Ponte

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Tem coisas que a gente aprende a aceitar que são do jeito que são, que sempre foram assim e não serão diferentes.

Tipo.

“Fausto, checa essa história de dois caras que foram mortos lá no Parque Trianon. Se forem garotos de programa, faz uma nota por telefone, mesmo. Se for alguém de classe média, aí vale a pena ir até o local e fazer matéria. Pode até ser manchete.”

Eu era um moleque de 22 anos, recém-formado em Jornalismo, quando ouvi essa ordem, dita por um chefe do antigo Jornal da Tarde. Fiquei chocado. Eu me chocava com as coisas na época. Até me indignava, acreditava? É que eu era um moleque, com muito menos pêlo no rosto e barriga no abdome do que tenho hoje. E um monte de sonhos ainda intactos no peito.

Era a primeira vez que ouvia algo assim. Com o tempo, ouviria muitas outras. Anos depois, como repórter de madrugada no Agora SP, trampando enquanto meus chefes dormiam, precisava decidir em quais histórias valia a pena investir e quais era melhor deixar de lado. No dia seguinte, eu seria cobrado se tivesse corrido atrás da história errada. Na base da tentativa e erro, do esculacho e do esporro, fui aprendendo.

Aprendi que, mesmo num jornal que se diz “popular”, as histórias envolvendo gente pobre e negra, desenroladas nas quebradas mais distantes do centro, só enchiam as páginas se o dia estivesse muito fraco, e mesmo assim não repercutiam nas edições seguintes. Histórias quentes vinham de delegacias como o 78º DP, nos Jardins, do 15º, no Itaim Bibi, ou do 34º, no Morumbi (se bem que nesse era bom tomar cuidado porque a região também tinha muitas favelas, onde morte e vida não importam tanto para os jornalistas). Delegacias como o 47º DP, no Capão Redondo, ou o 25º DP, em Parelheiros, eram uma roubada: longes e cheias de histórias que rendiam pouco, porque aconteciam com gente que não valia tanto.

Logo, eu mesmo já tinha aprendido a fazer as perguntas certas para avaliar uma pauta.

“Esse cara que foi morto tinha qual profissão, você sabe?”

“Em que bairro isso aconteceu?”

Ou, sendo mais direto:

“Tem ideia da classe social dos envolvidos?”

Afinal, se era assim que as coisas eram, sempre foram e sempre serão, não adiantava fazer diferente.

Acho que em poucas áreas do jornalismo as barreiras entre as classes se mostram com tanta evidência como na cobertura policial – talvez só nas matérias de comportamento a opção por privilegiar a classe média branca seja tão ostensiva. A justificativa vem travestida de argumento comercial. Dizem que nem mesmo os pobres gastam dinheiro em jornal para ver outros pobres como eles. Que pobres e ricos, negros e brancos, preferem ver os dramas de ricos e brancos. Durante anos, o mesmo argumento foi usado para afastar os negros da publicidade e das capas de revista. Essa noção é tratada como uma verdade evidente por si mesma – embora nunca tenha sido testada, já que ninguém faz diferente.

E não só os jornalistas agem desse jeito. O poder público segue a mesma lógica, até porque pauta e é pautado pelo noticiário. A polícia brasileira, com sua estrutura ineficiente de divisão em Civil e Militar, só tem condições de investigar uma fração dos crimes que chegam até ela. Que critério ela vai usar nessa peneira? Ir atrás dos casos que geram mais repercussão na mídia é um deles. Agradar a pessoas influentes é outro. É só comparar a estrutura mobilizada pela polícia para investigar os casos envolvendo gente branca e bonita do centro expandido, como o casal Nardoni ou Suzane von Richtofen, que envolveu equipes enormes e recursos de seriado americano, com os inquéritos envolvendo gente da periferia, que muitas vezes se arrastam por meses sem fazer o trabalho mínimo de ouvir as testemunhas arroladas nos boletins de ocorrência.

Quando quer promover um policial, o governo o leva para os DPs nobres; ir trabalhar nas delegacias e nos batalhões da periferia é considerado uma punição e um exílio. Tanto para o governo como para os jornalistas, a vida além do centro expandido vale menos.

Como ia dizendo, com o tempo a gente aprende a aceitar que as coisas são como são e deixar de lado a rebeldia. Faz parte do processo de amadurecimento. E, se tem uma lição que o jornalismo ensina com propriedade, é a do conformismo. Creio que poucos ambientes conseguem ser mais autoritários do que uma redação de jornal. Os profissionais muitas vezes trabalham à margem da lei, aceitando condições de trabalho que provocariam uma greve se fossem impostas a operários de uma fábrica. São contratados ilegalmente, obrigando a abrir empresas para burlar a CLT, e vivem trabalhando de graça, entregando às empresas centenas de horas extras que nunca serão pagas. Demissões coletivas, chamadas passaralhos, fazem parte da rotina, e ninguém as contesta. Ordens vindas das castas superiores dos editores são tratadas como decretos divinos e discuti-las é visto como heresia.

