesma lógica, até porque pauta e é pautado pelo noticiário. A polícia brasileira, com sua estrutura ineficiente de divisão em Civil e Militar, só tem condições de investigar uma fração dos crimes que chegam até ela. Que critério ela vai usar nessa peneira? Ir atrás dos casos que geram mais repercussão na mídia é um deles. Agradar a pessoas influentes é outro. É só comparar a estrutura mobilizada pela polícia para investigar os casos envolvendo gente branca e bonita do centro expandido, como o casal Nardoni ou Suzane von Richtofen, que envolveu equipes enormes e recursos de seriado americano, com os inquéritos envolvendo gente da periferia, que muitas vezes se arrastam por meses sem fazer o trabalho mínimo de ouvir as testemunhas arroladas nos boletins de ocorrência.

Quando quer promover um policial, o governo o leva para os DPs nobres; ir trabalhar nas delegacias e nos batalhões da periferia é considerado uma punição e um exílio. Tanto para o governo como para os jornalistas, a vida além do centro expandido vale menos.

Como ia dizendo, com o tempo a gente aprende a aceitar que as coisas são como são e deixar de lado a rebeldia. Faz parte do processo de amadurecimento. E, se tem uma lição que o jornalismo ensina com propriedade, é a do conformismo. Creio que poucos ambientes conseguem ser mais autoritários do que uma redação de jornal. Os profissionais muitas vezes trabalham à margem da lei, aceitando condições de trabalho que provocariam uma greve se fossem impostas a operários de uma fábrica. São contratados ilegalmente, obrigando a abrir empresas para burlar a CLT, e vivem trabalhando de graça, entregando às empresas centenas de horas extras que nunca serão pagas. Demissões coletivas, chamadas passaralhos, fazem parte da rotina, e ninguém as contesta. Ordens vindas das castas superiores dos editores são tratadas como decretos divinos e discuti-las é visto como heresia.

Os repórteres, seres da redação que estão em contato mais próximo com a realidade, são os que recebem menos, tanto em grana como em prestígio, já que a realidade não importa. O que importa é o que a chefia diz que é a realidade. E não adianta discutir. As coisas são o que são. Aceitar é bom. Abaixar a cabeça significa matar o moleque rebelde dentro de você e amadurecer. E, uma vez maduro, só falta se deixar apodrecer e morrer.

O engraçado é que tem sempre uma galera com outro jeito de enxergar. Até veem as coisas como são, mas preferem olhar para como elas podem ser. E, hoje, com as novas tecnologias, nunca houve tantas ferramentas para gente desse tipo fazer as coisas do seu jeito.

Conheci uma galera que é assim, e nada me deixa mais feliz do que estar no meio desse povo e do projeto que estamos criando junto, a Ponte. Aqui, tem gente como Laura Capriglione e Bruno Paes Manso, que eu já lia antes de pisar pela primeira vez numa redação, e que me faziam pensar “um dia, quero escrever histórias que nem eles”. Tem o pessoal mais novo, feito o Padu e o Luís Adorno, que trazem jeitos novos de olhar para o que a gente achava que já conhecia. Tem André Caramante, que há anos me dá várias aulas de jornalismo só por vê-lo trabalhando, e William Cardoso, amigo de fé e irmão camarada, sangue de contador de histórias correndo pelas veias. Tem os amigos novos: Carol Trevisan, Caio Palazzo, Claudia Belfort, Gabriel Uchida, Joana Brasileiro, Rafael Bonifácio, Tati Merlino. Tem o Milton Bellintani, outro mestre. Tem Marina Amaral e Natália Viana, que, com a Agência Pública, provaram que as coisas no jornalismo não precisam ser como são.

Todos juntos, sem chefes, e ainda com pouca grana, estamos aprendendo a fazer jornalismo sem pensar no que ele é, mas no que a gente acredita que pode ser. Um jornalismo que olhe para as pessoas, antes de mais nada, como gente. Lembrando uma verdade tão simples: que gente é gente, não importa a cor, a grana, como trepa ou o que faça.

