História de dois monstros

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O que eu diria

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“Menção honrosa não tem direito a fala”, o pessoal do Prêmio Vladimir Herzog explicou já durante o almoço. Daí que não pude falar o discurso que tinha preparado, para sorte de quem foi ao Memorial da América Latina naquela noite.

A organização do prêmio tinha razão. Eu iria falar demais, e seria chato. Eu falaria o seguinte:

É muita alegria receber o prêmio Vladimir Herzog. As pessoas que mais admiro no jornalismo já receberam esse prêmio, então sei que estou em muito boa companhia.

Queria dedicar esse prêmio a duas pessoas que me ensinaram muito sobre trabalhar direito e sobre fazer o certo.

A primeira pessoa é o meu pai, Fausto Salvadori, que morreu de câncer de pulmão no mês passado. Ele era um consumidor entusiasmado dos produtos da Souza Cruz, que patrocina o evento de hoje.

A outra pessoa a quem dedico o prêmio é o colega André Caramante, que me ensinou muito sobre ética e compromisso. André denunciou várias vezes a violência praticada pela polícia do governo do Estado de São Paulo. Por causa dessas denúncias, André foi ameaçado de morte e chegou a ser exilado do País.

Muita gente tem que ser cobrada nessa história. O governo de São Paulo tem que ser cobrado, porque até não descobriu quem ameaçou André. Por sinal, esse governo também é um dos apoiadores do prêmio Vladimir Herzog. Também têm que ser cobrados os políticos que apoiaram as ameaças contra André.

E, principalmente, falta cobrar a Folha de S. Paulo, que até hoje não publicou um editorial, não escreveu uma linha em defesa do repórter deles que foi ameaçado, e ainda colocou esse repórter numa geladeira profissional. É só a gente ver como ficou raro encontrar o nome do Caramante assinando uma reportagem. E um nome como o do André Caramante nunca devia ficar escondido num jornal que leva a sério o seu papel.

É isso. Muito obrigado.

De vento

De volta, por alguns dias, para o barro do Rio Pardo de que sou feito, encontro na rua uma amiga de infância que não via há quase trinta anos. Conversa rápida: oi, é você, é, sou eu, meus sentimentos pelo seu pai, obrigado, casou, casei e separei, eu casei mas não separei, três filhos, eu também. Antes de ir embora, ela dispara: “Eu virei professora, tá? Não sou burra como você dizia”.

Eu não lembrava de tê-la chamada de burra. Lembro, ao contrário, de ser apaixonado por ela. Vai ver, era por isso que a xingava… meninos e meninas, entende? É, eu também não.

O que me espantou foi descobrir que ela havia guardado em algum lugar dentro dela, ao longo de toda a vida, a mágoa por algo que eu havia dito quando a gente tinha, sei lá… sete anos?

Fico pensando em quantas frases estúpidas ditas por mim, desde quando era criança, continuam ziguezagueando por aí, sangrando feito ferida de hemofílico dentro das pessoas que conheci, inclusive gente de quem nem me lembro mais.

Os Senhores do Karma vão ter trabalho para seguir o rastro das tantas flechas envenenadas que disparei por aí, na forma de palavras que eu, bestamente, achei serem de vento.

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