Os repórteres, seres da redação que estão em contato mais próximo com a realidade, são os que recebem menos, tanto em grana como em prestígio, já que a realidade não importa. O que importa é o que a chefia diz que é a realidade. E não adianta discutir. As coisas são o que são. Aceitar é bom. Abaixar a cabeça significa matar o moleque rebelde dentro de você e amadurecer. E, uma vez maduro, só falta se deixar apodrecer e morrer.

O engraçado é que tem sempre uma galera com outro jeito de enxergar. Até veem as coisas como são, mas preferem olhar para como elas podem ser. E, hoje, com as novas tecnologias, nunca houve tantas ferramentas para gente desse tipo fazer as coisas do seu jeito.

Conheci uma galera que é assim, e nada me deixa mais feliz do que estar no meio desse povo e do projeto que estamos criando junto, a Ponte. Aqui, tem gente como Laura Capriglione e Bruno Paes Manso, que eu já lia antes de pisar pela primeira vez numa redação, e que me faziam pensar “um dia, quero escrever histórias que nem eles”. Tem o pessoal mais novo, feito o Padu e o Luís Adorno, que trazem jeitos novos de olhar para o que a gente achava que já conhecia. Tem André Caramante, que há anos me dá várias aulas de jornalismo só por vê-lo trabalhando, e William Cardoso, amigo de fé e irmão camarada, sangue de contador de histórias correndo pelas veias. Tem os amigos novos: Carol Trevisan, Caio Palazzo, Claudia Belfort, Gabriel Uchida, Joana Brasileiro, Rafael Bonifácio, Tati Merlino. Tem o Milton Bellintani, outro mestre. Tem Marina Amaral e Natália Viana, que, com a Agência Pública, provaram que as coisas no jornalismo não precisam ser como são.

Todos juntos, sem chefes, e ainda com pouca grana, estamos aprendendo a fazer jornalismo sem pensar no que ele é, mas no que a gente acredita que pode ser. Um jornalismo que olhe para as pessoas, antes de mais nada, como gente. Lembrando uma verdade tão simples: que gente é gente, não importa a cor, a grana, como trepa ou o que faça.

Não temos lados. Não somos ativistas, somos jornalistas. O caminho que escolhemos é o da reportagem, porque é o que sabemos fazer. Tudo o que queremos é ir à rua e contar o que vimos lá. Coisas que fazem a gente se indignar, chorar, rir, berrar. Escolhemos a Ponte porque a gente não gosta de olhar para territórios e fronteiras. Preferimos as possibilidades.

“Chega de Amarildos. Desmilitarização já”

Protesto no Parque da Juventude pede a desmilitarização da polícia (foto de Marcelo Camargo/ABr)

Protesto no Parque da Juventude pede a desmilitarização da polícia (foto de Marcelo Camargo/ABr)

“Adalberto Oliveira dos Santos”

“Presente!”

“Adão Luiz Ferreira de Aquino”

“Presente!”

Gritar presente! em memória dos companheiros mortos é uma tradição da militância política. Mas não pertenciam a guerrilheiros ou revolucionários os nomes que aquele grupo de umas cinquenta pessoas recitava na tarde gelada de sábado, dia 5, no Parque da Juventude. Eram todos nomes de vítimas: 111 presos, a maioria sem condenação formal, gente que queria apenas continuar a viver mais alguns anos neste planeta, respirando, amando, errando e acertando como todos nós. Direito que perderam em 2 de outubro de 1992, pelas balas e pelos cães da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Os nomes foram homenageados um a um, por gente de movimentos como Mães de Maio, Rede 2 de Outubro, Coletivo Desentorpecendo a Razão, Movimento Organizado Moinho Vivo, e outros e mais outros, todos pisando o gramado ralo do parque, que até hoje para não ter conseguido força para vicejar direito naquele chão que recebeu tanto sangue dos tempos em que ali funcionou a Casa de Detenção do Carandiru. Organizado para fechar a Semana Contra a Democracia dos Massacres, promovido pelos coletivos, o protesto de sábado mantinha um olho nos 21 anos do massacre do Carandiru e outro nos massacres que as Polícias Militares continuam a praticar todos os dias.

Entre as vítimas destes massacres, pessoas como o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, pai de seis filhos, que, segundo inquérito da Polícia Civil, foi morto sob tortura pelos PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha. Sobrinha de Amarildo, Michelle Lacerda também pisou a grama rala do Parque da Juventude naquele dia. E falou:

“Não é possível que a gente pague, com o nosso suor, o salário de pessoas para entrar em nossas casas, nos tirar de lá, e matar e torturar. Acima de tudo, nós nossos seres humanos. Temos coração. Coração que, se machucar, dói, e, se doer, nós temos que gritar. Essa é a mensagem que a minha família passa. Está machucado, nós estamos gritando, sim, e não vamos parar de gritar. E hoje o grito do meu Amarildo é o grito de todos os Amarildos que já foram.Chega de Amarildos!”

