Um tanque de guerra dentro do quarto

galileu revista

Para os cypherpunks, vivemos em um Big Brother mundial sem paredão e sem prêmio. As ações de cada pessoa são espionadas e registradas em enormes depósitos ultrassecretos, graças a uma parceria entre a agência de espionagem norte-americana, a NSA (National Agency Security), e empresas como Google, Facebook, Microsoft e Apple, proprietárias dos sites e dos aparelhos que enchemos diariamente com todos os detalhes possíveis a respeito de nossas vidas. Quando nos comunicamos pela internet ou por telefonia celular, que agora está imbuída na internet, nossas trocas são interceptadas por organizações militares de inteligência. “É como ter um tanque de guerra dentro do quarto”, exagera Assange. A espionagem por parte das autoridades não é feita sobre alvos determinados, como rebeldes, terroristas ou suspeitos de crimes. A tecnologia tornou possível a “interceptação estratégica”, que, por padrão, grava e armazena automaticamente os dados de todas as pessoas que falam ao telefone ou acessam a internet, “porque nunca se sabe quando alguém é suspeito”.

Como evitar que a internet se torne uma ferramenta de opressão é o tema da matéria Pelo direito de fechar a porta do banheiro, que escrevi para a Galileu. A matéria saiu com ilustrações estilosas de Cris Vector. Vale a pena sair da internet e ir para uma banca atrás da revista, que tem boas matérias, como a reportagem de capa, sobre agrotóxicos, o dossiê O segredo da felicidade e um perfil de Chris Ware.

Obrigado, Tiago Mali, que me fez o convite de voltar a escrever para a revista. Obrigado, Alexandre Matias e Rafael Tonon, pela edição e paciência. Obrigado a todos os entrevistados: Jacob Appelbaum, Anahuac de Paula Gil e Alexandre Oliva, que me deu de bandeja o título da matéria. E obrigado, Tiago Soares, pelo tesouro das boas dicas.

“O Esquadrão da Morte está nos levando”

Memorial erguido no Cemitério de Perus (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Memorial erguido no Cemitério de Perus (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Dizem que a ditadura acabou:

Uma das principais “heranças malditas” da ditadura, segundo o relatório da Comissão Municipal, foi deixada na polícia: “a cultura da violência e a aceitação natural da tortura como método de investigação, numa confusão ontológica entre polícia e segurança pública eficazes com o emprego irrefreado da violência e da tortura”.

A política de extermínio do Estado durante o regime miliar foi muito além dos opositores ao regime. Presos políticos que passaram pelo Presídio Tiradentes contam que costumavam acordar de madrugada com os gritos dos presos comuns prestes a serem assassinados pela polícia. “Eles eram tirados de lá gritando: ‘Políticos, políticos, socorro! O Esquadrão da Morte está nos levando’. Os membros do Esquadrão da Morte eram os mesmos que nos torturavam”, contou o militante Clóvis de Castro à Comissão Municipal da Verdade. Comandado por Sérgio Fleury, o Esquadrão da Morte era uma espécie de avô das atuais milícias: um grupo paramilitar formado por policiais que executavam suspeitos de crimes comuns.

A ditadura aumentou a presença militar nas forças de segurança, dando mais poderes às polícias militares e pondo-as sob o guarda-chuva do Ministério do Exército. Em 1969, um decreto-lei do governo federal tirou das ruas as Guardas Civis, substituindo-as pelos policiais militares. As Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) surgiram no ano seguinte, com a missão de executar “ações de controle de distúrbios civis e de contraguerrilha urbana”.

O fim do regime militar não modificou a estrutura de policiamento, nem impediu que a Polícia Militar (PM) se envolvesse em uma série de chacinas que marcariam os anos da redemocratização, como os 111 mortos na Casa de Detenção, no Carandiru, em 1992, e os 21 mortos na comunidade de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, em 1993, além das dezenas de mortes atribuídas a grupos de extermínio como “Os Matadores do 18”, que atuariam na zona norte de São Paulo, e os “Highlanders”, na zona sul.

