O intestino do Andrício

Para falar da obra-prima poética que é O Intestino Eloquente, livro de poemas e tiras de Andrício de Souza, resolvi fazer uns versinhos também.450xN

Um dia avistei o mano Andrício
Que já foi logo falando:
“Véi, me cansei dessa vida
de trampar de cartunista.
Passar fome desenhando?
Vou largar desse suplício.”

Me contou o que pretendia:
“Se é pra viver na pobreza,
Vou assumir a pindaíba
E viverei de poesia.
Serei fodido na vida,
Mas fodido com nobreza.”

Achei que fosse uma piada
(Dessas que vive contando
E a gente dá umas risadas
Pra preservar sua auto-estima).
Mas logo estaria lançando
Seu próprio livro de rimas.

O intestino eloquente
É o nome da produção.
Do autor, dá para afirmar
Que sabe, perfeitamente
E com muita precisão,
Forma e conteúdo encaixar.

Escreve, como ninguém,
Sobre cocô, peido, mijo
Merda, cu, intestino, lixo.
Além de rimar porcarias,
Andrício sabe fazer rimas
Que são porcarias também.

Pois é aí que Andrício supera
Outros poetas da nossa era:
Gente como Glauco Mattoso
Que escreve sobre chulé
Com um soneto garboso,
Métrica e outros rapapés.

Vai, paga os quarenta reais
Desse livro, camarada.
Velhos poetas consagrados,
Que te trazem mais cultura,
Não te divertirão mais
Que o Ed Wood da literatura.

Histórias para viver

Do livro As narrativas preferidas de um contador de histórias, de Ilan Brenman.

Carne de língua (conto africano)

Há muito, muito tempo, existiu um rei que se apaixonou perdidamente por uma rainha. Depois do casamento, a rainha foi morar no castelo do rei, mas assim que pisou lá, misteriosamente ficou doente. Ninguém sabia o que tinha, ia definhando a cada dia. O rei, que era muito rico e poderoso, mandou chamar os melhores médicos do mundo. Eles a examinaram, mas não encontraram a causa de sua doença. O rei, então mandou chamara os curandeiros mais famosos do mundo. Fizeram preces, prepararam poções e magias. Também não adiantou nada. A rainha emagrecia diariamente, dali a pouco desapareceria por completo.

O rei, que amava sua esposa tão intensamente, decidiu:

— Eu mesmo vou procurar a cura para a doença da minha rainha.

E lá foi ele procurando a cura para sua rainha. Andou por cidades e campos. Num desses campos, avistou uma cabana.

Aproximou-se, colocou o rosto perto da janela e viu, lá dentro, um casal de camponeses. O camponês mexia os lábios e, na frente dele, a camponesa, gordinha e rosadinha, não parava de gargalhar. Os olhos daquela mulher transbordavam felicidade.

O rei começou a pensar:

— O que será que faz essa mulher ser tão feliz assim?

Com essa pergunta na cabeça, o rei respirou fundo e bateu na porta da cabana.

— Majestade! O que vossa alteza deseja? — perguntou o camponês um pouco assustado com a presença real na sua frente.

— Quero saber, camponês, o que você faz para sua mulher ser tão feliz e saudável? A minha rainha está morrendo no castelo, toda tristonha.

— Muito simples, majestade. Alimento a minha mulher todos os dias com carne de língua.

O rei pensou que tinha ouvido errado: CARNE DE LÍNGUA! O camponês repetiu:

— Alimento minha esposa diariamente com carne de língua.

A situação era de vida ou morte. O rei, mesmo achando aquilo meio estranho, agradeceu ao camponês e foi correndo para seu castelo. Chegando lá, mandou chamar imediatamente à sua presença o cozinheiro real:

— Cozinheiro, prepare imediatamente um imenso sopão com carne de língua de tudo o que é animal vivente na terra.

—O que?! Como assim vossa alteza? – perguntou o cozinheiro, com um ponto de interrogação no rosto.