E Michelle disse mais:

“Todo dia o meu tio chegava na porta da minha casa, me mandava beijo e me chamava pelo nome. Eu não escuto mais esse beijo, não tenho mais aquele abraço caloroso, e eu não desejo isso para ninguém. Para a gente, é juntar as energias, juntar as forças, é juntar os gritos e gritar todo mundo: basta! Nem um passo atrás jamais. Desmilitarização já!”

Diz o manifesto distribuído pelos movimentos:

Esse mesmo Estado, que deveria garantir nossos direitos, vem implementando uma verdadeira ‘democracia dos massacres’ onde os principais executores são aqueles que deveriam nos ouvir e proteger, ou seja, a Polícia Militar. Além do medo e da insegurança, o que ganhamos com isso? Não esqueceremos nem nos calaremos diante do Massacre do Carandiru, nem da ação truculenta e desumana no Pinheirinho. Não nos esqueceremos dos milhares de Amarildos, nem dos tantos Ricardos. Não nos cegaremos diante da violência policial nas manifestações sociais, ou do genocídio secular dos povos indígenas, sem medo dos inúmeros massacres que o Estado brasileiro promove. Desmilitarizar a polícia é urgente — nossa luta tá só no começo Quem fecha com a gente?”

Danilo Dara, das Mães de Maio, lembrou que a luta não é apenas pela desmilitarização das polícias. “Gritamos contra todos os dispositivos que reproduzem a lógica penal-militar, tanto na polícia como no Judiciário, na política, na imprensa.”

Enquanto ele falava, dois homens que se diziam jornalistas, mas sem mencionar a que veículo pertenciam, sem tomar notas e sem entrevistar ninguém, fotografavam e filmavam todos os participantes do protesto.

Um tanque de guerra dentro do quarto

galileu revista

Para os cypherpunks, vivemos em um Big Brother mundial sem paredão e sem prêmio. As ações de cada pessoa são espionadas e registradas em enormes depósitos ultrassecretos, graças a uma parceria entre a agência de espionagem norte-americana, a NSA (National Agency Security), e empresas como Google, Facebook, Microsoft e Apple, proprietárias dos sites e dos aparelhos que enchemos diariamente com todos os detalhes possíveis a respeito de nossas vidas. Quando nos comunicamos pela internet ou por telefonia celular, que agora está imbuída na internet, nossas trocas são interceptadas por organizações militares de inteligência. “É como ter um tanque de guerra dentro do quarto”, exagera Assange. A espionagem por parte das autoridades não é feita sobre alvos determinados, como rebeldes, terroristas ou suspeitos de crimes. A tecnologia tornou possível a “interceptação estratégica”, que, por padrão, grava e armazena automaticamente os dados de todas as pessoas que falam ao telefone ou acessam a internet, “porque nunca se sabe quando alguém é suspeito”.

Como evitar que a internet se torne uma ferramenta de opressão é o tema da matéria Pelo direito de fechar a porta do banheiro, que escrevi para a Galileu. A matéria saiu com ilustrações estilosas de Cris Vector. Vale a pena sair da internet e ir para uma banca atrás da revista, que tem boas matérias, como a reportagem de capa, sobre agrotóxicos, o dossiê O segredo da felicidade e um perfil de Chris Ware.

Obrigado, Tiago Mali, que me fez o convite de voltar a escrever para a revista. Obrigado, Alexandre Matias e Rafael Tonon, pela edição e paciência. Obrigado a todos os entrevistados: Jacob Appelbaum, Anahuac de Paula Gil e Alexandre Oliva, que me deu de bandeja o título da matéria. E obrigado, Tiago Soares, pelo tesouro das boas dicas.

“O Esquadrão da Morte está nos levando”

Memorial erguido no Cemitério de Perus (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Memorial erguido no Cemitério de Perus (foto de Gute Garbelotto/CMSP)

Dizem que a ditadura acabou:

Uma das principais “heranças malditas” da ditadura, segundo o relatório da Comissão Municipal, foi deixada na polícia: “a cultura da violência e a aceitação natural da tortura como método de investigação, numa confusão ontológica entre polícia e segurança pública eficazes com o emprego irrefreado da violência e da tortura”.

