Idades

As sete idades das mulheres, de Hans Baldung

As sete idades das mulheres, de Hans Baldung

À beira da fogueira, a moça disse:

“Uma vez ouvi me falaram: ‘não somos mais crianças’. Eu, não. Eu fui feto e sou feto. Eu fui criança e sou criança. Eu fui adolescente e sou adolescente. Eu serei velha e continuarei a ser tudo isso. Quando você deixa alguma dessas identidades de lado, você está se subtraindo. Você se diminui. Reconhecendo que continuo a ser o que eu fui, eu posso usar na minha vida a alegria da criança, a energia do adolescente… Essas forças continuam presentes em nós. Se eu não as reconheço em mim, elas vão me usar sem que eu perceba. Vou acabar sendo infantil quando devia ser adulta, ou agir como adulto num momento que exigia a energia de um adolescente. Eu preciso reconhecer que sou nenê, que eu não me basto, que eu preciso de uma teta para me sustentar, para me alimentar. Se eu não percebo isso, vou acabar me encostando em qualquer teta errada por aí.”

Trechos de um diário de viagens pela minha cabeça

corto-maltese

Desenho de Hugo Pratt, um cara que entendia de tudo quanto é tipo de viagem

Revendo anotações do ano passado enquanto entro devagar, devagarinho em 2013.

2/4
Se não for o medo, se não for a pena (pena que começa com autopiedade para depois chegar à tão almejada pena dos outros por você)… se não for nenhum desses caminhos, o que sobra? A vida. A vida, ela. Sem desculpas, justificativas, fatalismos. A vida.
(mais…)

Feliz ano novo

pai tempo

De manhã, sozinho no meu apartamento alugado, sentei no pufe colorido à beira da janela e olhei para a rua, vazia como ainda não a tinha visto desde que mudei para cá. Uma ou outra pessoa de branco, andando devagar. Passavam tão poucos carros que até o som de um bem-te-vi era mais alto do que qualquer outra coisa. A obra em frente estava parada, supermercados 24 horas estavam fechados, bares que nunca fecham estavam fechados. É O Dia em que a Terra Parou, e acontece uma vez por ano.

Pode parecer bobo esse lance de ciclos, de eleger um dia entre outros para marcar finais e recomeços, sendo que a vida continua aí, acontecendo à revelia do calendário. É que a gente precisa disso. Os ciclos, os rituais de recomeço servem para a gente enxergar o novo que existe em cada instante. Dormir e acordar, morrer e renascer, Ano Novo, Ano Velho. É para libertar a gente do passado, da carga de culpas e desculpas, repetições e padronizações que o passado nos traz, e poder olhar de olhos abertos para o dia que está aí na sua janela: um dia diferente de todos os demais, um sol como nunca houve outro. Sonhos, oportunidades, dores e amores como você nunca conheceu, e que estão aí, esperando por você.

Feliz ano novo. Feliz dia novo. Feliz instante novo. Que tudo é novo. Sempre.

Questão de jeito

É hora de aprender um jeito novo de usar as palavras. A fala precisa de pés na ação para ter força. Notar quando é hora de falar. Notar quando é hora de calar. Com a mesma precisão, encontrar palavras que se encaixem em sequências e sequências que de algum modo participem da vida em movimento. “Palavras como necessidades, não como preciosidades”, ouvi um dia. Palavras que dancem com a verdade.

A verdade: uma dança que gira sem parar, acompanhando o pulso. A verdade: um coração. Sangue, músculo e movimento. A verdade: um tambor. Madeira, couro e ação. Sem parar.

A delicadeza do concreto

Ouvindo um engenheiro, para um trabalho que estou tocando, ele falou sobre a delicadeza do concreto. Que, para chegar à solidez, é preciso um processo minucioso, cheio de atenção às coisas mínimas. Que são elas, as coisas mínimas, que no final determinam o rumo de estradas e espigões. Que é preciso saber usar a flexiblidade da água e dos agregados, graúdos e miúdos, para chegar à solidez. Que o invisível, na forma do vento, da temperatura e da umidade do ar, também precisa ser levado em conta. Que não há receitas prontas, capazes de dispensar o olhar aberto para o agora: que o mesmo procedimento usado para fazer um pavimento de concreto durante o dia pode não dar certo à noite, porque ali será outro tempo, outra temperatura, outra umidade, outras coisas mínimas que têm impacto tão grande que fazem a gente pensar se isso de grande e pequeno existe mesmo. Que é preciso estar atento, recolhendo e analisando amostras, para entender o que está acontecendo. Que o concreto sempre vai rachar depois de seco, é inevitável: o truque é fazê-lo rachar nos lugares certos. O processo em que o concreto seca, até atingir a solidez de que precisa para suportar o peso e o tempo, é chamado de cura.