—Você ouviu direito! Carne de língua de todos os animais do reino! Corra, porque a rainha não pode mais esperar.

O cozinheiro foi chamar os caçadores do reino. Depois de algumas horas, já tinha na sua frente língua de cachorro, gato, rato, jacaré, elefante, tigre, girafa, lagartixa, tartaruga, vaca, ovelha, zebra, hipopótamo…

O imenso sopão ficou pronto no meio da noite. O próprio rei foi alimentar a sua rainha com carne de língua. Entrou no quarto e ficou espantado com a aparência de sua amada esposa. Sentou-se ao seu lado, pegou uma colher do sopão e a aproximou da boca da rainha. Com muito esforço, ela engoliu algumas colheradas do sopão.

O rei esperou, esperou e esperou, mas a rainha não melhorava, muito pelo contrário, parecia que a morte a levaria a qualquer momento. Um desespero tomou conta do rei. Se não fizesse algo, a rainha iria embora para sempre.

— Soldado! Soldado! — gritou.

Um imenso homem, com armadura e espada, entrou no quarto.

— Escute bem, soldado. A rainha tem que ser transferida imediatamente para a casa de um camponês. Lá você encontrará uma mulher gordinha e rosadinha, que você a traga até aqui.

O rei explicou ao soldado onde ficava a casa desse camponês. Essa era a única chance, ele imaginava, de a mulher sobreviver.

Talvez ele não tivesse entendido direito o que o camponês lhe dissera.

— Corre, corre, soldado! A vida da rainha depende disso!

O soldado pegou a rainha no colo e com a ajuda de outros homens saiu em disparada até a casa do camponês. A troca foi feita e, assim que a camponesa entrou no castelo do rei, ficou doente misteriosamente. Depois de t rês semanas, a camponesa, que era gordinha e rosadinha, estava magra e triste. O rei, então, decidiu ver como estava a sua rainha.

Chegando na cabana, pôs o rosto na janela e…Não podia ser! A rainha estava gordinha, rosadinha e gargalhava como nunca tinha visto antes. Na frente dela, o camponês não parava de mexer os lábios. O rei bateu à porta:

— Majestade, você novamente aqui. O que vossa alteza deseja?

— Camponês, o que esta acontecendo!? A sua esposa está morrendo no meu castelo e a minha está toda feliz saudável aqui na nossa frente.

— Me diga você, alteza, o que você fez?

—Fiz exatamente o que moce mandou. Dei carne de língua de cachorro, gato, sapo, coelho, girafa… para minha rainha e para sua esposa também. Mas, camponês, nada adiantou.

— Majestade, você não compreendeu o que eu disse. Eu alimento a sua rainha e a minha esposa com carne de língua, que são as histórias contadas pela minha língua.

O rei pensou um pouco sobre aquelas palavras. Lembrou-se também dos lábios do camponês mexendo. Parecia que agora havia entendido. Chamou a sua rainha de volta e devolveu a camponesa para sua casa. Assim que a rainha entrou no castelo, o rei prometeu que daria todas as noites, antes de dormir, carne de língua.

A partir daquele dia, contam os quenianos, o rei contava uma história diferente todas a s noites. E os quenianos nos revelaram que nunca mais essa rainha ficou doente. E esse povo africano ainda nos revela mais um segredo: as histórias fazem muito bem para as mulheres, crianças, jovens, homens e até mesmo para os reis.

Um doce ruído
interrompe meu sonho:
gostas de chuva sobre a folhagem.

Bashô

(tradução de Olga Savary)

Céu por todos os lados

astronauta beyruth

“E a Maurício de Sousa por emprestar os seus brinquedos”, agradece Danilo Beyruth no final de Magnetar, o romance gráfico que ele escreveu e ilustrou com o personagem Astronauta. E parece que Danilo estava mesmo brincando ao contar do seu jeito uma aventura do personagem de Maurício. Brincando do jeito que criança brinca. Já viu como crianças levam a sério uma brincadeira? São capazes de correr para lá e para cá sem parar durante horas, ou de passar um bom tempo sem mexer um músculo, tudo em nome da brincadeira. E ao mesmo tempo não esquecem que estão brincando, e que tudo só vale a pena enquanto estiver divertido.