O maior dos massacres ocorreu em maio de 2006, quando o Estado comandou uma suposta reação aos ataques do crime organizado, que haviam matado 43 agentes públicos. A ação da polícia e de grupos de extermínio encapuzados multiplicou o número de vítimas, que em nove dias chegou a 493 mortos (mais do que a ditadura conseguiu eliminar em duas décadas). “Isso tudo é herança da ditadura”, afirma a jornalista Rose Nogueira, que, como presidente do Condepe, ajudou a montar uma comissão independente que analisou os homicídios de maio de 2006. Para ela, aqueles crimes repetiram o procedimento adotado décadas antes pela repressão política. “Os carrascos da ditadura diziam que, para cada agente do Estado que fosse morto, matariam outras dez pessoas”, conta Rose, que conheceu as torturas do regime autoritário atrás das grades do Dops.

Trecho da reportagem Em busca da verdade, que escrevi para a revista Apartes, da Câmara Municipal, com a coordenação da Maria Isabel e do Sândor e a ajuda dos parceiros Rogério, Gisele, Lívia, Leandro e Elton. Dá para ler o texto aqui.

Como recomendaria o velho Camões

murillo antunes alves

Caricatura de Murillo Antunes Alves

Abaixo, a abertura de um perfil que escrevi para a revista Apartes, da Câmara Municipal, sobre Murillo Antunes Alves, um dos jornalistas mais importantes da era de ouro do rádio, que entrevistou de Monteiro Lobato a Getúlio Vargas. Nesses dois parágrafos, tentei imitar o estilo dos locutores daquela época. “Parece o meu pai falando”, disse Beto, o filho do Murillo, ao ler o texto — um comentário que me deixou feliz.

Cheguei a fazer uma versão da reportagem escrita inteirinha nesse estilo, mas  quem leu concluiu que não dava para aguentar mais de dois parágrafos desse palavrório. Para sorte dos leitores, o restante do texto ficou mais prosaico.

Amável leitor, quisera o autor da presente reportagem, que narra tempos idos e vividos da existência de Murillo Antunes Alves, emular o estilo daquele jornalista, cerimonialista e vereador. Para tal, tornar-se-ia necessário abrir mão da roupagem contemporânea e empregar palavras de sobrecasaca e gravata preta, como as que abrem esta narrativa. Seria a forma ideal de homenagear Murillo, figura que brilhou no firmamento do jornalismo como uma das estrelas dos tempos primevos do rádio e da televisão, e modo seguro de trasladar o leitor de volta ao tempo dos comunicadores bacharéis, que traziam nas mãos gravadores de arame e o português mais castiço na ponta de suas línguas.
Não obstante, falta a este escriba “engenho e arte”, como recomendaria o velho Camões. E, mesmo que os houvesse, o resultado haveria de aparecer como um espetáculo sobremaneira enfadonho aos olhos hodiernos. Destarte, urge abrir mão de todo o preciosismo dos tempos idos, sob o risco de enfastiar o amável leitor a ponto de afastá-lo da leitura. O que seria uma pena, já que vale a pena conhecer Murillo Antunes Alves. Leia tudo.

Coisa forte

viralataemacao

Era para aquele universo que os dois haviam sido chamados a produzir um gibi. E não qualquer gibi. Tinha que ser uma história poderosa, capaz de convencer os detentos a trepar de camisinha e largar de mão o pico na veia. Uma história em quadrinhos que ajudasse a reduzir a epidemia de AIDS do maior presídio da América Latina — era a missão de Magrão e Libero.

Tinha que ser “coisa forte”. E isso eles tinham. Desde 1991, quando publicaram a primeira história do Vira-Lata.

Trecho de reportagem que escrevi para o site da Vice. Boa de apurar, boa de escrever. Deve ter ficado boa de ler.

Quilombos de palavras

Matéria que escrevi para a Revista do Parlamento Paulistano, da Câmara Municipal de São Paulo, um trabalho muito bom de fazer, por causa da ajuda dos amigos e guerreiros Elton, Gisele, Leandro, Lívia, Rodrigo, Rogério, Sândor  e, claro, nossa comandante Maria Isabel.

Saraus levam a periferia para o centro da cultura

Tubardao DuLixo

Texto de Tubarão DuLixo em arte de Rogério Alves

“Vai trabalhar, negrinha! Essa menina vive com o caderno na mão. Olha a vassoura, vai lá limpar. Você sonha muito alto. Desde quando negro vai ser escritor?” Era o que as patroas viviam dizendo para Tula Pilar Ferreira, que trabalhava como doméstica desde os oito anos. Quando as madames saíam, Pilar largava a vassoura e corria para as estantes dos patrões: lia todos os livros que encontrava e depois saía a cantar e a dançar pelos corredores da casa. “Eu cresci com essa arte oculta”, lembra.

