Vereadores de SP apoiaram golpe de 64

Fachada do Palacete Prates, onde funcionava
a Câmara Municipal de São Paulo em 1964

O golpe de 1964 havia acabado de parir uma ditadura, que iria torturar e matar centenas de pessoas ao longo de vinte anos. Em 6 de abril, na primeira sessão da Câmara Municipal  de São Paulo após a queda do presidente João Goulart, 15 dos 45 vereadores eleitos resolveram se pronunciar sobre o golpe. Dos 15 parlamentares que falaram, 14 elogiaram o derrubada de Goulart e a ditadura recém-nascida. (A revelação está no número de estreia da Revista do Parlamento Paulistano, lançado em dezembro, que ajudei a editar, uma publicação que busca ser uma iniciativa de comunicação pública, autônoma e livre de interferências políticas.)

Agora em que comissões da verdade buscam apurar fatos e resgatar responsabilidades, é uma boa hora para lembrar que a ditadura de 1964-1985 não surgiu de geração espontânea nem foi uma ação exclusiva de militares. Muitas forças ajudaram no parto e embalaram o monstro, gente da política, do empresariado, da intelectualidade, dos meios de comunicação. Ditaduras e genocídios são filhos de muitos pais, em geral desmemoriados.

Aproveito o post para contar aqui a história de um vereador da mesma época que se opôs ao golpe e pagou por isso, sendo cassado e preso. A história de Moacir Longo foi contada no mesmo número da revista. O título foi tirado de uma carta-discurso de Longo, que você pode ler ao final do post. Lida em plenária logo após a cassação do vereador, a carta é uma imagem de coragem em estado bruto, combatendo o poder que se julga inquestionável.

Moacir Longo e seu diploma de vereador, cargo que ocupou por três meses (foto de Marcelo Ximenez)

“Creio que todos sabem por que estou ausente”

Os vereadores não voltaram para casa naquela segunda-feira, 30 de março de 1964. Nem no dia seguinte. Por duas noites, dormiram e acordaram no interior do Palacete Prates, no Vale do Anhangabaú, onde funcionava a sede da Câmara Municipal de São Paulo. Passaram os dias ouvindo no rádio as notícias sobre a movimentação das tropas que pretendiam derrubar o presidente João Goulart. Um dos parlamentares, o jornalista e militante comunista Moacir Longo, do PSB, sabia: se os militares tomassem o poder, ele corria o risco de sair do palacete direto para a cadeia.
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