Danilo leva a sério a sua brincadeira. Isso a gente vê no traço dinâmico e cuidadoso, no ritmo da narrativa, que acelera e ralenta sem perder o pulso de um bom gibi de aventura, e nas referências astronômicas que buscou para montar o Magnetar do título (o cadáver de uma estrela que renasce como um diamante gigantesco, emitindo radiações luminosas em rosa e branco pelo espaço afora e pelas páginas adentro). Mas tudo continua a ser uma brincadeira: só entra na narrativa o que é divertido.

O que fica é uma história de náufrago, lutando com sua própria mente para não enlouquecer e encontrar uma saída para a armadilha em que meteu sua vida. É ali, nos confins do espaço sideral — o mais exterior possível, o mais solitário possível — que o Astronauta consegue olhar para si mesmo e aí encontrar seus amigos e amores,  descobrindo “a proximidade por meio da distância”, como diz Amyr Klink no posfácio.

Klink em seu barco no Atlântico, Danilo com seus papéis, seus lápis e suas tintas, a gente que lê essa história, o próprio Astronauta em sua nave redonda feito os astros por onde navega… todo mundo é astro-nauta nessa história, viajando dentro e fora e descobrindo “céu por todos os lados”.

Quilombos de palavras

Matéria que escrevi para a Revista do Parlamento Paulistano, da Câmara Municipal de São Paulo, um trabalho muito bom de fazer, por causa da ajuda dos amigos e guerreiros Elton, Gisele, Leandro, Lívia, Rodrigo, Rogério, Sândor  e, claro, nossa comandante Maria Isabel.

Saraus levam a periferia para o centro da cultura

Tubardao DuLixo

Texto de Tubarão DuLixo em arte de Rogério Alves

“Vai trabalhar, negrinha! Essa menina vive com o caderno na mão. Olha a vassoura, vai lá limpar. Você sonha muito alto. Desde quando negro vai ser escritor?” Era o que as patroas viviam dizendo para Tula Pilar Ferreira, que trabalhava como doméstica desde os oito anos. Quando as madames saíam, Pilar largava a vassoura e corria para as estantes dos patrões: lia todos os livros que encontrava e depois saía a cantar e a dançar pelos corredores da casa. “Eu cresci com essa arte oculta”, lembra.

A arte que Pilar trazia oculta desde pequena veio à luz em 2002, quando pela primeira vez colocou os pés numa novidade: um sarau de poesia que rolava ali na sua quebrada , em Taboão da Serra (Grande São Paulo), feito pelos próprios moradores da comunidade. Era o Cooperifa, criado um ano antes pelo poeta Sérgio Vaz — e que no ano seguinte mudaria para o Jardim São Luís, na zona sul da capital, onde está até hoje. O encontro deu a chave para Pilar nascer como poeta. Passou a escrever e declamar seus poemas pelos saraus afora, e, de verso em verso, já publicou um livreto, Palavras inacadêmicas. “As palavras que cuspo estavam entranhadas dentro de mim”, conta Pilar, que se define como “mãe de três filhos, poetisa e 29 anos para sempre”.

Pilar não está nada oculta nesta noite de 5 de setembro de 2012, diante da plateia do Sarau da Ocupa, uma das dezenas de saraus da periferia que, após a iniciativa pioneira do Cooperifa, passaram a pipocar em todas as regiões da cidade. O microfone está aberto para quem quiser falar, como é de lei nos saraus. Na sua vez, Pilar declama, com a voz e com a dança do corpo, um poema sobre sua avó escravizada: “Tenho no sangue, na ancestralidade, gente que foi escrava de verdade. Minha avó, chicoteada aos doze anos de idade. Apanhou por rebeldia, desobediência. Sinhá não teve piedade, somente maldade. Inconsciência. Então rufem os tambores e batam palmas. A africanidade está cravada em minha alma…” O poema é saudado com aplausos, o único cachê dos poetas de saraus.