Não temos lados. Não somos ativistas, somos jornalistas. O caminho que escolhemos é o da reportagem, porque é o que sabemos fazer. Tudo o que queremos é ir à rua e contar o que vimos lá. Coisas que fazem a gente se indignar, chorar, rir, berrar. Escolhemos a Ponte porque a gente não gosta de olhar para territórios e fronteiras. Preferimos as possibilidades.

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“A alma do filho da puta saindo”

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Lembro quando ele apareceu com o álbum de fotos. O ano devia ser 2002, talvez 2003. Era alta madrugada, disso tenha certeza, porque estava em meu horário de trabalho. Na época, eu trampava como repórter da madrugada do jornal Agora SP – função hoje extinta na maioria das redações. O trabalho consistia em rodar a cidade coletando histórias de crimes e me colocava em contato diário com policiais, bandidos, vítimas.

Eu e outros repórteres da madrugada estávamos em alguma delegacia do ABC, conversando com um grupo de policiais militares. Quando a entrevista chegou ao fim, o sargento foi até a viatura e voltou de lá trazendo seu pequeno tesouro para mostrar aos jornalistas. Era um álbum de fotografias, daquelas reveladas em uma hora nas lojas da Kodak, como se fazia antes da chegada da TecPix.

“Aqui estão todas as derrubadas”, anunciou. E passou a virar as páginas do álbum. Eram fotos de gente que ele havia matado. Homens caídos no chão, com furos de bala na pele, em meio a poças de sangue, uns com os olhos abertos, alguns prostrados, outros em posturas retorcidas pela dor. Quase todos negros. Negros como o policial que nos mostrava o álbum, com o orgulho do artesão que mostra o catálogo das suas peças mais bonitas.

“Olha esse aqui”, apontava, mostrando um risco de luz sobre a imagem de um cadáver, provocado por um reflexo na lente. “Dá até para ver a alma do filho da puta saindo.”

As coisas mudaram de lá para cá. O pequeno álbum da Kodak era um troféu para poucos olhos. Hoje, os policiais que se orgulham de provocar morte e dor (não estou falando dos que recorrem à força como último recurso e vêm a morte como exceção, seguindo o que determinam as leis e e as normas da corporação) podem mostrar seus troféus de sangue para o mundo todo, via internet.

“Vai demorar aí, caralho? É para morrer”, diz uma das vozes ouvidas no vídeo que registra a agonia de três homens baleados pela PM. Inicialmente postado numa página do Facebook de apoio à polícia paulista, o vídeo passou a ser conhecido pelo grande público após ser denunciado pelos repórteres Rafael Ribeiro, no Diário de S. Paulo, e, depois, por Laura Capriglione e André Caramante. Lembra o vídeo em que outro policial diz “estrebucha” também para um moribundo baleado. Lembra também o vídeo em que detentos filmam corpos decapitados em Pedrinhas, no Maranhão. Ou os vídeos em que o narcotráfico mexicano mostra rivais sendo executados. Ou, ainda, a decapitação do jornalista Daniel Pearl, filmada por terroristas paquistaneses em 2002.

Não há muita diferença no comportamento de policiais, criminosos e terroristas que de alguma forma participaram da produção desses filmes. Não importa o diretor, pertencem ao mesmo subgênero: uma espécie de pornô amador da violência, em que os autores se deliciam em provocar e filmar o sofrimento de um inimigo.

Algo me chamou a atenção lendo os comentários postados na página de apoio à polícia. Não havia nenhum relato acompanhando o vídeo do “é para morrer”. Não dava para saber, naquele momento, quem eram as pessoas que estavam morrendo, nem em que circunstâncias haviam sido baleadas. Mesmo assim, os comentários vibravam com a violência, dando parabéns e pedindo mais mortes. Aceitavam que eram “bandidos” e ponto. Os indivíduos não importam: quem são, suas histórias de vida, os fatos que o levaram até ali. Basta enquadrá-la no rótulo de “bandido” ou “vagabundo” que deixam de ser gente. Passam a ser apenas alguém que merece o ódio.