A política de extermínio do Estado durante o regime miliar foi muito além dos opositores ao regime. Presos políticos que passaram pelo Presídio Tiradentes contam que costumavam acordar de madrugada com os gritos dos presos comuns prestes a serem assassinados pela polícia. “Eles eram tirados de lá gritando: ‘Políticos, políticos, socorro! O Esquadrão da Morte está nos levando’. Os membros do Esquadrão da Morte eram os mesmos que nos torturavam”, contou o militante Clóvis de Castro à Comissão Municipal da Verdade. Comandado por Sérgio Fleury, o Esquadrão da Morte era uma espécie de avô das atuais milícias: um grupo paramilitar formado por policiais que executavam suspeitos de crimes comuns.

A ditadura aumentou a presença militar nas forças de segurança, dando mais poderes às polícias militares e pondo-as sob o guarda-chuva do Ministério do Exército. Em 1969, um decreto-lei do governo federal tirou das ruas as Guardas Civis, substituindo-as pelos policiais militares. As Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) surgiram no ano seguinte, com a missão de executar “ações de controle de distúrbios civis e de contraguerrilha urbana”.

O fim do regime militar não modificou a estrutura de policiamento, nem impediu que a Polícia Militar (PM) se envolvesse em uma série de chacinas que marcariam os anos da redemocratização, como os 111 mortos na Casa de Detenção, no Carandiru, em 1992, e os 21 mortos na comunidade de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, em 1993, além das dezenas de mortes atribuídas a grupos de extermínio como “Os Matadores do 18”, que atuariam na zona norte de São Paulo, e os “Highlanders”, na zona sul.

O maior dos massacres ocorreu em maio de 2006, quando o Estado comandou uma suposta reação aos ataques do crime organizado, que haviam matado 43 agentes públicos. A ação da polícia e de grupos de extermínio encapuzados multiplicou o número de vítimas, que em nove dias chegou a 493 mortos (mais do que a ditadura conseguiu eliminar em duas décadas). “Isso tudo é herança da ditadura”, afirma a jornalista Rose Nogueira, que, como presidente do Condepe, ajudou a montar uma comissão independente que analisou os homicídios de maio de 2006. Para ela, aqueles crimes repetiram o procedimento adotado décadas antes pela repressão política. “Os carrascos da ditadura diziam que, para cada agente do Estado que fosse morto, matariam outras dez pessoas”, conta Rose, que conheceu as torturas do regime autoritário atrás das grades do Dops.

Trecho da reportagem Em busca da verdade, que escrevi para a revista Apartes, da Câmara Municipal, com a coordenação da Maria Isabel e do Sândor e a ajuda dos parceiros Rogério, Gisele, Lívia, Leandro e Elton. Dá para ler o texto aqui.

O monstro da janela

passe livre

Vi da janela do prédio. Tá, eu sei: jornalista que se preza é o que não perde a chance de tirar a bunda da cadeira e correr até o chão dos fatos. Mas eu estava com minhas filhas, brincando de fazer sombras com velas acesas e luzes apagadas. Além do mais, não tinha nenhum empregador me pagando para fugir de balas de borracha e respirar pimenta. Então, quando ouvi o barulho das bombas, fui para a varanda e fiquei vendo de lá o que rolava nas imediações da Praça Roosevelt. E o que vi foi uma multidão tomando conta da praça e das ruas e gritando sem parar:

“Sem violência! Sem violência!”

Na janela ao lado, apareceu a cabeça de Lívia, a vizinha:

“Um monte de gente indo para rua para pedir transporte público melhor. É lindo isso, gente.”

Dali a pouco, vimos as pessoas correndo. Estouros. O cheiro de gás lacrimogêneo chegando até o sétimo andar. Policiais jogavam bombas em grupos que estavam na rua, e que não estavam fazendo nada além de… estar na rua. Gente na rua. Por que será que isso incomoda tanto?

Ao meu lado, Vitória vibrava pelos manifestantes e xingava os policiais. Ela é skatista e faz seus ollies na praça Roosevelt, então já aprendeu que a violência do Estado volta e meia é usada para perseguir uns crimes esquisitos. Como andar de skate. Ou estar na rua. Ou portar vinagre, como a gente ficaria sabendo depois.

Abraçada a minhas pernas, vendo tudo com seus olhões azuis, Ohana fez uma pergunta:

“Por que a polícia joga bomba nas pessoas?”

Pergunta difícil. Pergunta essencial. Daquelas que meninas de sete anos gostam de fazer. E que os adultos, ah, esses adultos cheios de pose, não sabem responder.

Se eu fosse editorialista da Folha ou do Estadão, poderia responder que a polícia precisava agir com o máximo de rigor para conter os manifestantes do Passe Livre, todos baderneiros que gostavam de quebrar coisas. Mas ela estava vendo as pessoas apanhando na rua depois de gritar “sem violência, sem violência”. Não ia colar.