Sem-teto leem poemas no Sarau do Ocupa

Sem-teto leem poemas no Sarau do Ocupa (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Atualmente, pelo menos 20 saraus ocorrem todo mês na periferia paulistana, organizadas pela mesma gente que os patrões de Pilar achavam que nunca seria capaz de escrever. Os dados aparecem na Agenda Cultural da Periferia, publicada pela ONG Ação Educativa, que também inclui eventos como o Sarau da Ocupa — que, mesmo ocorrendo na Avenida São João, em pleno centro de São Paulo, também é considerado um evento periférico por ocorrer num prédio ocupado por famílias sem-teto da Frente de Luta por Moradia, ameaçadas de despejo por conta de uma ação de reintegração de posse. “Nós somos a periferia do centro, porque estamos cercados de tudo e não temos nada”, afirma o educador popular Ruivo Lopes, 33 anos, responsável pelo sarau. Natural da parte pobre da Baixada Santista, Ruivo conheceu cedo a vida entre cortiços e despejos e, ao engajar-se na luta dos movimentos de moradia, decidiu adotar a cultura como arma de luta. “Com os saraus, as senzalas tomaram de assalto a literatura, que até então era feita na casa-grande”, analisa.
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“Sarau é cidadania”

binho

Na hora da cerveja / Eu pinga / Na hora de Guantanamo / Eu Cuba libre / Na hora de guerrear / Eu Dalai Lama, proclamam os versos do poeta Robson Padial, o Binho. Ele é autor de dois livros — Postesia e Donde miras – dois poetas e um caminho (com Serginho Poeta) —, mas sua obra mais famosa é o sarau que criou há oito anos em seu bar na zona sul de São Paulo. O bar foi fechado em maio pela Subprefeitura de Campo Limpo, por falta de licença de funcionamento. Na hora de desistir, Binho continuou: por meio de uma ação de financiamento coletivo na internet, levantou dinheiro para pagar os R$ 9 mil em multas do bar e continuar com o sarau, agora em versão itinerante.

Como surgiu o sarau do Binho?

Binho: A gente tinha a Noite da Vela no bar. Ficava à luz de vela e botava uns bolachões para tocar. Entre um vinil e outro, alguém pedia para recitar um poema. A poesia entrou aos poucos no espaço. Numa dessas noites, eu falei: a gente podia colocar poesia em poste. Era época de eleição, e a gente retirava as placas dos políticos dos postes, pintava e devolvia com poesia. A partir do Postesia, fomos conhecendo outros poetas. Antigamente a gente só conhecia os poetas mortos. Aí conhecemos os poetas vivos, que estavam por aí, perambulando.

Como você define um sarau?

Binho: Sarau são encontros humanos. O sarau engloba tudo. É um exercício de cidadania e tolerância. Pega as pessoas das mais diferentes divisões sociais: um que gosta de samba, outro de rock, outro de rap, e no sarau um ouve o que o outro tem a dizer. A gente vai desconstruindo os preconceitos. Isso é uma coisa bacana do sarau: estar atento para ouvir o outro. O sarau consegue congregar cultura popular, maracatu, um que quer passar um vídeo, outro que quer contar uma piada, um outro que só quer se colocar ali na frente. É um se colocar no mundo: eu faço parte, eu tenho valor. É uma nova escola. Um novo jeito de estudar, de buscar e absorver a informação que está sendo falada.

Por que o seu bar foi fechado?

Binho: Eles alegaram que era por falta de alvará de funcionamento . Não tem sentido. Um bar que faz poesia tinha que ser um patrimônio público. Tinha que ser tombado, não fechado. A gente não compactou com a política daqui, não quis pendurar a faixa do político. Ninguém do comércio daqui tem alvará. A gente não se sujeitou a algumas coisas e pagou por isso.