Seja o policial com seu álbum da Kodak, sejam os autores do mais novo snuff movie de abuso policial, sejam os apoiadores dessa violência, todos parecem ter eleito um grupo a quem podem odiar sem restrições. Contra esse inimigo, vale tudo. Não há sofrimento que seja demais, não há morte que seja ilegítima. Eu posso até gozar ao ver esse sofrimento. O mesmo gozo de qualquer assassino, de qualquer torturador, de qualquer estuprador. Ma, ah!, eu não sou nada disso. Eu sou cidadão de bem. Mesmo quando apoio, desejo ou pratico o mal.

Um tanque de guerra dentro do quarto

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Para os cypherpunks, vivemos em um Big Brother mundial sem paredão e sem prêmio. As ações de cada pessoa são espionadas e registradas em enormes depósitos ultrassecretos, graças a uma parceria entre a agência de espionagem norte-americana, a NSA (National Agency Security), e empresas como Google, Facebook, Microsoft e Apple, proprietárias dos sites e dos aparelhos que enchemos diariamente com todos os detalhes possíveis a respeito de nossas vidas. Quando nos comunicamos pela internet ou por telefonia celular, que agora está imbuída na internet, nossas trocas são interceptadas por organizações militares de inteligência. “É como ter um tanque de guerra dentro do quarto”, exagera Assange. A espionagem por parte das autoridades não é feita sobre alvos determinados, como rebeldes, terroristas ou suspeitos de crimes. A tecnologia tornou possível a “interceptação estratégica”, que, por padrão, grava e armazena automaticamente os dados de todas as pessoas que falam ao telefone ou acessam a internet, “porque nunca se sabe quando alguém é suspeito”.

Como evitar que a internet se torne uma ferramenta de opressão é o tema da matéria Pelo direito de fechar a porta do banheiro, que escrevi para a Galileu. A matéria saiu com ilustrações estilosas de Cris Vector. Vale a pena sair da internet e ir para uma banca atrás da revista, que tem boas matérias, como a reportagem de capa, sobre agrotóxicos, o dossiê O segredo da felicidade e um perfil de Chris Ware.

Obrigado, Tiago Mali, que me fez o convite de voltar a escrever para a revista. Obrigado, Alexandre Matias e Rafael Tonon, pela edição e paciência. Obrigado a todos os entrevistados: Jacob Appelbaum, Anahuac de Paula Gil e Alexandre Oliva, que me deu de bandeja o título da matéria. E obrigado, Tiago Soares, pelo tesouro das boas dicas.

Como recomendaria o velho Camões

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Caricatura de Murillo Antunes Alves

Abaixo, a abertura de um perfil que escrevi para a revista Apartes, da Câmara Municipal, sobre Murillo Antunes Alves, um dos jornalistas mais importantes da era de ouro do rádio, que entrevistou de Monteiro Lobato a Getúlio Vargas. Nesses dois parágrafos, tentei imitar o estilo dos locutores daquela época. “Parece o meu pai falando”, disse Beto, o filho do Murillo, ao ler o texto — um comentário que me deixou feliz.

Cheguei a fazer uma versão da reportagem escrita inteirinha nesse estilo, mas  quem leu concluiu que não dava para aguentar mais de dois parágrafos desse palavrório. Para sorte dos leitores, o restante do texto ficou mais prosaico.

Amável leitor, quisera o autor da presente reportagem, que narra tempos idos e vividos da existência de Murillo Antunes Alves, emular o estilo daquele jornalista, cerimonialista e vereador. Para tal, tornar-se-ia necessário abrir mão da roupagem contemporânea e empregar palavras de sobrecasaca e gravata preta, como as que abrem esta narrativa. Seria a forma ideal de homenagear Murillo, figura que brilhou no firmamento do jornalismo como uma das estrelas dos tempos primevos do rádio e da televisão, e modo seguro de trasladar o leitor de volta ao tempo dos comunicadores bacharéis, que traziam nas mãos gravadores de arame e o português mais castiço na ponta de suas línguas.
Não obstante, falta a este escriba “engenho e arte”, como recomendaria o velho Camões. E, mesmo que os houvesse, o resultado haveria de aparecer como um espetáculo sobremaneira enfadonho aos olhos hodiernos. Destarte, urge abrir mão de todo o preciosismo dos tempos idos, sob o risco de enfastiar o amável leitor a ponto de afastá-lo da leitura. O que seria uma pena, já que vale a pena conhecer Murillo Antunes Alves. Leia tudo.