A arte que Pilar trazia oculta desde pequena veio à luz em 2002, quando pela primeira vez colocou os pés numa novidade: um sarau de poesia que rolava ali na sua quebrada , em Taboão da Serra (Grande São Paulo), feito pelos próprios moradores da comunidade. Era o Cooperifa, criado um ano antes pelo poeta Sérgio Vaz — e que no ano seguinte mudaria para o Jardim São Luís, na zona sul da capital, onde está até hoje. O encontro deu a chave para Pilar nascer como poeta. Passou a escrever e declamar seus poemas pelos saraus afora, e, de verso em verso, já publicou um livreto, Palavras inacadêmicas. “As palavras que cuspo estavam entranhadas dentro de mim”, conta Pilar, que se define como “mãe de três filhos, poetisa e 29 anos para sempre”.

Pilar não está nada oculta nesta noite de 5 de setembro de 2012, diante da plateia do Sarau da Ocupa, uma das dezenas de saraus da periferia que, após a iniciativa pioneira do Cooperifa, passaram a pipocar em todas as regiões da cidade. O microfone está aberto para quem quiser falar, como é de lei nos saraus. Na sua vez, Pilar declama, com a voz e com a dança do corpo, um poema sobre sua avó escravizada: “Tenho no sangue, na ancestralidade, gente que foi escrava de verdade. Minha avó, chicoteada aos doze anos de idade. Apanhou por rebeldia, desobediência. Sinhá não teve piedade, somente maldade. Inconsciência. Então rufem os tambores e batam palmas. A africanidade está cravada em minha alma…” O poema é saudado com aplausos, o único cachê dos poetas de saraus.

Sem-teto leem poemas no Sarau do Ocupa

Sem-teto leem poemas no Sarau do Ocupa (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Atualmente, pelo menos 20 saraus ocorrem todo mês na periferia paulistana, organizadas pela mesma gente que os patrões de Pilar achavam que nunca seria capaz de escrever. Os dados aparecem na Agenda Cultural da Periferia, publicada pela ONG Ação Educativa, que também inclui eventos como o Sarau da Ocupa — que, mesmo ocorrendo na Avenida São João, em pleno centro de São Paulo, também é considerado um evento periférico por ocorrer num prédio ocupado por famílias sem-teto da Frente de Luta por Moradia, ameaçadas de despejo por conta de uma ação de reintegração de posse. “Nós somos a periferia do centro, porque estamos cercados de tudo e não temos nada”, afirma o educador popular Ruivo Lopes, 33 anos, responsável pelo sarau. Natural da parte pobre da Baixada Santista, Ruivo conheceu cedo a vida entre cortiços e despejos e, ao engajar-se na luta dos movimentos de moradia, decidiu adotar a cultura como arma de luta. “Com os saraus, as senzalas tomaram de assalto a literatura, que até então era feita na casa-grande”, analisa.
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“Sarau é cidadania”

binho

Na hora da cerveja / Eu pinga / Na hora de Guantanamo / Eu Cuba libre / Na hora de guerrear / Eu Dalai Lama, proclamam os versos do poeta Robson Padial, o Binho. Ele é autor de dois livros — Postesia e Donde miras – dois poetas e um caminho (com Serginho Poeta) —, mas sua obra mais famosa é o sarau que criou há oito anos em seu bar na zona sul de São Paulo. O bar foi fechado em maio pela Subprefeitura de Campo Limpo, por falta de licença de funcionamento. Na hora de desistir, Binho continuou: por meio de uma ação de financiamento coletivo na internet, levantou dinheiro para pagar os R$ 9 mil em multas do bar e continuar com o sarau, agora em versão itinerante.

Como surgiu o sarau do Binho?

Binho: A gente tinha a Noite da Vela no bar. Ficava à luz de vela e botava uns bolachões para tocar. Entre um vinil e outro, alguém pedia para recitar um poema. A poesia entrou aos poucos no espaço. Numa dessas noites, eu falei: a gente podia colocar poesia em poste. Era época de eleição, e a gente retirava as placas dos políticos dos postes, pintava e devolvia com poesia. A partir do Postesia, fomos conhecendo outros poetas. Antigamente a gente só conhecia os poetas mortos. Aí conhecemos os poetas vivos, que estavam por aí, perambulando.

