Histórias para viver

Do livro As narrativas preferidas de um contador de histórias, de Ilan Brenman.

Carne de língua (conto africano)

Há muito, muito tempo, existiu um rei que se apaixonou perdidamente por uma rainha. Depois do casamento, a rainha foi morar no castelo do rei, mas assim que pisou lá, misteriosamente ficou doente. Ninguém sabia o que tinha, ia definhando a cada dia. O rei, que era muito rico e poderoso, mandou chamar os melhores médicos do mundo. Eles a examinaram, mas não encontraram a causa de sua doença. O rei, então mandou chamara os curandeiros mais famosos do mundo. Fizeram preces, prepararam poções e magias. Também não adiantou nada. A rainha emagrecia diariamente, dali a pouco desapareceria por completo.

O rei, que amava sua esposa tão intensamente, decidiu:

— Eu mesmo vou procurar a cura para a doença da minha rainha.

E lá foi ele procurando a cura para sua rainha. Andou por cidades e campos. Num desses campos, avistou uma cabana.

Aproximou-se, colocou o rosto perto da janela e viu, lá dentro, um casal de camponeses. O camponês mexia os lábios e, na frente dele, a camponesa, gordinha e rosadinha, não parava de gargalhar. Os olhos daquela mulher transbordavam felicidade.

O rei começou a pensar:

— O que será que faz essa mulher ser tão feliz assim?

Com essa pergunta na cabeça, o rei respirou fundo e bateu na porta da cabana.

— Majestade! O que vossa alteza deseja? — perguntou o camponês um pouco assustado com a presença real na sua frente.

— Quero saber, camponês, o que você faz para sua mulher ser tão feliz e saudável? A minha rainha está morrendo no castelo, toda tristonha.

— Muito simples, majestade. Alimento a minha mulher todos os dias com carne de língua.

O rei pensou que tinha ouvido errado: CARNE DE LÍNGUA! O camponês repetiu:

— Alimento minha esposa diariamente com carne de língua.

A situação era de vida ou morte. O rei, mesmo achando aquilo meio estranho, agradeceu ao camponês e foi correndo para seu castelo. Chegando lá, mandou chamar imediatamente à sua presença o cozinheiro real:

— Cozinheiro, prepare imediatamente um imenso sopão com carne de língua de tudo o que é animal vivente na terra.

—O que?! Como assim vossa alteza? – perguntou o cozinheiro, com um ponto de interrogação no rosto.

—Você ouviu direito! Carne de língua de todos os animais do reino! Corra, porque a rainha não pode mais esperar.

O cozinheiro foi chamar os caçadores do reino. Depois de algumas horas, já tinha na sua frente língua de cachorro, gato, rato, jacaré, elefante, tigre, girafa, lagartixa, tartaruga, vaca, ovelha, zebra, hipopótamo…

O imenso sopão ficou pronto no meio da noite. O próprio rei foi alimentar a sua rainha com carne de língua. Entrou no quarto e ficou espantado com a aparência de sua amada esposa. Sentou-se ao seu lado, pegou uma colher do sopão e a aproximou da boca da rainha. Com muito esforço, ela engoliu algumas colheradas do sopão.

O rei esperou, esperou e esperou, mas a rainha não melhorava, muito pelo contrário, parecia que a morte a levaria a qualquer momento. Um desespero tomou conta do rei. Se não fizesse algo, a rainha iria embora para sempre.

— Soldado! Soldado! — gritou.

Um imenso homem, com armadura e espada, entrou no quarto.

— Escute bem, soldado. A rainha tem que ser transferida imediatamente para a casa de um camponês. Lá você encontrará uma mulher gordinha e rosadinha, que você a traga até aqui.

O rei explicou ao soldado onde ficava a casa desse camponês. Essa era a única chance, ele imaginava, de a mulher sobreviver.

Talvez ele não tivesse entendido direito o que o camponês lhe dissera.

— Corre, corre, soldado! A vida da rainha depende disso!

O soldado pegou a rainha no colo e com a ajuda de outros homens saiu em disparada até a casa do camponês. A troca foi feita e, assim que a camponesa entrou no castelo do rei, ficou doente misteriosamente. Depois de t rês semanas, a camponesa, que era gordinha e rosadinha, estava magra e triste. O rei, então, decidiu ver como estava a sua rainha.

Chegando na cabana, pôs o rosto na janela e…Não podia ser! A rainha estava gordinha, rosadinha e gargalhava como nunca tinha visto antes. Na frente dela, o camponês não parava de mexer os lábios. O rei bateu à porta:

— Majestade, você novamente aqui. O que vossa alteza deseja?

— Camponês, o que esta acontecendo!? A sua esposa está morrendo no meu castelo e a minha está toda feliz saudável aqui na nossa frente.

— Me diga você, alteza, o que você fez?

—Fiz exatamente o que moce mandou. Dei carne de língua de cachorro, gato, sapo, coelho, girafa… para minha rainha e para sua esposa também. Mas, camponês, nada adiantou.