Tamo junto

Não existe separação. Se estamos todos juntos, compartilhando os mesmos passos da dança que a Terra faz em volta do Sol, e das tantas danças que o mesmo Sol dança em volta de outras estrelas. Se nem a morte pode separar de verdade seja os que se amam, seja os que se odeiam. Se sempre vou carregar comigo as marcas deixadas por todos que passaram por mim. Se o que hoje é meu corpo será parte de outros corpos um dia. Se a substância que forma hoje o meu corpo já esteve unida à substância de todos os outros corpos, compartilhando o espaço de uma cabeça de alfinete antes do faça-se a luz.

A gente gosta de acreditar que pode se separar dos outros, e saímos erguendo barreiras. Mudamos de casa, cidade ou país, trocamos de rotas, alteramos números de celular, evitamos determinadas festas. Muros são erguidos entre palestinos e israelenses, ou entre alemães e alemães. Campos de concentração recebem judeus, e pretos pobres são despejados na periferia. Tudo para manter a ilusão de uma separação possível. Barreiras podem ser feitas de tijolos, olhares, palavras ou dinheiro, não importa: tudo vai virar a mesma coisa quando o nosso Sol, na sua crise de meia-idade, engordar sem parar até nos devorar.

A vida tem um jeito de tirar um barato de quem acredita que as separações são possíveis. Como se a gente pudesse viver nossas vidas isolados uns dos outros. É aí que a vida arma encontros inesperados entre antigos amantes ou obriga inimigos a trabalharem juntos. Faz a cultura da periferia explodir no centro. Promove aquecimentos globais e desaquecimentos econômicos que obrigam povos diferentes a conversar, olhando além das ilusões das fronteiras.

Então, Maria, estamos todos juntos. Estamos todos juntos, Quézia, Vitória, Ohana. Ir para outro apartamento, dormir numa outra cama, levar outras chaves no bolso. Nada disso é separação, que separação não existe. Estamos só descobrindo outro jeito de viver juntos. Que juntos estaremos sempre.

Forever foca

— Eu era o Young Foca. Depois, virei o Kid Foca. Logo eu vou ser o Old Foca.

Era a queixa de Marcos, o jornalista fracassado da peça Efeito Urtigão, do Mário Bortolotto.  Foca é o apelido que os jornalistas dão aos colegas cabaços, os profissionais recém-chegados que batem palmas, deslumbrados, diante de tudo o que vêem, fazem perguntas estúpidas sem parar e acham lindas todas as tarefas que recebem, por mais banais que sejam. Para Marcos, ser foca era uma maldição, a lembrança de que ele seria sempre visto como um novato permanente, um sem-talento destinado ao feijão-com-arroz das rotinas da redação. Para mim, é um mantra que procuro repetir para não esquecer. Eu fui um foca. Eu sou um foca. Eu serei um foca enquanto escrever/viver. Toda vez que esqueci isso, me fodi.

Teve épocas em que me considerei um jornalista experiente. Isso ainda acontece, às vezes. Acumulei alguns anos, alguns trampos, aprendi meia dúzia de truques. Pronto. Já podia acreditar que entendia o meu ofício e o mundo à minha volta. As histórias que via e ouvia começavam a ficar parecidas, e o meu jeito de contá-las, também. Quando isso acontece, o mundo deixa de ser o espaço de surpresa e mistério que recomeça sempre que você abre os olhos de manhã. Para o jornalista experiente, o mundo é repetitivo. Todas as pessoas e fatos não passam de novas versões de pessoas e fatos sobre os quais ele já escreveu. O jornalista experiente sabe enquadrar a realidade em alguns templates prontos, que convencem editores e leitores. Como está sempre em busca da repetição, o jornalista experiente deixa de perceber o novo e o único que existe em cada instante. O jornalista experiente que é colocado diante de uma flor amarela não consegue enxergá-la: verá apenas a repetição das flores amarelas que já encontrou antes. A flor, ali, em sua presença física, naquela hora, naquele lugar, é invisível para o jornalista experiente.

