O monstro da janela

passe livre

Vi da janela do prédio. Tá, eu sei: jornalista que se preza é o que não perde a chance de tirar a bunda da cadeira e correr até o chão dos fatos. Mas eu estava com minhas filhas, brincando de fazer sombras com velas acesas e luzes apagadas. Além do mais, não tinha nenhum empregador me pagando para fugir de balas de borracha e respirar pimenta. Então, quando ouvi o barulho das bombas, fui para a varanda e fiquei vendo de lá o que rolava nas imediações da Praça Roosevelt. E o que vi foi uma multidão tomando conta da praça e das ruas e gritando sem parar:

“Sem violência! Sem violência!”

Na janela ao lado, apareceu a cabeça de Lívia, a vizinha:

“Um monte de gente indo para rua para pedir transporte público melhor. É lindo isso, gente.”

Dali a pouco, vimos as pessoas correndo. Estouros. O cheiro de gás lacrimogêneo chegando até o sétimo andar. Policiais jogavam bombas em grupos que estavam na rua, e que não estavam fazendo nada além de… estar na rua. Gente na rua. Por que será que isso incomoda tanto?

Ao meu lado, Vitória vibrava pelos manifestantes e xingava os policiais. Ela é skatista e faz seus ollies na praça Roosevelt, então já aprendeu que a violência do Estado volta e meia é usada para perseguir uns crimes esquisitos. Como andar de skate. Ou estar na rua. Ou portar vinagre, como a gente ficaria sabendo depois.

Abraçada a minhas pernas, vendo tudo com seus olhões azuis, Ohana fez uma pergunta:

“Por que a polícia joga bomba nas pessoas?”

Pergunta difícil. Pergunta essencial. Daquelas que meninas de sete anos gostam de fazer. E que os adultos, ah, esses adultos cheios de pose, não sabem responder.

Se eu fosse editorialista da Folha ou do Estadão, poderia responder que a polícia precisava agir com o máximo de rigor para conter os manifestantes do Passe Livre, todos baderneiros que gostavam de quebrar coisas. Mas ela estava vendo as pessoas apanhando na rua depois de gritar “sem violência, sem violência”. Não ia colar.

Podia dizer que a polícia estava garantindo o direito de ir e vir dos cidadãos. Que os manifestantes faziam uma coisa muito feia, que era parar o trânsito de São Paulo, impedindo os papais de chegarem em casa para ver suas filhas. Como a Ohana não sabe que o maior índice de lentidão da semana ocorreu no Dia dos Namorados, quando não houve protestos, talvez ela se convencesse. Talvez.

Eu poderia contar algumas das coisas que sei sobre a ação policial. Que grupos militarizados atuando no policiamento de rua são uma exceção na democracia, e que um conselho da ONU já pediu ao Brasil a desmilitarização de sua polícia. Que a lógica militar não é a de combater ações criminosas, mas a de enfrentar grupos inimigos. Por isso, quando acuados pelo crime organizado, como ocorreu em maio de 2006 e no ano passado, os policiais respondem com matanças aleatórias na periferia. Podia contar que a violência que nos pegava de surpresa ali, embaixo da nossa janela, era a realidade de todos os dias além da ponte João Dias. E que não se tratava de uma polícia descontrolada, era uma política de Estado, parte de uma longa tradição.

Devia explicar que a violência é como um monstro que engana a gente, nos fazendo acreditar que ela pode ser boa quando feita pelas pessoas certas, ou em nome das causas certas. Que esse monstro só vai parar de crescer quando a gente olhar bem para a fuça dele, sem disfarces, e perceber que o monstro é sempre um monstro, venha na forma de manifestantes que espancam um policial, venha na forma de policiais que espalham feridas e balas para esvaziar as ruas.

Essa seria a melhor explicação. Mas não consegui . Achei melhor abraçá-la bem forte e contar essa história outro dia.

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Sindicato é Pra Lutar


No meu primeiro emprego registrado como jornalista, e lá se vão 12 anos, aprendi que é normal jornalista trabalhar de graça. Eu costumava passar dez horas por dia na redação da  Tribuna Impressa, em Araraquara, mas o meu contrato previa só cinco horas diárias: as horas a mais eu fazia sem receber um centavo. Quando vim para São Paulo, continuei meu aprendizado. No grupo Folha de S.Paulo, especialmente no Agora SP, descobri que jornalista, além de trabalhar de graça, convive com o estresse desnecessário e o assédio moral como partes integrantes da profissão. Foi o que aprendi, por exemplo, quando tive de ficar duas horas depois do meu horário, após ter trabalhado a madrugada inteira sem receber um centavo de adicional noturno, apenas para ouvir o secretário de redação declarar, por nenhum motivo específico, que meu trabalho era um lixo e eu não merecia o desconto na escola de inglês que a empresa me oferecia tão generosamente. Aprendi o que significa passaralho: significa que empresas jornalísticas, mesmo no azul, podem demitir dezenas de profissionais de uma vez sem que haja qualquer reação. Valia por um curso completo em miséria humano ouvir um colega descarregar o ódio no bar após o trabalho imaginando maneiras de trucidar seus chefes, ver uma outra saindo com olhos vermelhos do banheiro para fechar a próxima matéria e ficar sabendo que outros tomavam antidepressivos tão pesados para seguir com a vida que quase eram barrados nos exames demissionais pós-passaralhos. Aprendi que jornalista pode trabalhar até sem existir. Num caso único de incursão do Ministério Público do Trabalho pelo Folha de S.Paulo, a empresa chegou a esconder os jornalistas do seu site no restaurante para evitar que os fiscais descobrissem que a maioria era tão informal (invisíveis para os registros legais) como os escravos bolivianos das confecções do Brás. Também passei por três assessorias de imprensa e aprendi que jornalista pode pagar para trabalhar, abrindo empresas ou comprando notas fiscais para fingir que está apenas prestando serviços na empresa onde está todos os dias.