Podia dizer que a polícia estava garantindo o direito de ir e vir dos cidadãos. Que os manifestantes faziam uma coisa muito feia, que era parar o trânsito de São Paulo, impedindo os papais de chegarem em casa para ver suas filhas. Como a Ohana não sabe que o maior índice de lentidão da semana ocorreu no Dia dos Namorados, quando não houve protestos, talvez ela se convencesse. Talvez.

Eu poderia contar algumas das coisas que sei sobre a ação policial. Que grupos militarizados atuando no policiamento de rua são uma exceção na democracia, e que um conselho da ONU já pediu ao Brasil a desmilitarização de sua polícia. Que a lógica militar não é a de combater ações criminosas, mas a de enfrentar grupos inimigos. Por isso, quando acuados pelo crime organizado, como ocorreu em maio de 2006 e no ano passado, os policiais respondem com matanças aleatórias na periferia. Podia contar que a violência que nos pegava de surpresa ali, embaixo da nossa janela, era a realidade de todos os dias além da ponte João Dias. E que não se tratava de uma polícia descontrolada, era uma política de Estado, parte de uma longa tradição.

Devia explicar que a violência é como um monstro que engana a gente, nos fazendo acreditar que ela pode ser boa quando feita pelas pessoas certas, ou em nome das causas certas. Que esse monstro só vai parar de crescer quando a gente olhar bem para a fuça dele, sem disfarces, e perceber que o monstro é sempre um monstro, venha na forma de manifestantes que espancam um policial, venha na forma de policiais que espalham feridas e balas para esvaziar as ruas.

Essa seria a melhor explicação. Mas não consegui . Achei melhor abraçá-la bem forte e contar essa história outro dia.

Dizem que ela existe pra proteger

Reportagem que fiz para a Revista Adusp número 53, capitaneada pelo parceiro Pedro Pomar, que discute o papel da Polícia Militar. Histórias tristes de morte e opressão, histórias bonitas de resistência e compaixão.

Daniel teve o filho assassinado pela PM (foto Sônia Pinheiro)

“A notícia é a pior possível”, disse o chefe dos enfermeiros. Ao entrar no Hospital Regional de Osasco, o eletricista Daniel Eustáquio de Oliveira, 50 anos, sabia apenas que seu filho, César Dias de Oliveira, 20 anos, havia sido baleado quando voltava para casa dirigindo a motocicleta que comprara dez dias antes. Assim que ouviu as palavras do enfermeiro, porém, Daniel entendeu tudo. “Meu filho está morto”, disse. “Está”, confirmou o enfermeiro. Daniel começou a chorar. “Mas como?”, perguntou. “Cinco tiros”, foi a resposta. “Esses ladrões sem vergonha, além de tentar roubar meu filho, ainda mataram ele com cinco tiros”, desabafou. O enfermeiro o corrigiu: “Foi a polícia que matou seu filho”. Daniel parou de chorar na hora. Na saída, olhou para o grupo fardado de policiais militares na entrada do hospital e fez uma promessa: “Eu vou provar que vocês mataram um inocente”.

No dia 1º de julho, o filho de Daniel e o amigo dele, Ricardo Tavares da Silva, também de 20 anos, que estava na garupa da moto, entraram para a lista de 182 pessoas mortas pela Polícia Militar na cidade de São Paulo nos sete primeiros meses do ano, período em que a Secretaria da Segurança Pública registrou um total de 907 homicídios. Os números mostram que, a cada cinco pessoas assassinadas no município, uma foi vítima da polícia. Denúncias de abusos envolveram várias destas mortes, entre elas a do publicitário Ricardo Prudente de Aquino, baleado após fugir de uma abordagem policial, em 19 de julho. Três PMs foram presos pelo crime, que teve mais repercussão na mídia do que todos os demais, por envolver uma vítima que fugia ao padrão habitual de jovens negros e pobres da periferia.

Na mesma época em que Daniel, os dois Ricardos e tantos outros eram mortos, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovava a recomendação de abolir a Polícia Militar como forma de combater a violência do Estado brasileiro. Foi em 30 de maio, quando o Brasil passou pela Revisão Periódica Universal do Conselho, uma espécie de prova à qual todos os países são submetidos. Na ocasião, o governo da Dinamarca sugeriu “abolir o sistema separado de polícia militar” com o objetivo de “reduzir a incidência de execuções extrajudiciais pela polícia”.
(mais…)

Não à desocupação da São João

Eles chegaram lá quando quase tudo estava morto. Ratos e baratas, muitos deles, reinavam há duas décadas como os únicos hóspedes do Hotel Columbia, velho prédio esquecido pelo seu proprietário no centro de São Paulo. “Tinha dois metros de entulho no térreo, tudo coberto de cocô de pombo. Louças sanitárias e pias, tudo quebrado. Não tinha um fio elétrico, não tinha canos, não tinha nada”, lembra Neci Maria de Oliveira, 68 anos, 6 filhos, 25 netos e 10 bisnetos. Ela chegou ao local em outubro de 2010, junto com outras famílias que, lideradas pela Frente de Luta por Moradia, uniram-se para transformar em lar os seis andares de concreto que, até então, não tinham outro uso que não fosse acomodar sujeira.