— Majestade, você não compreendeu o que eu disse. Eu alimento a sua rainha e a minha esposa com carne de língua, que são as histórias contadas pela minha língua.

O rei pensou um pouco sobre aquelas palavras. Lembrou-se também dos lábios do camponês mexendo. Parecia que agora havia entendido. Chamou a sua rainha de volta e devolveu a camponesa para sua casa. Assim que a rainha entrou no castelo, o rei prometeu que daria todas as noites, antes de dormir, carne de língua.

A partir daquele dia, contam os quenianos, o rei contava uma história diferente todas a s noites. E os quenianos nos revelaram que nunca mais essa rainha ficou doente. E esse povo africano ainda nos revela mais um segredo: as histórias fazem muito bem para as mulheres, crianças, jovens, homens e até mesmo para os reis.

Anúncios

Um doce ruído
interrompe meu sonho:
gostas de chuva sobre a folhagem.

Bashô

(tradução de Olga Savary)

Libertação

Libertação, excarceração, livrança, livramento, soltura, delivramento, delivramento, restituição à liberdade, sursis, anistia, livramento condicional, alforria, emancipação, manumissão, abolição, abolimento, abolicionismo, tiranicídio; liberação, abertura; liberalização, flexibilização;
redenção, resgate, remissão, rendição, absolvição; escapula;
desobrigação, desoneração, desopressão;
13 de Maio, Lei Áurea, habeas corpus, mandado de soltura, mandado de segurança, carta de alforria;
abolicionista, antiescravista, antivescravagista, negrófilo, manumissor, libertador, tiranicida, antidéspota, redentor, libertador, resgatador, alfaqueque, d. Isabel, a Redentora, desopressor, zadona (ant.).
V. libertar; desoprimir; desopressar; livrar; absolver;
dar/restituir à liberdade; pôr a salvo, tornar livre & adj., aliviar os ferros, romper as algemas;
desatar/ desaferrolhar cadeias/ grilhões; excarcerar; desacorrentar; descravizar; desalgemar;
desatar, tirar as cadeias;
quebrar/ sacudir grilhões; deprender das algemas, pôr em liberdade, redimir, remir, resgatar, alforriar, forrar, aforrar, dar alforria a, pôr na rua, manumitir, delivrar, dar rédea larga, dar rédeas soltas, desencarcerar, desenxovar, desencerrar, desengaiolar, desajoujar, desafogar, desenjaular, desencurralar, desencapoeirar, desentalar, desatrelar, desaferrolhar, desencadear, desencabrestar, desemparedar, desimpedir, desprender, largar, soltar, desencochar, despear, soltar o freio a alguém, desbridar, descativar, dessubjugar, relaxar da prisão, despedaçar os laços, desenclaustrar, desenlear; desjungir, desaçaimar, desentaipar, desembaraçar, desemaranhar, libertar-se, sacudir o jugo, desfazer-se dos laços, alcançar a carta de alforria, obter habeas corpus, sair do cativeiro, livrar-se de;
recuperar, conquistar (a liberdade); resgatar-se rebentar as algemas, arrançoar-se, fugir, escapulir;
liberalizar, liberar, flexibilizar, desobrigar, desvincular, descontingenciar, descondicionar.
Adj. libertado & v.; desafrontado, desoprimido, forro, liberto, orcino, libertador, libertário, libertivo, livrador, redentor, salvador, resgatador, remissor, remissório, desopressor, livre, solto, redimido, remido, liberado, desobrigado.
Interj. Independência ou morte!
FRASE: Libertas quæ sera tamen (melhor seria que se dissesse: libertas quamvis sera. O lema dos conjurados mineiros atenta contra a gramática e não tem sentido algum.)

(Dicionário analógico da língua portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo)

Quem me dera
um mapa de tesouro
que me leve a um velho baú
cheio de mapas de tesouro.

Paulo Leminski

Os exilados da democracia

liberdade_de_expressao

Em 13 anos de experiência de cobertura da segurança pública, o repórter da Folha denunciou a existência de sete grupos de extermínio formados por policiais. Por causa disso, acumulou processos por “calúnia e difamação” de agentes que se sentiram atingidos. Não foi condenado em nenhum deles, mas viu o time de desafetos crescer. Para Caramante, as ameaças contra ele e a família partiram de simpatizantes de policiais como esses.
“Foram feitas ligações anônimas à redação da Folha dizendo que sabiam onde eu moro, onde fica a escola de meus filhos e que a ‘nossa hora’ estava para chegar”, conta. “Além disso, postaram uma foto do diretor de redação do jornal, Sérgio Dávila, como sendo eu. Entendi como um recado também à direção da empresa de que o cerco de apertava. Então, em comum acordo com o jornal, se decidiu que eu deveria trabalhar à distância.”
A estratégia durou menos de três semanas. Caramante e a Folha concluíram que não era seguro permanecer na cidade. No dia 11 de setembro, o repórter, a mulher e os dois filhos — um com menos de 2 anos e a outra com menos de 5 — embarcaram para Nova York. (…) Lá fora, embora se sentindo em segurança, o casal de jornalistas descobriu que a democracia brasileira produz exílios.

