Céu por todos os lados

astronauta beyruth

“E a Maurício de Sousa por emprestar os seus brinquedos”, agradece Danilo Beyruth no final de Magnetar, o romance gráfico que ele escreveu e ilustrou com o personagem Astronauta. E parece que Danilo estava mesmo brincando ao contar do seu jeito uma aventura do personagem de Maurício. Brincando do jeito que criança brinca. Já viu como crianças levam a sério uma brincadeira? São capazes de correr para lá e para cá sem parar durante horas, ou de passar um bom tempo sem mexer um músculo, tudo em nome da brincadeira. E ao mesmo tempo não esquecem que estão brincando, e que tudo só vale a pena enquanto estiver divertido.

Danilo leva a sério a sua brincadeira. Isso a gente vê no traço dinâmico e cuidadoso, no ritmo da narrativa, que acelera e ralenta sem perder o pulso de um bom gibi de aventura, e nas referências astronômicas que buscou para montar o Magnetar do título (o cadáver de uma estrela que renasce como um diamante gigantesco, emitindo radiações luminosas em rosa e branco pelo espaço afora e pelas páginas adentro). Mas tudo continua a ser uma brincadeira: só entra na narrativa o que é divertido.

O que fica é uma história de náufrago, lutando com sua própria mente para não enlouquecer e encontrar uma saída para a armadilha em que meteu sua vida. É ali, nos confins do espaço sideral — o mais exterior possível, o mais solitário possível — que o Astronauta consegue olhar para si mesmo e aí encontrar seus amigos e amores,  descobrindo “a proximidade por meio da distância”, como diz Amyr Klink no posfácio.

Klink em seu barco no Atlântico, Danilo com seus papéis, seus lápis e suas tintas, a gente que lê essa história, o próprio Astronauta em sua nave redonda feito os astros por onde navega… todo mundo é astro-nauta nessa história, viajando dentro e fora e descobrindo “céu por todos os lados”.

O detalhe se assemelha ao todo

vida secreta arvores

A morada do criador
O pimpol é a morada do Criador. É uma árvore cultivada pelos hindus e povos da floresta. Eles vêm de longe para fazer suas preces despejando água no seu tronco. O pimpol é tão perfeito que, visto contra o céu, parece ter a forma igual à de sua folha. O detalhe se assemelha ao todo.

Do livro A vida secreta das árvores, que reúne ilustrações e palavras da tribo gonde, da Índia Central, para quem “a fortuna cabe àqueles cujos olhos encontram uma boa imagem”. Os livros são feitos à mão, por meio de serigrafia (dá para ver o processso aqui), e são uma beleza.