Ali as famílias retiraram o lixo e acomodaram seus móveis, seus filhos e seu cotidiano. Ali refizeram a hidráulica e puxaram da rua os fios para iluminar seu dia-a-dia. Enquanto iam reconstruindo o prédio, os novos moradores iam refazendo a si mesmos. Arrumaram empregos na região, matricularam seus filhos nas escolas próximas. Num lugar que estava morto, criaram um sistema próprio de gestão: o edifício da Ocupação São João é uma comunidade, na qual todos são seus próprios zeladores e as decisões que afetam a todos são tomadas em assembleias regulares, no mesmo espaço em que os moradores aprenderam a transformar seu tempo em arte e cultura.

O sarau de poesia que acontece a cada duas semanas, sempre às quartas-feiras, virou um espetáculo que atrai gente de várias partes de São Paulo, misturando poetas de outros saraus e de outros quebradas com os próprios poetas da ocupação. A dona Nice é presença certa em todo Sarau da Ocupa e em vários outros saraus pela cidade. “Vivem me chamando para ir a outros saraus e eu vou, porque adoro poesia”, conta Nice, apelidada Vó da Ocupa, que se orgulha de sua descoberta da arte e do bonito apartamento que montou no edifício, todo arrumado, decorado com flores e um pôster do Corinhtians.

Além do sarau, o prédio é lugar de várias outras ações culturais, incluindo cineclube, festival de rock, mediação de histórias infantis, e todas servem para falar, pensar e sentir as questões do seu dia-a-dia. No sarau da semana passada, eu vi como os poemas se misturavam com manifestos contra a ameaça de desocupação do prédio e manifestos contra a morte dos guarani-kaiowás no Mato Grosso do Sul, e tudo combinava porque tudo era poesia, porque a poesia é vida e é luta.

E o poema da hora, na Ocupação São João, é evitar a reintegração de posse do imóvel, ordenada pela Justiça e marcada para a trágica data de 11 de setembro. É uma tragédia que pode e deve ser evitada. Se a desocupação ocorrer, quem perde não são apenas as 85 famílias que irão para a rua. Quem perde é a cidade de São Paulo. Se o prédio for desocupado para dar lugar a mais um condomínio feito de vidas isoladas e empilhadas umas sobre as outras, todos nós perdemos a chance de conhecer e replicar um jeito mais humano e pleno de gerir a vida num agrupamento humano.

Deixem a Vó da Ocupa ficar!

“Ver a gente triste é o que sistema quer”, disse Ruivo Lopes, um dos responsáveis pelas atividades culturais da Ocupação São João, comentando a ameaça de despejo, durante o Sarau do Ocupa na quarta-feira passada. “Então, não vamos ficar tristes. Cada vez que a gente sorri, o sistema treme.”

E na mesma noite Marcelo, um dos poetas presentes ao sarau, aproveitou para falar de esperança pelas palavras de Solano Trindade, um avô dos atuais poetas periféricos:

Nem tudo está perdido irmãos
nem tudo está perdido amadas
o sol voltará a nos trazer calor

Esta é a mensagem nova
que o poeta nos traz
para que desperteis para a luta
na hora da vossa angústia
irmãos e amadas do meu século!

O que dá para fazer? Há um abaixo-assinado contra a desocupação rolando aqui. Assine. E espalhe a notícia. Não deixe dona Nice, a Vó da Ocupa, perder o seu apartamento, todo arrumado, decorado com flores e um pôster do Corinhtians.

A espada de madeira

Índio Guajajara e índio Urubu-Kaapor fotografados
por Charles Wagley no Maranhão em 1942

A percepção de uma política e de uma consciência histórica em que os índios são sujeitos e não apenas vítimas só é nova eventualmente para nós. Para os índios, ela parece ser costumeira. É significativo que dois eventos fundamentais — a gênese do homem branco e a iniciativa do contato — sejam freqüentemente apreendidos nas sociedades indígena como o produto de sua própria ação ou vontade.