A história de André Caramante, Mauro König e outros jornalistas exilados pela ação de agentes do Estado brasileiro está na reportagem Compromisso de risco,da Revista de Jornalismo ESPM-CJR.  Escrita por Milton Bellintani, a matéria traz informações como esta:  “Nesses 20 anos, em plena democracia, houve o dobro de execuções de jornalistas do que na ditadura 1964-1985”. Leia aqui a matéria toda aqui. E me diga se não dá vontade de agir para mudar tudo isso. Bora?

Sobre o sino do templo
repousa e dorme
a borboleta.

Buson

(tradução de Olga Savary)

Religiões diferentes

“Árvore da Vida”, de Gustav Klimt

Sem dúvida, cada tradição espiritual tem suas diversas escolas e Linhas, assim como na Terra, embora quanto mais adiante se prossiga na hierarquia do Céu, mais próximas as Linhas se encontram, em princípio, até não se diferenciar entre o místico sufi e o budista, entre o hindu e o cristão. Nesse nível, muito pouco separa o mago do gnóstico, o maçom do xamã. Aqui o Ensinamento é o mesmo, enquanto a forma se dissolve em conteúdo e significado essencial.

Podemos perguntar por que existem tantas religiões diferentes, se há apenas um Ensinamento verdadeiro; o qual, observamos na história da humanidade, é reivindicado por esta ou aquela seita como possuidoras da única versão. A razão disso é testemunhada pelo fato de que essa dissensão é encontrada apenas nos níveis mais baixos de compreensão, onde uma multiplicidade de visões geradas por condições físicas e sociais expressa uma lei universal — que quanto mais distante se está da origem da realização, mais localizada e particular será a apreensão da realidade total. Uma visão total só é encontrada quando se está em união com o divino, onde nenhuma separação ocorre. Contudo, este é um estado supremo de evolução, e entre o primeiro e o último passo do caminho espiritual existem muitos degraus e desvios. Por isso existem tantas portas no mundo comum. Estão ali para colocar um explorador em contato com outros no Caminho.

Z’ev ben Shimon Halevi, Escola de Kabbalah

Caracol

Caracol,
docemente, docemente,
escala o Fuji!

Issa

(tradução de Olga Savary)

Pilantropia do caralho

O MENELICK 2º ATO

Um exemplo fornecido por Sérgio Franco exemplifica como o grapixo pode incorporar em sua estética aspectos críticos e criatividade sem abrir mão da transgressão. Um grupo de grafiteiros/pixadores foi contratado para cobrir a agência de um banco famoso [o BankBoston] localizado numa região nobre de São Paulo. A ação seria capitaneada como um exemplo de inclusão, tolerância e contemporaneidade por parte do banco. No decorrer dos trabalhos, um artista colocou frases totalemtne legíveis aos não iniciados no universo da pixação que remetiam a ideias como povo e pobreza. Funcionários do banoc advertiram o artista e solicitaram que ele continuasse a fazer desenhos ou se utilizar de uma lingaugem mais abstrata. O artista, contrariado, seguiu a orientação e escreveu em letras no estilo codificado da pixação, o que passou despercebido para os funcionários do banco: “Pilantropia do caralho desse banco de bosta.”

Do artigo Transgressão e Arte: o Brasil e o seu lugar na street art global, de Márcio Macedo (Kibe), publicado em O Menelick 2º Ato, uma revista de cultura negra muito bacana.

Tranquilo e sereno

Jagunço Louro

Todo mundo sabe que os sertanejos são mirrados, raquíticos, enfezados. E a única fotografia de canudense vivo que tem é essa. É um homem enorme, espadaúdo, mais alto que os soldados, e louro de olhos verdes. Euclides chama ele de o Jagunço Louro. Eu compararia esta foto [de Flávio de Barros] com essa foto da Maureen Bisilliat, do encourado, e chamaria a atenção. Esse cara está à morte. Ele vai ser degolado em seguida — e foi mesmo. O Euclides da Cunha, muita gente assistiu esse tal de Jagunço Louro. E ele não está humilhado, não está com medo. Se está com medo, sabe superar o medo e não se percebe que ele esteja aterrorizado porque vai morrer em seguida. E eu o aproximo da serenidade do encourado desta foto. Quer dizer, uma pessoa que está tão habituada a enfrentar durezas na vida — mas durezas mesmo, aquela natureza hostil, agressiva, que quer acabar com qualquer forma de vida — que ele é tranquilo e sereno.

A mestre Walnice Nogueira Galvão falando sobre as fotos do sertão, a natureza dura e a dureza da natureza humana, num belo vídeo do Instituto Moreira Salles. Algumas dessas imagens estão em exposição no Museu Afro Brasil, lá no Ibirapuera.