Lições poderosas, que continuam a ser ensinadas. Como as faculdades de Jornalismo não dão noções de direito trabalhista e mercado de trabalho, há gerações de recém-formados sendo despejadas no mercado de trabalho que acham normal ser obrigado a virar pessoa jurídica para ser empregado.

São lições que aprendi. Mas também aprendi que cada um tem a força e o poder para decidir quais lições vai aprender com a vida. Que as lições da exploração só continuam a ser ensinadas porque somos fracos. E somos fracos porque somos um, cada um mastigando sozinho sua dose diária de dor e submissão. Hora de ouvir de novo a lição que Chico Buarque logo cedo ensinou para minhas filhas, a lição de que “todos juntos somos fortes, somos flecha e somos arco, somos nós no mesmo barco, não há nada para temer”.

Vários dos abusos que vi acontecer no dia-a-dia das redações poderiam ser evitados se os patrões simplesmente estivessem dispostos a dialogar com os empregados. Mas no jogo de relações brutal que costuma ocorrer no intestino das empresas, é muito comum que quem está por cima só enxerge os de baixo quando eles mostram força — pois é preciso ser forte para ser visto como humano.

Aprendi que a gente precisava mesmo era de um sindicato. Um sindicato que parecia não existir, pois estava ausente das nossas brigas, e estava ausente porque nós todos estávamos ausentes do sindicato. Um círculo de apatia em que cada um parece ter se acomodado em seu canto escuro. Muitos jornalistas vêm o sindicalismo como um trambolho ultrapassado, coisa de velho ou de peão, nada a ver com pessoas modernas e criativas como nós. Esses tiveram um choque, anos atrás, quando souberam da greve dos roteiristas de Hollywood. Como assim, uma ação sindical no coração da indústria criativa mais importante do planeta? Como assim, caras que escrevem se aliando com outros caras que escrevem para lutar pelo que é melhor para todos? Como assim, caras que escrevem conseguindo, por meio de uma ação sindical, impor sua vontade aos estúdios e atrapalhar a produção de Lost, House, 24 Horas? Sindicalismo. É isso aí. Porque sindicalismo nada mais é do que um jeito de estar junto. E é junto que se faz tudo.

A gente precisa de um sindicato novo para ensinar novas lições. E foi por isso que me juntei ao coletivo Chapa 2 – Renovar para Mudar, Sindicato é Pra Lutar, que disputa agora as eleições do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Anote: as eleições começam hoje e vão até quinta-feira, dia 29. Podem votar jornalistas sindicalizados há mais de seis meses, que infelizmente são minoria. Poucos fazem parte do sindicato porque a maioria não acredita nele. Isso precisa mudar.

Há pessoas muito boas na Chapa 2. A candidata à presidenta é Bia Barbosa, do vídeo aí em cima: jornalista dura e combativa, militante da democratização da mídia, fundadora do Intervozes, que pode se tornar a primeira mulher eleita presidente do sindicato. Tem o candidato a secretário-geral, Pedro Pomar, um lutador de uma família de lutadores, com quem trabalhei na Revista Adusp: dele, posso dizer que foi um dos melhores editores com quem colaborei. E outros, muitos mais. Acho que é de gente assim que podem vir as novas lições, não de um grupo que busca eleger pela terceira vez o mesmo presidente.

Já participei da mesma chapa em outras duas eleições, quando fomos derrotados. Na época, meu apoio foi envergonhado: nem cheguei a divulgar no meu antigo blog, que era razoavelmente lido. Era a postura groucho-marxista de não querer fazer parte de um clube que o aceite, mais o medo de vencer as eleições e de repente sair da cômoda posição de pedra para virar vidraça, uma timidez irmã gêmea da arrogância. São posturas que queimei. Estou aprendendo a levar até o fim cada um dos papéis que assumo no dia-a-dia, seja de pai, amigo, profissional, militante. Estar inteiro em cada aspecto da vida — é o que busco. A mais nova lição que escolhi aprender.

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