Onde o sarau acontece hoje?

Binho: O sarau é itinerante. Estamos indo a outros lugares, somando com outros espaços que têm iniciativas culturais. Antes acontecia uma vez por semana, agora é uma vez por mês. É uma perda grande pra cidade de São Paulo. O sarau para existir não precisa de um espaço, mas você perde uma referência importante sem ele. Perde a memória, a relação com a comunidade. Agora ficou mais difícil. Temos que ficar divulgando, avisando as pessoas quando vai acontecer. Mas a gente vai continuar fazendo do mesmo jeito.

Muita gente apoiou vocês?

Binho: Muita gente. Tivemos apoio de fora do Brasil. Gente da Argentina, México, Inglaterra. O povo legitimou nossa luta, até financeiramente, contribuindo para pagar as multas do bar. Quem devia dar o alvará para o funcionamento era o povo, e ele deu. O poder perdeu.

Por que a periferia precisa dos saraus?

Binho: A imagem da periferia chega distorcida. Até para quem vive aqui, parece que a periferia é o que está na tevê. Se a gente não perceber, vai reproduzir o que o Datena diz que é a periferia. E a periferia é muito maior do que a tevê mostra. O sarau também serve para abrir os nossos olhos para essa consciência mais crítica da nossa realidade.

Poeta é “infrator”
A Secretaria de Coordenação das Subprefeituras defendeu o fechamento do bar de Binho e disse que o poeta é um “infrator” que mantinha um bar “em uma área de zoneamento que não permite a realização deste tipo de atividade”. “Ressaltamos que não se trata de nenhum ato arbitrário, mas sim o cumprimento às obrigações destinadas à administração municipal”, afirmou, em nota.

O mar, a lua velha, o bebê e os fantasmas

Eles são palhaços e cantores. São poetas e pintores — de pintar a tarde garoenta com histórias e risadas. Fazem arte como criança faz arte: botando para dançar os lápis de cor pelas paredes brancas do quarto até ouvir o berro da mãe O QUE VOCÊ FEZ AÍ, MENINO? e então responder fiz um sol, um carro, uma casinha. O caso das paredes rabiscadas é um dos contos que os Cantadores de Contos contam, eles que não são só cantadores de contar. Também são cantadores de ouvir, que abrem a roda para acolher os contos da infância de quem assiste ao espetáculo.

Uma hoje moça, Betina, conta o conto da Betina criança que passava as férias ao lado do mar. À noite, tremia de medo na cama ouvindo o barulho das ondas. Parecia que o mar ia entrar pelas janelas e tomar conta de tudo. As noites foram passando e ela foi perdendo o medo, após ver que a cada manhã o mar não havia saído do lugar. É bom descobrir que o mar continua sempre no mesmo lugar.

Um hoje senhor, João, conta o conto do João criança que, em 1947, ouviu os mais velhos falarem chegada da lua nova. E depois passou a percorrer as plantações em busca da lua velha, que devia ter caído por ali. Um dia, achou a tampa de uma panela. Teve certeza de que havia encontrado a lua, que de nova havia ficado velha e caído do céu, ali perto da sua casa.

Uma moça, Clara, conta o conto da sua primeira lembrança. Da Clara de três anos de idade que ouviu o choro do irmão recém-nascido no berço. E que dali a pouco apareceu na sala, diante dos adultos, carregando nos braços o bebê, pouco menor do que ela. Os adultos se desesperam, com medo que ela derrube o bebê. E ela, toda segura, toda irmã mais velha: calma, estou segurando a cabecinha dele. Porque neném tem o pescocinho mole, e ela, toda segura, toda irmã mais velha, sabia muito bem disso.