Liberdade pra todo mundo

Veja mais aqui.

A peleja comunicacional de Marco regulatório e Conceição Pública na terra sem lei dos coronéis eletrônicos

Por Ivan Moraes Filho, com mote de João Brant e contribuições de Ricardo Mello

Não sei se tu já pensasse
ligando a televisão
Num dia desse qualquer
xingando a programação
Sentada no seu sofá
Numa preguiça do cão (mais…)

Mercadante, perfilador

Luiz Fernando Mercadante, que morreu ontem, era bom no perfil, este jeito de contar que exige olhos para ver, ouvidos para ouvir e humildade para não deixar o papel de quem escreve se sobrepor à história sobre quem se escreve. O perfil, que só nos últimos anos começou a ser valorizado pelo jornalismo brasileiro, é um gênero difícil, porque exige deixar de lado ideias prontas para enxergar o outro em sua inteireza. O bom fazedor de perfis nunca faz histórias de anjos nem de demônios: ele fala de pessoas, com defeitos, qualidades, manhas, manias, hemorróidas e contradições. Fala de gente, enfim. E Mercadante era bom falando de gente, como mostrou em seu livro 20 perfis e uma entrevista. Aí vão dois trechos.

Sobre Oscar Niemeyer:

Ele é simples como um pedreiro e sólido como um mestre-de-obras. Vive num mundo fantástico, de curvas ousadas, superfícies recortadas, colunas flutuantes, arcos, abóbadas, fachadas inclinadas, formas estranhas. Em sua vida há os amigos, os netos, um cavaquinho desafinado, livros, automóveis velozes, suspensórios por baixo da camisa esporte. Pensa intensamente em ideais de amor, paz, justiça social, honestidade, generosidade, alegria de viver. Ele é Oscar Niemeyer, o arquiteto.

Sobre Jorge Andrade:

Dez da noite e, como todas as noites, a família está reunida no quarto de dormir do casal. O pai, numa poltrona. Camila, aos 11 anos, ao lado, sentadinha na beirada da cama. A mãe, recostada num travesseiro. Gonçalo, 14 anos, e Blandina, 8, espichados ao lado da mãe. Estão todos mudos, fixados no vídeo da tevê que anuncia mais um capítulo da novela. A mãe apaga o abajur e as imagens coloridas se destacam, crescem, povoam o quarto. Pai, mãe e os três filhos — no silêncio mais absoluto — devoram cena a cena o capítulo da noite.

O pai vai queimando cigarros na sua longa piteira. A mãe, acendendo e apagando o abajur a cada intervalo comercial. As crianças, fascinadas e sonolentas, como se já começassem a sonhar ali.

A cada intervalo há movimento, comentários, risadas, e há Blandina, que se levanta correndo, dá um beijo no pai e volta a deitar. Ao final é como no cinema: luzes, um ar de fim de sessão, críticas e tudo.

— É, filho, hoje o pai só encheu lingüiça.

Quem se desculpa é Jorge Andrade, o autor.

André, o perigoso

André não gosta de fotos, então ilustrei esse post
com o subcomandante Marcos, que ele curte

Teve duas pessoas que me ensinaram muito quando trabalhei como repórter de polícia e cidades, anos atrás, no Agora SP.  Um foi o repórter fotográfico José Patrício, que me acompanhava madrugadas afora em delegacias e locais de homicídio. Com Patrício, puta velha do jornalismo, aprendi algo sobre as manhas da reportagem de rua: como falar com as pessoas, saber entrar e sair de um lugar, ter olhar para o que é válido numa notícia. O outro cara foi o André Caramante, que, como eu, era repórter. Ele me ensinou que jornalista pode fazer a coisa certa.