Como você define um sarau?

Binho: Sarau são encontros humanos. O sarau engloba tudo. É um exercício de cidadania e tolerância. Pega as pessoas das mais diferentes divisões sociais: um que gosta de samba, outro de rock, outro de rap, e no sarau um ouve o que o outro tem a dizer. A gente vai desconstruindo os preconceitos. Isso é uma coisa bacana do sarau: estar atento para ouvir o outro. O sarau consegue congregar cultura popular, maracatu, um que quer passar um vídeo, outro que quer contar uma piada, um outro que só quer se colocar ali na frente. É um se colocar no mundo: eu faço parte, eu tenho valor. É uma nova escola. Um novo jeito de estudar, de buscar e absorver a informação que está sendo falada.

Por que o seu bar foi fechado?

Binho: Eles alegaram que era por falta de alvará de funcionamento . Não tem sentido. Um bar que faz poesia tinha que ser um patrimônio público. Tinha que ser tombado, não fechado. A gente não compactou com a política daqui, não quis pendurar a faixa do político. Ninguém do comércio daqui tem alvará. A gente não se sujeitou a algumas coisas e pagou por isso.

Onde o sarau acontece hoje?

Binho: O sarau é itinerante. Estamos indo a outros lugares, somando com outros espaços que têm iniciativas culturais. Antes acontecia uma vez por semana, agora é uma vez por mês. É uma perda grande pra cidade de São Paulo. O sarau para existir não precisa de um espaço, mas você perde uma referência importante sem ele. Perde a memória, a relação com a comunidade. Agora ficou mais difícil. Temos que ficar divulgando, avisando as pessoas quando vai acontecer. Mas a gente vai continuar fazendo do mesmo jeito.

Muita gente apoiou vocês?

Binho: Muita gente. Tivemos apoio de fora do Brasil. Gente da Argentina, México, Inglaterra. O povo legitimou nossa luta, até financeiramente, contribuindo para pagar as multas do bar. Quem devia dar o alvará para o funcionamento era o povo, e ele deu. O poder perdeu.

Por que a periferia precisa dos saraus?

Binho: A imagem da periferia chega distorcida. Até para quem vive aqui, parece que a periferia é o que está na tevê. Se a gente não perceber, vai reproduzir o que o Datena diz que é a periferia. E a periferia é muito maior do que a tevê mostra. O sarau também serve para abrir os nossos olhos para essa consciência mais crítica da nossa realidade.

Poeta é “infrator”
A Secretaria de Coordenação das Subprefeituras defendeu o fechamento do bar de Binho e disse que o poeta é um “infrator” que mantinha um bar “em uma área de zoneamento que não permite a realização deste tipo de atividade”. “Ressaltamos que não se trata de nenhum ato arbitrário, mas sim o cumprimento às obrigações destinadas à administração municipal”, afirmou, em nota.

Dizem que ela existe pra proteger

Reportagem que fiz para a Revista Adusp número 53, capitaneada pelo parceiro Pedro Pomar, que discute o papel da Polícia Militar. Histórias tristes de morte e opressão, histórias bonitas de resistência e compaixão.

Daniel teve o filho assassinado pela PM (foto Sônia Pinheiro)

“A notícia é a pior possível”, disse o chefe dos enfermeiros. Ao entrar no Hospital Regional de Osasco, o eletricista Daniel Eustáquio de Oliveira, 50 anos, sabia apenas que seu filho, César Dias de Oliveira, 20 anos, havia sido baleado quando voltava para casa dirigindo a motocicleta que comprara dez dias antes. Assim que ouviu as palavras do enfermeiro, porém, Daniel entendeu tudo. “Meu filho está morto”, disse. “Está”, confirmou o enfermeiro. Daniel começou a chorar. “Mas como?”, perguntou. “Cinco tiros”, foi a resposta. “Esses ladrões sem vergonha, além de tentar roubar meu filho, ainda mataram ele com cinco tiros”, desabafou. O enfermeiro o corrigiu: “Foi a polícia que matou seu filho”. Daniel parou de chorar na hora. Na saída, olhou para o grupo fardado de policiais militares na entrada do hospital e fez uma promessa: “Eu vou provar que vocês mataram um inocente”.