E um moço, Fausto, ficou pensando num pedaço de infância que poderia compartilhar. E só viu o branco em sua cabeça. Até agora, quando se sentou para escrever diante da tela em branca, e aí resolveu pintá-la que nem criança arteira com a história do Fausto criança que brincava sozinho pelos cantos na hora do recreio e, sem que ninguém soubesse, estava caçando os fantasmas da escola: a loira do banheiro, o fantasma do jardim e o vampiro do laboratório, todos destruídos na pirâmide de papel que o menino um dia queimou no quintal de casa.

Carolina Nagayoshi, Débora Sanders e Thiago Freitas são os arteiros dos Cantadores de Contos. As apresentações deles são cheias de cenas como essa do compartilhamento de lembranças, que aconteceu ontem no Espaço Florescer, da Sofia. Isso por que nós gostramos de ‘RE-EM-VENTAR’, para que nós, como criadores, sejamos também reinventados a cada instante, a cada momento, a cada movimento e a cada vento, contam os Cantadores em seu canto na Web. Os arteiros gostam de falar com as crianças do jeito que elas mais gostam, transformando tudo em brincadeira. E a gente que é adulto, na ilusão da infância esquecida, lembra de como a vida só vale pelo que nela existe de brinquedo.

Sobre o sino do templo
repousa e dorme
a borboleta.

Buson

(tradução de Olga Savary)

A Semana do Euclidão

Euclidão recebendo o beijo de uma maratonista nos anos 90

Capa do livro da Rachel

Acabo de receber uma carta. Em papel, com selos e um recado carinhoso escrito a mão numa folha de papel pautado. E, dentro do envelope, um livro escrito pela autora da carta,  a velha amiga Rachel Bueno. Conheço a Raquel do tempo em que as pessoas escreviam cartas. E eram muitas: não havia dia que eu não recebesse ou escrevesse uma carta, para gente de várias partes do país. Gente que se conhecia durante os sete dias da Maratona Intelectual Euclidiana, evento que reunia a molecada para estudar e viver lá em São José do Rio Pardo, meu torrão natal, onde Euclides da Cunha escreveu Os Sertões.O livro da Raquel é sobre isso: um apanhado muito bacana de “casos e causos” que rolavam com os estudantes naquelas semanas, que só quem viveu sabe como era. Quem quiser um exemplar, na mão da Rachel é mais barato: dá para negociar direto com ela pelo e-mail joanaimaginaria@ig.com.br.

Ah, e a autora me deu a honra de escrever o prefácio, que é o seguinte.

Eu achava que sabia o que era uma Semana Euclidiana. Claro que sabia. Eu era um rio-pardense, nascido e embalado no berço d’Os Sertões, que muito antes da puberdade já sacolejava em cima de carros alegóricos improvisados nos desfiles inaugurais de 9 de agosto, diante das autoridades e dos meus pais que davam tchauzinho na multidão. Agora no ensino médio, eu já tinha lido a “Bíblia da nacionalidade”, podia recitar de cor o parágrafo começado com “Canudos não se rendeu” e colecionava medalhas pelas minhas participações nas Maratonas Intelectuais. Só aí eu descobri que não sabia nada sobre a verdadeira Semana Euclidiana.

Nem eu, nem a maioria dos estudantes nascidos às margens do Rio Pardo. Os alunos ribeirinhos, que passavam o dia ouvindo sobre os oxímoros da linguagem euclidiana, almoçavam na casa dos pais e iam dormir na mesma cama de todas as noites, viam apenas a cara sisuda da Semana Euclidiana: o desfile de abertura com seu jeitão de parada militar, os eventos que emendavam o Hino Nacional com longos discursos destacando o amor à Pátria e os professores que reverenciavam Euclides da Cunha com a fé de Antônio Beatinho no seu bom Conselheiro.