A gênese do homem branco nas mitologias indígenas difere em geral da gênese de outros “estrangeiros” ou inimigos porque introduz, além da simples alteridade, o tema da desigualdade no poder e na tecnologia. O homem branco é muitas vezes, no mito, um mutante indígena, alguém que surgiu do grupo. Freqüentemente também a desigualdade tecnológica, o monopólio de machados, espingardas e objetos manufaturados em geral, que foi dado aos brancos, deriva, no mito, de uma escolha que foi dada aos índios. Eles poderiam ter escolhido ou se apropriado desses recursos, mas fizeram uma escolha equivocada. Os Krahô e os Canela, por exemplo, quando lhes foi dada a opção, preferiram o arco e a cuia à espingarda e ao prato. Os exemplos dessa mitologia são legião: lembro apenas, além dos já citados, os Waurá, que não conseguem manejar a espingarda que lhes é oferecida em primeiro lugar pelo Sol ( Ireland, 1988:166), os Tupinambá, setecentistas do Maranhão cujos antepassados teriam escolhido a espada de madeira em vez da espada de ferro ( Abbeville, 1975 [1612]: 60-1). Para os Kawahiwa, os brancos são os que aceitaram se banhar na panela fervente de Bahira: permaneceram índios os que recusaram (Menéndez, 1989). O tema recorrente que saliento é que a opção, no mito, foi oferecida aos índios, que não são vítimas de uma fatalidade mas agentes de seu destino. Talvez escolheram mal. Mas fica salva a dignidade de terem moldado a própria história.

Trecho de Introdução a uma história indígena, de Manuela Carneiro da Cunha, parte do livro História dos Índios no Brasil (Companhia das Letras, 1992).

Sindicato é Pra Lutar


No meu primeiro emprego registrado como jornalista, e lá se vão 12 anos, aprendi que é normal jornalista trabalhar de graça. Eu costumava passar dez horas por dia na redação da  Tribuna Impressa, em Araraquara, mas o meu contrato previa só cinco horas diárias: as horas a mais eu fazia sem receber um centavo. Quando vim para São Paulo, continuei meu aprendizado. No grupo Folha de S.Paulo, especialmente no Agora SP, descobri que jornalista, além de trabalhar de graça, convive com o estresse desnecessário e o assédio moral como partes integrantes da profissão. Foi o que aprendi, por exemplo, quando tive de ficar duas horas depois do meu horário, após ter trabalhado a madrugada inteira sem receber um centavo de adicional noturno, apenas para ouvir o secretário de redação declarar, por nenhum motivo específico, que meu trabalho era um lixo e eu não merecia o desconto na escola de inglês que a empresa me oferecia tão generosamente. Aprendi o que significa passaralho: significa que empresas jornalísticas, mesmo no azul, podem demitir dezenas de profissionais de uma vez sem que haja qualquer reação. Valia por um curso completo em miséria humano ouvir um colega descarregar o ódio no bar após o trabalho imaginando maneiras de trucidar seus chefes, ver uma outra saindo com olhos vermelhos do banheiro para fechar a próxima matéria e ficar sabendo que outros tomavam antidepressivos tão pesados para seguir com a vida que quase eram barrados nos exames demissionais pós-passaralhos. Aprendi que jornalista pode trabalhar até sem existir. Num caso único de incursão do Ministério Público do Trabalho pelo Folha de S.Paulo, a empresa chegou a esconder os jornalistas do seu site no restaurante para evitar que os fiscais descobrissem que a maioria era tão informal (invisíveis para os registros legais) como os escravos bolivianos das confecções do Brás. Também passei por três assessorias de imprensa e aprendi que jornalista pode pagar para trabalhar, abrindo empresas ou comprando notas fiscais para fingir que está apenas prestando serviços na empresa onde está todos os dias.

Lições poderosas, que continuam a ser ensinadas. Como as faculdades de Jornalismo não dão noções de direito trabalhista e mercado de trabalho, há gerações de recém-formados sendo despejadas no mercado de trabalho que acham normal ser obrigado a virar pessoa jurídica para ser empregado.

São lições que aprendi. Mas também aprendi que cada um tem a força e o poder para decidir quais lições vai aprender com a vida. Que as lições da exploração só continuam a ser ensinadas porque somos fracos. E somos fracos porque somos um, cada um mastigando sozinho sua dose diária de dor e submissão. Hora de ouvir de novo a lição que Chico Buarque logo cedo ensinou para minhas filhas, a lição de que “todos juntos somos fortes, somos flecha e somos arco, somos nós no mesmo barco, não há nada para temer”.

Vários dos abusos que vi acontecer no dia-a-dia das redações poderiam ser evitados se os patrões simplesmente estivessem dispostos a dialogar com os empregados. Mas no jogo de relações brutal que costuma ocorrer no intestino das empresas, é muito comum que quem está por cima só enxerge os de baixo quando eles mostram força — pois é preciso ser forte para ser visto como humano.

Aprendi que a gente precisava mesmo era de um sindicato. Um sindicato que parecia não existir, pois estava ausente das nossas brigas, e estava ausente porque nós todos estávamos ausentes do sindicato. Um círculo de apatia em que cada um parece ter se acomodado em seu canto escuro. Muitos jornalistas vêm o sindicalismo como um trambolho ultrapassado, coisa de velho ou de peão, nada a ver com pessoas modernas e criativas como nós. Esses tiveram um choque, anos atrás, quando souberam da greve dos roteiristas de Hollywood. Como assim, uma ação sindical no coração da indústria criativa mais importante do planeta? Como assim, caras que escrevem se aliando com outros caras que escrevem para lutar pelo que é melhor para todos? Como assim, caras que escrevem conseguindo, por meio de uma ação sindical, impor sua vontade aos estúdios e atrapalhar a produção de Lost, House, 24 Horas? Sindicalismo. É isso aí. Porque sindicalismo nada mais é do que um jeito de estar junto. E é junto que se faz tudo.