O jornalista experiente não tem olhos nem ouvidos. Ele não precisa ver nem ouvir, porque já conhece todas as coisas e tem suas opiniões sobre cada uma delas. Nada o deixa nervoso ou empolgado. O jornalista experiente é velho, não importa quantos anos tenha. Seu principal sentimento é o tédio.

Ainda bem que andei quebrando a cara e descobri que o que chamava de experiência não passava de acúmulo de anos. Que eu havia ficado velho antes de ficar sábio, como o Bobo fala para o rei Lear. Os bobos, eles é que têm a sabedoria. Porque só quem estuda para valer um assunto consegue descobrir, lá nas profundezas, como as coisas são complexas e as certezas, quebradiças. Quem acha que conhece a realidade e rejeita as descobertas que possam virar sua visão de mundo de ponta-cabeça está apenas sendo escravo do próprio ego. E o ego é um senhor de casa-grande filhodaputa, do tipo que mantém seu escravo trancado num quartinho minúsculo e sem janelas, isolado do que se passa lá fora. Dessa prisão nasce o tédio: se a realidade é surpresa e mudança, apenas quem se fecha para o mundo pode deixar de se emocionar.

Eu sou um foca. Eu não sei nada. E não saber nada é libertador. Não tenho mais que ter opinião sobre tudo. Não preciso mais julgar. Não preciso mais classificar tudo o que conheço em certo e errado, bonito e feio, direita e esquerda. Antes de usar a mente, o foca simplesmente… vê. Ouve. Sente. E a partir daí conhece. Ser foca significa estar de olhos abertos e ouvidos atentos para tudo o que o mundo apresenta. Já que tudo é novo, então tudo é descoberta, tudo é aprendizado e tudo emociona. Foca tem olho de criança. E criança não tem tédio.

Tudo bem que ainda não consigo ser tão foca como gostaria. Às vezes me pego bancando o experiente: enquadrando pessoas em tipos, adivinhando sem conhecer, escrevendo antes de apurar, opinando, opinando. Bom mesmo foi ter olhado para mim antes de começar uma pauta, dia desses, e perceber que estava nervoso, sem saber direito como iria agir. Que bom, pensei, estou sendo foca. Estou me deixando surpreender, sabendo que vou ver algo/alguém pela primeira vez — afinal, ter visto antes não é o mesmo que ver agora. Ser foca é bom por isso. Quando a gente consegue perceber que uma flor amarela não é igual à outra, a vida vira um presente permanente.

Tranquilo e sereno

Jagunço Louro

Todo mundo sabe que os sertanejos são mirrados, raquíticos, enfezados. E a única fotografia de canudense vivo que tem é essa. É um homem enorme, espadaúdo, mais alto que os soldados, e louro de olhos verdes. Euclides chama ele de o Jagunço Louro. Eu compararia esta foto [de Flávio de Barros] com essa foto da Maureen Bisilliat, do encourado, e chamaria a atenção. Esse cara está à morte. Ele vai ser degolado em seguida — e foi mesmo. O Euclides da Cunha, muita gente assistiu esse tal de Jagunço Louro. E ele não está humilhado, não está com medo. Se está com medo, sabe superar o medo e não se percebe que ele esteja aterrorizado porque vai morrer em seguida. E eu o aproximo da serenidade do encourado desta foto. Quer dizer, uma pessoa que está tão habituada a enfrentar durezas na vida — mas durezas mesmo, aquela natureza hostil, agressiva, que quer acabar com qualquer forma de vida — que ele é tranquilo e sereno.

A mestre Walnice Nogueira Galvão falando sobre as fotos do sertão, a natureza dura e a dureza da natureza humana, num belo vídeo do Instituto Moreira Salles. Algumas dessas imagens estão em exposição no Museu Afro Brasil, lá no Ibirapuera.