No dia 1º de julho, o filho de Daniel e o amigo dele, Ricardo Tavares da Silva, também de 20 anos, que estava na garupa da moto, entraram para a lista de 182 pessoas mortas pela Polícia Militar na cidade de São Paulo nos sete primeiros meses do ano, período em que a Secretaria da Segurança Pública registrou um total de 907 homicídios. Os números mostram que, a cada cinco pessoas assassinadas no município, uma foi vítima da polícia. Denúncias de abusos envolveram várias destas mortes, entre elas a do publicitário Ricardo Prudente de Aquino, baleado após fugir de uma abordagem policial, em 19 de julho. Três PMs foram presos pelo crime, que teve mais repercussão na mídia do que todos os demais, por envolver uma vítima que fugia ao padrão habitual de jovens negros e pobres da periferia.

Na mesma época em que Daniel, os dois Ricardos e tantos outros eram mortos, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovava a recomendação de abolir a Polícia Militar como forma de combater a violência do Estado brasileiro. Foi em 30 de maio, quando o Brasil passou pela Revisão Periódica Universal do Conselho, uma espécie de prova à qual todos os países são submetidos. Na ocasião, o governo da Dinamarca sugeriu “abolir o sistema separado de polícia militar” com o objetivo de “reduzir a incidência de execuções extrajudiciais pela polícia”.
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As taras, digo, tiras de Andrício

Capa da coletânea de tiras do André: prefácio de Allan Sieber

Foi ele quem aprimorou a qualidade da prosa de Dostoiévski, ao aconselhar o velho russo a deixar de confiar no corredor do Word. Não fosse por ele, em vez de A Banda, Chico Buarque teria composto A Bunda, lançando o axé nos anos 60. Passagens como estas da pitoresca biografia de Andre Cintra de Souza, o Andrício, faziam parte de seus blogs Eu não sou virgem, Maria! e Eu não sou mané, Garrincha!, que ele mantinha quando nos conhecemos, há quatro anos. Eu gostava dos dois sites, mas acho que o fã-clube do cara não tinha muitos outros membros além de mim. O trabalho do André só ficou conhecido quando ele resolveu adicionar um traço vagabundo de caneta azul ao seu texto e criou as tiras do Andricio de Souza.com.

As tiras vão agora sair em livro: As 100 primeiras e melhores tirinhas de Andrício de Souza, pela editora Multifoco, com prefácio de Allan Sieber. Andrício está fazendo tanto sucesso que não tem mais tempo para os amigos. Tive que encher muito o saco dele e aceitar várias propostas indecorosas até que Andrício aceitasse me ceder dez minutos da sua concorrida agenda de jornalista desempregado para uma entrevista.

Como uma das condições exigidas por Andrício em troca da entrevista era que eu elogiasse o livro, mesmo sem ler, aí vai. Sim, vale a pena comprar As 100 primeiras e melhores tirinhas de Andrício de Souza. Por dois motivos. Para começar, Andrício tem o olhar de um moleque. Um moleque que sabe fazer a gente rir com o que encontra de mais ridículo por aí, que tanto podem ser uma versão putaria do Jokenpô como a postura de um prefeito que pensa em criminalizar sopões para moradores de rua. Ao mesmo tempo, é um moleque que sabe escolher seus alvos e tem suficiente noção para mirar seu estilingue nas vidraças das coberturas, em vez de acertar as janelas dos barracos.

O outro motivo é pessoal. Se o livro der dinheiro, André finalmente poderá pagar um tratamento psiquiátrico para a sua estranha mania de se deixar fotografar com cachorros de estranhos que conhece na rua. Por isso, amigos, peço que colaborem. Comprem o livro. Não conheço causa mais nobre.

Andrício pratica seu vício grotesco (ele é o que está sem coleira)


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Crime capital

Ao meio-dia, num matagal próximo ao Centro Olímpico da Universidade de Brasília (UnB), um dos policiais, Antônio Morais de Medeiros, resolveu sentar-se e rezar. Sua oração foi interrompida pela chegada de um rato, que passou por ele e entrou em uma toca que parecia ter sido mexida há pouco. Com um pedaço de pau, o agente revolveu a terra e encontrou Ana Lídia Braga: nua e morta, enterrada em uma vala rasa do cerrado brasiliense, a mil metros da Praça dos Três Poderes.

