Encenação de Édipo Rei na Praça Roosevelt. Assassinato, incesto, suicídio e o ser humano que não pode se considerar feliz até sua atingir o termo da sua vida.

Duas crianças observam, impressionadas:

— Você viu a peça?

— Vi. A moça soltou um monte de balões.

— É. Tão lá no céu. Ali, ó.

O que está comendo

Gente… o que é isso?

Gente.

Digo, o que está comendo?

Gente.

Como assim?

Como, sim.

Como?

Assada.

Gente assada?

Ah, sim.

E gente se come?

Como tudo.

Gente como a gente?

Não. Não como a gente.

Como quem?

Como quem é de comer.

Há gente de comer?

Como há gente que come.

Como você?

Como eu. E como você.

Não como eu.

Como você, sim. Somos do mesmo tipo.

Há tipos de gente?

Tipo os que comem. E tipo os de comer.

E como saber?

Quem come sabe.

Como você começou?

Como todo mundo. No começo.

No berço?

Vem de berço.

Você se fez comendo gente?

Como muita gente por aí.

Mas a gente é feito do que come.

E como.

Como sua carne. Como seus ossos.

Como eu todo.

Você todo.

O que tem?

Foi feito com gente de comer.

Eu sou gente que come.

Feito de quem comeu.

Eu?

Você.

Então sou de comer?

Se gente se come.

Come, não!

Como não?

Bebê que dança e olha pra tudo

Bebê que dança e olha pra tudo.

Os verbos que ela conjuga são essenciais.

Ver. Sentir. Comer. Cagar. Rir.

Amar.

Um amor que tem cor, amor que se come, que se cheira,

amor que faz o coração bater e que vira cocô,

cocô bom de criança

cheio de cor e de cheiro,

que a gente que é pai limpa como se comungasse.

Porque a vida toda é comunhão

para o pai que olha para o mundo,

o mundo de repente novo, todo luz e todo mistério,

que aprendeu dos olhos da filha.

Quero gritar minha Vitória

Outro dia encontrei uma folha de caderno coberta com a letra da minha filha do meio. “Vitória, você que escreveu?” Foi. Vitória Alves da Silva Salvadori. Uma das minhas três rainhas.

Agora eu quero falar, mesmo sem palavras eu quero falar, falar que as coisas não são mais como eram antes, dizer que amar já está sendo complicado, dizer que a vida já está ficando mais complicada. Dizer tudo aquilo que tive medo de falar, e fazer tudo aquilo que tive vontade de fazer, sem medo de ser julgada ou apontada como louca.
Eu quero mais do que posso, quero gritar minha vitória e correr de braços abertos pela rua abrindo um mundo novo de oportunidades para mim. Eu quero ser tudo aquilo que nunca tive coragem de ser.

Choro lágrimas de sangue e vejo pessoas queimando em minha frente. Sei que elas não vão escapar. Ninguém ira escapar de uma morte tão boa quanto essa. As pessoas gritam e por um minuto escuto minha mãe me chamar. Olho para os lados mas não a encontro, então a vejo queimar nas chamas fervorosas do inferno. Choro lágrimas de sangue e no momento sinto que não vou escapar de uma morte tão boa quanto essa. Minha mãe me chama e eu a sigo e queimo com ela nas chamas do inferno.

Hoje não vou dormir em casa, porque a solidão está se ocupando lá por um tempo. Não quero encontrá-la, quero ficar bem longe dela, não quero mais solidão, por isso vou viajar, fazer as malas e espero não encontrá-la lá.

Vitória Alves da Silva Salvadori

Escrever

Antes de escrever, ser.

Um homem que escreve é um homem que existe e que pega objetos com os quais escreve.

Escrever acontece na matéria.