Para quem gosta de viver

Ontem vi um show de soul music clássica no Sesc Consolação, com o trombonista Bocato e os músicos da Big Band Soul, e quando ouvia os metais berrando eu me lembrava da definição de soul dada pelo filme Os Commitments: é algo que te agarra pelos culhões e te faz pairar acima da merda. E Lu Vitaliano, que cantou junto com Fábio França, disse que aquela era uma noite “para quem gosta de boa música, para quem gosta de soul, para quem gosta de viver”. E eu me lembrei dela a caminho de casa, quando resolvi dar uma volta no Minhocão fechado para os carros e aberto para o povo correndo de moleton, as tiazinhas com os seus cachorros, a molecada navegando em seus beques e os mendigos em seus monólogos, o povo todo embaixo da meia-lua mostrando que a cidade também pode ser de quem anda a pé. “Para quem gosta de soul, para quem gosta de viver”, tinha dito a Lu Vitaliano, tão gostosa de ver, tão gostosa de ouvir. E eu me toco do que a música faz com a gente. Música serve para nos acordar, para nos lembrar do ritmo com que a gente deve viver a vida. Quando você ouve uma música… quer dizer, quando você ouve de verdade, não com o ouvido preguiçoso de quem enquanto ouve está comendo e/ou falando e/ou escrevendo, nem com o ouvido distraído de quem mistura berros e buzinas nos fones de ouvido a caminho do trabalho. Quando você ouve uma música com você inteiro, quando todo seu corpo vai naquele ritmo e seu pensamento e sua alma viram uma coisa só com o som, é aí que você esquece tudo o que é ilusão. E naquela árvore feita de harmonia de sons você reconhece a vida como ela é e como ela deve ser, com a intensidade que ela tem e que exige de você. A certeza que é própria da música: saber que cada som tem o seu lugar certo, nem mais, nem menos, nem antes, nem depois, e que isso é fácil e natural e tem de ser assim e você só precisa calar a boca da sua mente preguiçosa e se abrir para o que rola para entender como tem de ser. Porque é assim, tão simples e tão natural. Para quem gosta de soul, para quem gosta de viver.

A espada de madeira

Índio Guajajara e índio Urubu-Kaapor fotografados
por Charles Wagley no Maranhão em 1942

A percepção de uma política e de uma consciência histórica em que os índios são sujeitos e não apenas vítimas só é nova eventualmente para nós. Para os índios, ela parece ser costumeira. É significativo que dois eventos fundamentais — a gênese do homem branco e a iniciativa do contato — sejam freqüentemente apreendidos nas sociedades indígena como o produto de sua própria ação ou vontade.

A gênese do homem branco nas mitologias indígenas difere em geral da gênese de outros “estrangeiros” ou inimigos porque introduz, além da simples alteridade, o tema da desigualdade no poder e na tecnologia. O homem branco é muitas vezes, no mito, um mutante indígena, alguém que surgiu do grupo. Freqüentemente também a desigualdade tecnológica, o monopólio de machados, espingardas e objetos manufaturados em geral, que foi dado aos brancos, deriva, no mito, de uma escolha que foi dada aos índios. Eles poderiam ter escolhido ou se apropriado desses recursos, mas fizeram uma escolha equivocada. Os Krahô e os Canela, por exemplo, quando lhes foi dada a opção, preferiram o arco e a cuia à espingarda e ao prato. Os exemplos dessa mitologia são legião: lembro apenas, além dos já citados, os Waurá, que não conseguem manejar a espingarda que lhes é oferecida em primeiro lugar pelo Sol ( Ireland, 1988:166), os Tupinambá, setecentistas do Maranhão cujos antepassados teriam escolhido a espada de madeira em vez da espada de ferro ( Abbeville, 1975 [1612]: 60-1). Para os Kawahiwa, os brancos são os que aceitaram se banhar na panela fervente de Bahira: permaneceram índios os que recusaram (Menéndez, 1989). O tema recorrente que saliento é que a opção, no mito, foi oferecida aos índios, que não são vítimas de uma fatalidade mas agentes de seu destino. Talvez escolheram mal. Mas fica salva a dignidade de terem moldado a própria história.

Trecho de Introdução a uma história indígena, de Manuela Carneiro da Cunha, parte do livro História dos Índios no Brasil (Companhia das Letras, 1992).