A gente precisa de um sindicato novo para ensinar novas lições. E foi por isso que me juntei ao coletivo Chapa 2 – Renovar para Mudar, Sindicato é Pra Lutar, que disputa agora as eleições do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Anote: as eleições começam hoje e vão até quinta-feira, dia 29. Podem votar jornalistas sindicalizados há mais de seis meses, que infelizmente são minoria. Poucos fazem parte do sindicato porque a maioria não acredita nele. Isso precisa mudar.

Há pessoas muito boas na Chapa 2. A candidata à presidenta é Bia Barbosa, do vídeo aí em cima: jornalista dura e combativa, militante da democratização da mídia, fundadora do Intervozes, que pode se tornar a primeira mulher eleita presidente do sindicato. Tem o candidato a secretário-geral, Pedro Pomar, um lutador de uma família de lutadores, com quem trabalhei na Revista Adusp: dele, posso dizer que foi um dos melhores editores com quem colaborei. E outros, muitos mais. Acho que é de gente assim que podem vir as novas lições, não de um grupo que busca eleger pela terceira vez o mesmo presidente.

Já participei da mesma chapa em outras duas eleições, quando fomos derrotados. Na época, meu apoio foi envergonhado: nem cheguei a divulgar no meu antigo blog, que era razoavelmente lido. Era a postura groucho-marxista de não querer fazer parte de um clube que o aceite, mais o medo de vencer as eleições e de repente sair da cômoda posição de pedra para virar vidraça, uma timidez irmã gêmea da arrogância. São posturas que queimei. Estou aprendendo a levar até o fim cada um dos papéis que assumo no dia-a-dia, seja de pai, amigo, profissional, militante. Estar inteiro em cada aspecto da vida — é o que busco. A mais nova lição que escolhi aprender.

Veja quem apoia a Chapa 2

Conheça o programa da Chapa 2

Conheça os locais de votação

Vereadores de SP apoiaram golpe de 64

Fachada do Palacete Prates, onde funcionava
a Câmara Municipal de São Paulo em 1964

O golpe de 1964 havia acabado de parir uma ditadura, que iria torturar e matar centenas de pessoas ao longo de vinte anos. Em 6 de abril, na primeira sessão da Câmara Municipal  de São Paulo após a queda do presidente João Goulart, 15 dos 45 vereadores eleitos resolveram se pronunciar sobre o golpe. Dos 15 parlamentares que falaram, 14 elogiaram o derrubada de Goulart e a ditadura recém-nascida. (A revelação está no número de estreia da Revista do Parlamento Paulistano, lançado em dezembro, que ajudei a editar, uma publicação que busca ser uma iniciativa de comunicação pública, autônoma e livre de interferências políticas.)

Agora em que comissões da verdade buscam apurar fatos e resgatar responsabilidades, é uma boa hora para lembrar que a ditadura de 1964-1985 não surgiu de geração espontânea nem foi uma ação exclusiva de militares. Muitas forças ajudaram no parto e embalaram o monstro, gente da política, do empresariado, da intelectualidade, dos meios de comunicação. Ditaduras e genocídios são filhos de muitos pais, em geral desmemoriados.

Aproveito o post para contar aqui a história de um vereador da mesma época que se opôs ao golpe e pagou por isso, sendo cassado e preso. A história de Moacir Longo foi contada no mesmo número da revista. O título foi tirado de uma carta-discurso de Longo, que você pode ler ao final do post. Lida em plenária logo após a cassação do vereador, a carta é uma imagem de coragem em estado bruto, combatendo o poder que se julga inquestionável.

Moacir Longo e seu diploma de vereador, cargo que ocupou por três meses (foto de Marcelo Ximenez)

“Creio que todos sabem por que estou ausente”

Os vereadores não voltaram para casa naquela segunda-feira, 30 de março de 1964. Nem no dia seguinte. Por duas noites, dormiram e acordaram no interior do Palacete Prates, no Vale do Anhangabaú, onde funcionava a sede da Câmara Municipal de São Paulo. Passaram os dias ouvindo no rádio as notícias sobre a movimentação das tropas que pretendiam derrubar o presidente João Goulart. Um dos parlamentares, o jornalista e militante comunista Moacir Longo, do PSB, sabia: se os militares tomassem o poder, ele corria o risco de sair do palacete direto para a cadeia.
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