Quando alguém começa uma jornada profissional, logo aprende (ou se deixa convencer de) que as coisas não são em preto e branco. Que é preciso conviver com o cinza. Que não dá para levar as coisas a ferro e fogo. No jornalismo policial, esse aprendizado pode significar compactuar com uma porção de sacanagens que a gente vê no dia-a-dia. Você vê o suspeito chegar à delegacia com um hematoma na cara. Você vê o PM dar um tapa na cara do sujeito algemado. Você escuta o chefe dos investigadores comentando, com uma risadinha, que deu uma “trabalhada” no suspeito. E você deixa de lado. Vai fazer o quê? Você não tem como provar, e além do mais tudo indica que as vítimas eram bandidos, mesmo, e além do mais seu editor não vai se interessar por isso, e se por acaso se interessar a notícia vai virar só uma nota… A gente sempre encontra um arsenal imenso de desculpas para si próprio. É o mundo cinza, sem ferro, sem fogo. Em vez de funcionar como uma imagem sobre a complexidade das coisas, o mundo cinza vira um escudo para quem não quer ter o trabalho de levar tão a sério esse lance de certo e errado. Você deixa de lado.

Caramante não deixava de lado. Eu acompanhei o trabalho dele durante os primeiros anos da gestão do secretário de Segurança Pública Saulo de Abreu Castro Filho, o cara que, sob o comando de Geraldo Alckmin, deu a levada do novo jeito tucano de fazer polícia: em vez de procurar conter os excessos da polícia, como nos anos Mário Covas, o governo passou a estimular a violência, adotando a linha torture-e-mate-sempre-que-não-der-na-vista, que continua até hoje, empilhando corpos na periferia. A comunicação ganhou uma blindagem inédita, e vi muitas vezes como Caramante se batia com os assessores de imprensa atrás das informações corretas. Uma vez, uma assessora o qualificou de “perigoso”. Perigoso, ele? Ao contrário dos policiais, André não tem armas. Qual era o perigo dele?  André era perigoso por não aceitar os pequenos pactos com as autoridades, por não olhar para o outro lado, por exigir a verdade. André e os caras que trabalham como ele são muito perigosos. Eles fazem jornalismo.

Lembro de quando o André foi cobrir uma audiência na Assembleia Legislativa em que menores da Febem denunciaram maus-tratos. Ao final, dentro do elevador, um dos monitores da Fundação comentou que ia “dar um pau” nos meninos assim que saíssem de lá. Caramante ouviu e fez questão de denunciar o monitor, transformando aquilo em notícia. “Não pode, mano, não pode”,  ele me disse, depois, na redação. Não pode: há o certo e o errado. E o que é errado deve ser denunciado.

O último a se incomodar com Caramante foi o Coronel Telhada, ex-comandante da Rota com 36 mortes nas costas e candidato a vereador pelo PSDB. Depois que André, numa matéria da Folha de S.Paulo, denunciou o coronel por pregar a violência em sua página no Facebook, Telhada chamou o jornalista de “notório defensor de bandidos” e conclamou seus seguidores contra ele. O resultado é uma campanha de ódio em que apoiadores do coronel ameaçam Caramante com declarações do tipo “esse Caramante é mais um vagabundo. Coronel, de olho nele”. A Repórteres sem Fronteiras já denunciou essa sacanagem, assim como a direção do Sindicato dos Jornalistas e o coletivo Sindicato é pra Lutar, de oposição. E é bom que os protestos contra a atitude do coronel ganhem força: se ele quer ser candidato num Estado de Direito, precisa entender que a cidade não é o seu quartel.

André, tamo junto.

Continua a lembrar a gente do que é preto e branco neste mundo cinza.

Forever foca

— Eu era o Young Foca. Depois, virei o Kid Foca. Logo eu vou ser o Old Foca.