Os peritos calcularam que a criança havia sido assassinada de madrugada, por asfixia, entre 4h e 6h daquele 12 de setembro de 1973. Os cabelos haviam sido cortados de forma irregular, a pele estava coberta por hematomas e escoriações e os ferimentos nas partes íntimas indicavam que ela havia sido estuprada depois de morta.

Ali, junto ao corpo de Ana Lídia, ao lado de duas camisinhas usadas e das mechas de cabelo misturadas com a terra, morria o sonho de uma Brasília ideal. Uma Brasília que ainda se via como uma jovem capital modelada com as curvas da utopia de Oscar Niemeyer, um sonho de modernidade construído por brasileiros de todos os lugares — ainda que as ações de expulsão da gente pobre do Plano Piloto para as novas cidades-satélites já dessem mostras de que a nova metrópole não seria assim tão diferente das outras.

Para Joelma Rodrigues da Silva, doutora em história pela UnB, o sequestro, estupro e morte de Ana Lídia significou “uma outra inauguração de Brasília”, que mudou o significado da capital para os seus habitantes, destruindo as ilusões de uma cidade melhor do que as outras. “Brasília não era mais um lugar para começos, não era o lugar do futuro, era um lugar como outro qualquer, com os mesmos demônios, os mesmos perigos, os mesmos riscos. O estupro-assassinato inaugura uma cidade onde também se eliminam inocentes”, afirma.

Trecho da reportagem que escrevi para a Revista Joyce Pascowitch de junho, sobre Ana Lídia, menina de sete anos morta e estuprada nos primeiros anos de Brasília, num crime que destruiu as ilusões que a capital tinha de si mesma. Uma história muito triste.

Histórias por contar

Chegou a hora. Comissões da verdade começam a exumar corpos e histórias. Promotores do Ministério Público e grupos de escracho relembram velhos crimes nunca punidos. Crimes da ditadura: quem foram suas vítimas? Já ouvi dizer por aí que a violência do regime só atingiu um determinado número de militantes políticos, jornalistas, universitários e sindicalistas, enquanto a maioria da população passou ilesa pelo período 1964-1985, mal notando que vivia sob uma ditadura. Todo mundo tem aqueles tios que contam que o governo dos militares foi bacana com eles e que nunca tiveram qualquer problema com os agentes da repressão. Mas há muita gente que pode ter histórias diferentes para contar.

Escrevendo uma reportagem para a Revista Adusp, fiquei impressionado ao falar com gente de Buriti Cristalino, povoado no sertão baiano onde o capitão Carlos Lamarca foi executado, e ouvir que ali a operação dos militares em busca do guerrilheiro deixou uma herança de dor e medo que continua a perturbar seus moradores até hoje. Aqui um trecho da matéria:

De uma hora para outra, o povoado de 200 habitantes viu-se invadido por 215 homens das três Forças Armadas, além de policiais federais, civis e militares. Invadiram a casa da família Barreto, onde mataram Otoniel e Santa Bárbara, além de balear Olderico. Durante dias, o chefe da família, José Barreto, foi torturado diante da população para contar onde seu filho Zequinha estava escondido com Lamarca. Zé Barreto era o “juiz de paz”, a principal autoridade moral do povoado. Havia construído a igreja e a escola, era em sua casa que as noivas se vestiam para o casamento e era seu Zé quem trazia o padre a Buriti para celebrar as festas religiosas. “Imaginem o que foi para a população ver aquele homem sendo torturado em praça pública”, comenta Aparecido.(…)

Mesmo após a democratização, a herança do medo deixado pela presença militar continuou a ser manipulada pela elite política local. “Um soldado que havia colaborado com os militares durante o cerco a Lamarca conseguiu eleger a mulher vereadora por vários mandatos, ameaçando: ‘Se não votarem nela, eu chamo o comando de volta’”, contou a cineasta Maria das Graças Sena (…). Até hoje, segundo ela, alguns moradores se recusam a receber agentes de saúde em casa e deixam de levar os filhos para receber vacina.

Dá para ler o resto aqui. Aproveite e veja também as matérias sobre as consequências sociais da Copa e dos Jogos Olímpicos, a perseguição aos extrativistas da Amazônia, o desmonte da TV Cultura e outras mais. Todas histórias que precisam ser narradas.