Fui conhecer a outra cara da Semana Euclidiana no ano em que resolvi me juntar à legião dos “estrangeiros”: os alunos que vinham de outras cidades e viviam aqueles sete dias como uma aventura. Eram adolescentes que, em muitos casos, estavam pela primeira vez passando uma semana longe da casa de seus pais e de tudo o que conheciam. Meninas e moleques que viviam a fome de conhecer a terra ignota que esperava por eles fora dos quartos da sua infância. Fome de saber, fome de experenciar, fome de amar e de sofrer por amar. Parecida com a fome euclidiana pelo desconhecido, na Amazônia ou na caatinga. E eu, que vivia a mesma fome, também me reuni aos outros maratonistas nas cantorias sobre o túmulo de Euclides, nas peregrinações para ver o sol nascer debaixo dos sovacos de Cristo, nas noites de sono curto sobre os colchonetes amontoados nos alojamentos e nas choradeiras de 15 de agosto na rodoviária, cantando “volta, volta para as cavernas, se tranca e engole a chave” para os ônibus Nasser que iam embora, deixando a cidade mais vazia.

Na Semana Euclidiana eu me apaixonei, na Semana Euclidiana eu sofri — tanto a dor das minhas paixões como a dor por tabela das paixões de outros maratonistas. Na Semana Euclidiana eu fiz grandes amigos, alguns para a vida toda. Amigos de quem a gente anotava os endereços, com número da rua e CEP, para se dedicar ao pré-histórico costume de trocar cartas: pedaços de nosso cotidiano e dos nossos sonhos na forma de folhas de papel rabiscadas, que a gente espalhava pelo país durante o longo ano entre dois agostos.

A Semana Euclidiana foi o nosso Quarup. Um rito de passagem travestido de maratona escolar para alunos aplicados. É claro que deve rolar algo parecido com adolescentes em outros tipos de acontecimentos: excursões, acampamentos, festivais de rock. Algo que fazia a Semana Euclidiana diferente era o fato de as escolas geralmente escolherem os maratonistas entre os estudantes que gostavam de escrever. O que gerava uma alta concentração por metro quadrado de uma molecada que compartilhava da mesma paixão por literatura, poesia, música. Vários eram CDFs (o termo nerd, bem como o glamour torto que passou a acompanhá-lo, viriam depois). Uma gente com um outro jeito de olhar à volta, que não costumava ter muitos amigos com quem falar sobre isso nas suas cidades de origem. A Semana Euclidiana serviu para nos mostrar que não estávamos sozinhos.

Muitos antes que Zé Celso resolvesse encenar Os Sertões, os maratonistas já faziam sua versão antropofágica da cultura euclidiana. Tínhamos o nosso Euclides da Cunha, diferente da figura sagrada dos discursos à beira da Herma. O nosso Euclides era humano, como todos nós. Era o Euclidão, um cara gente boa, nosso parceiro. Euclidão oferecia seu mausoléu para a gente beber, cantar e namorar sobre seus restos mortais. Em seu busto de bronze, Euclidão ria das canções obscenas em que celebrávamos sua história de amor infeliz, depois se oferecia para ser enfeitado com flores e receber os beijos das nossas meninas. E eu sentia que, de algum jeito, essa celebração combinava com a epopeia cheia de vida, plena de sangue e contradições, que Euclidão havia escrito logo ali, na casinha a poucos metros de nós.

Escrevo no passado porque nunca mais voltei a participar das Semanas Euclidianas. Ler as crônicas coletadas aqui pela Rachel me fez mergulhar de novo nesse passado, e agradeço a ela por isso. Conheci Rachel quando já era professora da Maratona Euclidiana, e o que me encanta nela é como consegue levar às aulas o mesmo coração jovem de maratonista. Suas aulas não são transmissão de dogmas, são momentos de descoberta e questionamento. Rachel é daquelas que conseguem ensinar Euclides da Cunha sem esquecer do Euclidão. E é o que ela está fazendo agora, ao reunir histórias que são uma parte da história da Semana Euclidiana, tão fundamental quanto qualquer conferência de encerramento. Obrigado, Rachel. Volta, Euclidão! Ô, fudega!

Caracol

Caracol,
docemente, docemente,
escala o Fuji!

Issa

(tradução de Olga Savary)