Era a queixa de Marcos, o jornalista fracassado da peça Efeito Urtigão, do Mário Bortolotto.  Foca é o apelido que os jornalistas dão aos colegas cabaços, os profissionais recém-chegados que batem palmas, deslumbrados, diante de tudo o que vêem, fazem perguntas estúpidas sem parar e acham lindas todas as tarefas que recebem, por mais banais que sejam. Para Marcos, ser foca era uma maldição, a lembrança de que ele seria sempre visto como um novato permanente, um sem-talento destinado ao feijão-com-arroz das rotinas da redação. Para mim, é um mantra que procuro repetir para não esquecer. Eu fui um foca. Eu sou um foca. Eu serei um foca enquanto escrever/viver. Toda vez que esqueci isso, me fodi.

Teve épocas em que me considerei um jornalista experiente. Isso ainda acontece, às vezes. Acumulei alguns anos, alguns trampos, aprendi meia dúzia de truques. Pronto. Já podia acreditar que entendia o meu ofício e o mundo à minha volta. As histórias que via e ouvia começavam a ficar parecidas, e o meu jeito de contá-las, também. Quando isso acontece, o mundo deixa de ser o espaço de surpresa e mistério que recomeça sempre que você abre os olhos de manhã. Para o jornalista experiente, o mundo é repetitivo. Todas as pessoas e fatos não passam de novas versões de pessoas e fatos sobre os quais ele já escreveu. O jornalista experiente sabe enquadrar a realidade em alguns templates prontos, que convencem editores e leitores. Como está sempre em busca da repetição, o jornalista experiente deixa de perceber o novo e o único que existe em cada instante. O jornalista experiente que é colocado diante de uma flor amarela não consegue enxergá-la: verá apenas a repetição das flores amarelas que já encontrou antes. A flor, ali, em sua presença física, naquela hora, naquele lugar, é invisível para o jornalista experiente.

O jornalista experiente não tem olhos nem ouvidos. Ele não precisa ver nem ouvir, porque já conhece todas as coisas e tem suas opiniões sobre cada uma delas. Nada o deixa nervoso ou empolgado. O jornalista experiente é velho, não importa quantos anos tenha. Seu principal sentimento é o tédio.

Ainda bem que andei quebrando a cara e descobri que o que chamava de experiência não passava de acúmulo de anos. Que eu havia ficado velho antes de ficar sábio, como o Bobo fala para o rei Lear. Os bobos, eles é que têm a sabedoria. Porque só quem estuda para valer um assunto consegue descobrir, lá nas profundezas, como as coisas são complexas e as certezas, quebradiças. Quem acha que conhece a realidade e rejeita as descobertas que possam virar sua visão de mundo de ponta-cabeça está apenas sendo escravo do próprio ego. E o ego é um senhor de casa-grande filhodaputa, do tipo que mantém seu escravo trancado num quartinho minúsculo e sem janelas, isolado do que se passa lá fora. Dessa prisão nasce o tédio: se a realidade é surpresa e mudança, apenas quem se fecha para o mundo pode deixar de se emocionar.

Eu sou um foca. Eu não sei nada. E não saber nada é libertador. Não tenho mais que ter opinião sobre tudo. Não preciso mais julgar. Não preciso mais classificar tudo o que conheço em certo e errado, bonito e feio, direita e esquerda. Antes de usar a mente, o foca simplesmente… vê. Ouve. Sente. E a partir daí conhece. Ser foca significa estar de olhos abertos e ouvidos atentos para tudo o que o mundo apresenta. Já que tudo é novo, então tudo é descoberta, tudo é aprendizado e tudo emociona. Foca tem olho de criança. E criança não tem tédio.

Tudo bem que ainda não consigo ser tão foca como gostaria. Às vezes me pego bancando o experiente: enquadrando pessoas em tipos, adivinhando sem conhecer, escrevendo antes de apurar, opinando, opinando. Bom mesmo foi ter olhado para mim antes de começar uma pauta, dia desses, e perceber que estava nervoso, sem saber direito como iria agir. Que bom, pensei, estou sendo foca. Estou me deixando surpreender, sabendo que vou ver algo/alguém pela primeira vez — afinal, ter visto antes não é o mesmo que ver agora. Ser foca é bom por isso. Quando a gente consegue perceber que uma flor amarela não é igual à outra, a vida vira um presente permanente.